Opinião

Triângulos escalenos e palavras esdrúxulas

Manuel Rui

Há uns poucos meses, esteve em Luanda uma equipa de dois académicos de arte, ingleses. Vinham recomendados, principalmente o professor e chefe de missão, por razões parentais. Gostaram muito da comida angolana que ofereci e a nigeriana administrativa que os acompanhava deliciou-se em comer funje de mandioca com as mãos rapando com arte o molho do calulu.

Agora eu estava em Lisboa. Haviam-me convidado para um evento cultural acrescido de comes e bebes e farra. Eu disse que só iria à conferência com o único e principal objectivo de me encontrar com a pessoa e ficou assente encontrar dois convites à entrada. Do sítio onde a pessoa amiga estacionou o carro até ao museu da água, lugar do encontro, era uma distância que tive de fazer com esforço para o meu estado de saúde e ainda obrigar os amigos a andar a passos de lesma.
Á entrada, lista de convites vista e revista e nada. Comprámos bilhetes a cinco euros e reparei logo que o bilhete era escrito em inglês e faltava um ene à palavra Angola que se escrevera Agola!...
Depois foi uma chatice porque o pessoal contratado ou voluntário não se orientava bem nos caminhos até chegarmos ao salão. Já estavam sete pessoas sentadas na comprida mesa da conferência. Antes que me esqueça: o programa incluía uma conferência sobre arte angolana contemporânea, lançamento, mesa-redonda, performance, depois jantar tradicional angolano a 30 euros e festa a 10 euros depois das 23 horas.
Pelo andar da carroça, depois do professor que estivera em Luanda me cumprimentar rapidinho com um calhamaço na mão, perguntei-lhe pela pessoa que eu vinha ali encontrar e ele falou que viria mais tarde.
Sem pancadas de Molière abriu a cena sobre o livro Atlantica: Contemporay art from Angola and its diaspora. E tudo foi falado em inglês mesmo uma ou outra pergunta da assistência. Vi algumas pessoas adormecerem e só acordarem com as palmas de vez em quando. Tinha gente ao pé de mim a comentar o mesmo que eu pensava de forma acrescida.
Como era possível, não interessava que todos fossem ingleses, em Lisboa, Portugal, se fizesse uma mesa redonda para lançamento de um livro em inglês e se falasse só em inglês com tanto espaço em Lisboa com sistema de traduções simultâneas? Quem imaginou sair daqui um grupo de angolanos e fazerem uma conferência sobre arte inglesa contemporânea falando em português? Ouvi um jovem sussurrar… “se fosse em Luanda a malta abandonava a sala, o lamentável é que há angolanos metidos nisto,” fiz que não ouvi mas detive-me entre sujeito e objecto. Nós continuamos a ser objecto. E lembrei-me de quem nos estuda como sujeito. E, infelizmente, somos invadidos com frequência pela incompetência. Não conseguem escrever sobre o seu país e fica mais fácil escrever sobre o “outro” com os critérios definidos pela linha abissal que separa os sujeitos que sabem dos objectos a serem estudados.
E veio o beberete em português! com muito pessoal a criticar aquele abuso de imperialismo linguístico. Logo um cineasta amigo se aproximou do meu ouvido para me segredar, isto é Fellini, eu acrescentei chaplinesco, filmar isto sem som seria uma delícia com grandes planos dos que dormiam. Acho graça, disse uma moça de tranças ruças, ninguém teve a coragem de dizer “eu não falo inglês,” pois, tem de se ter vergonha de não falar inglês…
Um à parte, admiro a chanceler alemã, na europa dos euros fala sempre em Alemão, uma língua de pouca expressão enquanto alguns políticos portugueses vão â europa falar inglês de aeroporto ou francês de tabacaria…
Porém há aqui uma questão de honestidade. Nos bilhetes deveria estar escrito em língua portuguesa: esta conferência é toda em língua inglesa. Porque se a moda pega uma pessoa é convidada para uma conferência e chega lá dentro tudo é falado em coreano…
Depois da comprida falação em inglês veio uma tal de performance. Agora chamam a isto plataformas. Reparei que uma razoável parte de pessoas se sentaram em roda no chão, o artista veio ao centro a dizer broncas que hoje já não incomodam ninguém, falam-se nos filmes em inglês ou francês mas são amenizadas nas legendas em português. Ele dizia uma e alguém respondia broncando também, via-se que era combinado, falou-me ao ouvido um amigo que já foi produtor do “Quem me dera ser Onda,” em teatro. Só que hoje ninguém se choca com isso, depois o artista resolveu cantar contra a música, quando saiu da roda uma senhora que estava de pé gritou que fossem todos para aquela parte que vocês sabem de certeza o que ela disse.
Saímos. O meu amigo produtor ainda me falou: “sem querer assistimos ao reino desunido.” Qual? Perguntei. O do Brexit!”
E eu concluí: … triângulos escalenos e palavras esdrúxulas.
Em Lisboa estavam a passar várias exposições, concertos e similares assinalando passamentos de artistas famosos. No entanto, a euronews, passou parte de uma entrevista do performancista. Quem bancou isto tudo?

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