Opinião

Trump "avisou" que os Estados Unidos "estão de volta"

Luis Alberto Ferreira

Um belo dia, o mago argentino da literatura, Jorge Luís Borges, disse que “o tango é a dança dos maridos consumidos”. A dedução mais escorada no óbvio só pode ser esta que eu proponho: não é o tango argentino quem de facto “consome” os maridos, mas sim os inumeráveis tangos dançados pelos principais “maridos” do planeta– coisa insignificante, o planeta, que Donald Trump deseja ao Deus dará: o tango da ambiçãoincomensurável, o tango da prepotência totémica, o tango do desdém catapultado para patamares de desprezo total pelos destinos da Humanidade. Que em paz deixemos, pois o tango, que Carlos Gardel e Astor Piazzolla imortalizam.

Trump“avisou”, antes mesmo  da bombástica defenestração dos Acordos de Paris, que “os Estados Unidos estão de volta”. Afirmação incurial e demonstrativa, em teoria, de que o inquilino da Casa Branca talvez pense em anexar o mundo aos Estados Unidos. O mundo passaria a constituir, pois, um dos já numerosos Estados que constituem o seu país. Os Estados Unidos, em termos geofísicos, seriam então muito maiores, com  Estados como o Mundo, a Califórnia, o Texas, o Ohio, o Alabama, o Arizona, por aí fora. A China, registo inevitável, seria também incorporada. Podendo, quem sabe, vir a ser um Estado norte-americano muito “frequentado” não só por chineses como também por indonésios, cambojanos, vietnamitas, japoneses e sul e norte-coreanos. Estes últimos estariam, sempre, sob “marcação cerrada”, não fossem eles proceder a experiências com mísseis durante uma cerimónia dos “Óscares” em Hollywood. E a Rússia, resignada, também transformada noutro Estado norte-americano, entregaria à equipa de economistas mui expeditos da Casa Branca a gestão do seu gás e do seu património cultural.
Assim concebida e consumada a nova configuração do mundo, com os Estados Unidos “de volta”, um enormíssimo problema se colocaria à administração Trump: com quem arranjar conflitos, guerras, invasões ou vendas de armamento no valor de 110 mil milhões de dólares, ou mais, dado que a Arábia Saudita, habitual e entusiástica compradora, estaria também anexada e, agora por completo, “americanizada”. Mais problemática ainda seria a anexação da Europa e a sua transformação em Estado norte-americano alojado nas vizinhanças do Texas ou do Arizona. A senhora Angela Merkel ficaria apavorada, no Texas, com os célebres corredores da morte, 90 por cento de negros e latino-americanos à espera da cadeira eléctrica. E a França do centrista Emmanuel Macron perderia por completo o centro das suas hoje promissoras elucubrações. À revelia do FBI e da CIA, a senhora Merkel, o senhor Macron e o senhor Rajoy teriam reuniões secretas, ou discretas, não para questionar a anexação, mas para recordar e penitenciarem-se pelo tempo perdido com o “Brexit”, com o Banco Central Europeu e com os despistes na questão dos refugiados ou da moeda única. Estados Unidos “de volta”, Donald Trump chamaria Varoufakis e levaria os ex-líderes europeus que tramaram a Grécia a apresentarem-lhe as mais sentidas e sinceras desculpas. Os sábios, ou seja, os chineses, quereriam “falar com todos”. Assuntos de fundo não faltariam. E ganharia fôlego o “síndrome da capitulação”: países de há muito colonizados pelo Tio Sam renunciando, como Porto Rico, ao independentismo, para serem mais um Estado, neste caso o 51.º, norte-americano.
Se, como anunciou Donald Trump, os Estados Unidos “estão de volta”, também os vietnamitas anexados poderiam, de igual modo, “estar de volta”. Os campos de batalha do Vietname ainda são um sério problema social para os norte-americanos, andando os psiquiatras e os psicólogos numa lufa-lufa interminável. Outro inconveniente estético e moral seria a presença das Filipinas no novo conglomerado que Trump causaria com os Estados Unidos “de volta”: à frente dos filipinos anexados estaria o seu temível presidente, o senhor Duterte, que se orgulha de ele próprio ter carregado, em Manila, os corpos sem vida de três “infractores” em cujo fuzilamento ele tomou parte muito activa. É verdade que qualquer civil norte-americano é livre de ter em casa e levar para a rua uma ou duas metralhadoras e outros tantos pistolões, mas olhem que o senhor Duterte, o das Filipinas, não é homem para “facilidades”. O aconselhável, para evitar mais derramamento de sangue, seria Trump devolver, sem dar muito nas vistas, a independência às Filipinas. Porque o senhor Duterte, com poderes soberanos apesar de anexado, não hesitaria em tomar de assalto a sede do Pentágono ou, como alternativa, invadir as penitenciárias do Texas e libertar os filipinos que ali se acham alinhados nos funestos corredores da morte.
Do meu ponto de vista, o único benefício seria, talvez, a integração do Iemen, da Somália e do Sudão no complexo administrativo descentralizado dos Estados Unidos. Para começar, os califas sumptuários e inamovíveis da Arábia Saudita ficariam defraudados e de mãos amarradas vendo o Iemen norte-americano fora do alcance do armamento desmesurado que eles, os califas, adquiriram antes da anexação, que ninguém terá previsto a tempo e horas.A Somália e o Sudão, a contas com secas e fomes cíclicas, beneficiariam também da “abundância” norte-americana. Podendo, em questões sanitárias, tirar vantagens do facto de Trump não ter conseguido, por enquanto, autorização para demolir por completo o serviço nacional de saúde alargado por Barack Obama.
Quem de certeza não iria perder-se de amores pela anexação do mundo pelos Estados Unidos seriam os presidentes da Colômbia, do México e da Argentina, onde impera o salve-se quem puder. Em consonância com os novos Estados, o novo país, as novas responsabilidades, o presidente Donald Trump traria sim os Estados Unidos “de volta”, mas tornar-se-ia mais calmo, mais reflexivo. (Poria até em causa o misterioso júri do Nobel da Paz). Menos arrebatado, mais amigo do ar puro, dos riachos, das plantas, dos campos de milho e de trigo não transgénicos, das pradarias onde correm as zebras, as girafas, e esvoaçam as inocentes borboletas.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia