Opinião

Ter orgulho pelos campeões e também um país em ordem

Filomeno Manaças

Convivemos com a anormalidade ao longo de vários anos e agora faz espécie, a muito boa gente, que se queira pôr ordem no país. Mas as coisas têm de mudar, para o bem do cidadão, para nosso bem e para o bem de Angola, que afinal de contas pode ser um país bem organizado, com tudo ou quase tudo bem alinhado e direitinho, e as pessoas sentirem orgulho da sua própria terra também no que diz respeito à arrumação de alguns aspectos essenciais à convivência em sociedade.


Ontem acompanhei pela televisão a cerimónia, realizada de manhã cedo na Cidadela Desportiva, de homenagem à selecção nacional de futebol para amputados que regressou de Guadalajara, México, com o título de campeã do mundo na bagagem.
Ao ver os atletas perfilados e a entoarem o hino nacional, fiquei contagiado e uma torrente de orgulho invadiu o meu peito. E eu quero sentir sempre esse orgulho.
Quero sentir sempre esse orgulho quando essa selecção ganha, quando as nossas andebolistas e basquetebolistas ganham títulos, quando os nossos basquetebolistas conquistam troféus, quando os nossos futebolistas realizam proezas que coloquem a nossa bandeira bem alto no mastro e o nome de Angola ecoa pelo mundo fora.
Mas não quero sentir orgulho apenas nessas ocasiões.
Também almejo que um dia tenhamos um país devidamente organizado e possamos sentir orgulho disso.
É que não faz sentido viajar por alguns países aqui bem pertinho de nós e verificar que eles estão bem organizados e nós não. Que são países mais pequenos que Angola, com menos recursos que Angola, mas estão bem organizados e nós não.
Que nesses países não há venda ambulante desordenada de produtos diversos, que não há jovens a assenhorarem-se dos locais de estacionamento de viaturas para depois exigirem ao automobilista algum dinheiro.
Que há um maior respeito entre as pessoas e que, quando o trânsito está emaranhado, há uma regra de precedência que é cumprida a rigor e ninguém fica a querer ser mais esperto do que os demais, a querer passar primeiro, a provocar o caos, etc.
Não me orgulha ver jovens a tomarem conta das ruas mais movimentadas e a interpelarem os utentes de viaturas a ver se compram os bens que transportam, que vão desde alimentos a fármacos, passando por artigos de uso pessoal. Muito menos me orgulha que as pontes pedonais tenham sido invadidas por vendedores ambulantes que as transformaram em autênticos pequenos mercados, servindo de tudo menos para a função para a qual foram construídas, ao mesmo tempo que vamos tendo notícias de atropelamentos de peões por insistirem em atravessar as estradas ali onde há passadeiras aéreas erguidas com o propósito de evitar essas fatalidades.
Não me orgulha também saber que há um mercado de venda de acessórios das mais diversas marcas de viaturas, e que é segura e predominantemente alimentado por fontes ilícitas, embora os seus vendedores se escudem sempre no argumento de que não se dedicam nem ao furto nem ao roubo dessas peças.
Lá diz um velho ditado que, “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm”. Ou roubou-as, ou alguém lhas deu. Desenrolar o fio da meada permite chegar à fonte.
No bairro onde vivo, três viaturas foram, no espaço de um mês, vandalizadas e delas furtadas, na calada da noite, as placas de comando electrónico das mesmas, os elevadores dos vidros e o painel do sistema de AC.
O meu apoio à “Operação Resgate” é, por isso, inequívoco, tendo em conta não apenas  relatos de que o índice de criminalidade estava a aumentar, mas também mesmo a necessidade premente de termos, como bem disse o comissário-geral Paulo de Almeida, “uma Angola diferente, organizada, limpa e segura”.
O trabalho pedagógico que está a ser desenvolvido em torno da operação, de esclarecimento sobre os seus reais objectivos, é indispensável para sensibilizar a população sobre a necessidade e vantagens de termos uma sociedade melhor organizada, onde não haja espaço para quem vive do suborno, da extorsão e outras acções que visam torpedear o normal funcionamento das instituições.
A decisão de se responsabilizar os agentes da Polícia pelo cometimento de eventuais excessos, como a apropriação de bens dos cidadãos, é uma medida que deve ser efectiva, de forma a vincar a seriedade e a forma íntegra como as autoridades estão a tratar do assunto. Seriedade e integridade são também elementos que permitem resgatar a confiança das populações nas autoridades policiais.
Nesta altura do campeonato, em que várias acções estão em curso para normalizar a vida na nossa sociedade, é importante que todos nos convençamos que é preciso acabar com a desordem, com a anarquia que deixou o país à beira do colapso da autoridade do Estado.

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