Opinião

Um erro de palmatória

Filomeno Manaças

A África do Sul está para nós a três horas de voo e o que lá se passa suscita todo o nosso interesse. A “lei da proximidade”, um dos principais e mais correntes critérios de noticiabilidade, segundo o qual é jornalisticamente mais relevante um acontecimento ou questão mais próxima dos interesses do público a que se destina, impele-nos a seguir com atenção as coisas boas e más que ocorram em países com os quais cultivamos afinidades de vária ordem.

Embora não partilhemos fronteiras, a África do Sul é, para nós, um país vizinho. As terras de Mandela passaram a ser um destino apetecido para os angolanos a partir do momento em que o apartheid caiu. Com essa queda também desapareceu do nosso passaporte a proibição implícita de viajar para a África do Sul. Na parte final do documento que então vigorava vinha claramente escrito: “Válido para todos os países excepto África do Sul”.
Os angolanos e outros povos bateram-se pelo fim do regime do apartheid, apoiando a luta armada e política levada a cabo pelo Congresso Nacional Africano (ANC). A ascensão de uma nova África do Sul, sem discriminação racial, com liberdade de expressão e de pensamento político, foi festejada em todo o mundo e, de modo particular, pelos povos dos países da África Austral que nessa luta mais sacrifícios consentiram. Porque abriu-se uma nova fase na vida das nações desta parte do continente africano.
Os angolanos passaram a demandar a África do Sul para férias, para negócios, para a frequência de estudos e até mesmo por razões médicas. Por isso, é natural que, quando há convulsões, se instalem legítimas apreensões.
Há praticamente duas semanas que as notícias sobre a ocorrência de actos de violência em várias cidades da África do Sul e as suas consequências dominam os noticiários internacionais. Acompanhamos a intervenção das autoridades sul-africanas para estancar o mal e, particularmente, a tomada de posição do Presidente Cyril Ramaphosa, que considerou na quinta-feira (05.09) os ataques injustificáveis e disse que “nenhuma forma de raiva, frustração ou lamentação pode justificar estes actos de destruição e criminalidade arbitrária. Não pode haver desculpa para os ataques a residências e empresas de estrangeiros, assim como não pode haver desculpa para a xenofobia ou qualquer forma de intolerância”.
Terça-feira, o Presidente João Lourenço recebeu o enviado especial do seu homólogo sul-africano, que veio a Luanda dar explicações detalhadas sobre a onda de violência que sacudiu algumas cidades daquele país. De entre as declarações que Khulo Mbtaha proferiu à imprensa, destacamos o facto de ter reconhecido que os ataques abalam a imagem da África do Sul, mas sobretudo o facto de ter frisado que “a questão crucial é que as forças de segurança não foram totalmente capazes de lidar com as causas basilares e as motivações das pessoas, levando o país à situação em que está”.
Um breve apanhado de casos mostra-nos que as vagas de violência, particularmente contra estrangeiros, já ocorrem há vários anos na África do Sul. Em Maio de 2008, em Fevereiro/Março de 2013, em Fevereiro de 2014, em Maio/Abril de 2015, em Março de 2017, em Setembro de 2018 e agora novamente em Setembro de 2019.
Portanto, muita gente já assumiu que é um fenómeno que ocorre ciclicamente na África do Sul. Ora, o que é que se espera que aconteça?
O que os restantes países africanos esperam, o que os cidadãos dos outros países africanos esperam, o que todo o mundo em geral espera, é que as autoridades sul-africanas tomem a peito o assunto e ponham ponto final, de uma vez por todas, a esse tipo de situações.
Ninguém anda assim tão distraído para não reconhecer a presença de fortes traços de xenofobia em todas essas acções de violência. Ainda que as autoridades não queiram assumir que se trata de xenofobia, e é compreensível que assim seja, porque, afinal de contas, não há uma política de Estado nesse sentido, a verdade é que há a presença de fortes traços de xenofobia em todas essas vagas de violência. Xenofobia ou não, trata-se de casos de violência inadmissíveis, de crimes que devem ter um tratamento exemplar, até mesmo para dissuadir situações futuras.
Nada justifica que um incidente entre um taxista e um outro cidadão degenere em onda de mortes, saques e pilhagens sem que as autoridades estejam em condições de intervir de imediato e de forma firme para evitá-la.
É irrelevante ter em conta os factos que estiveram na origem da espiral de violência. Procurar realçar esse detalhe pode dar às pessoas o direito de interpretar essa alegação como uma defesa dos actos que, na sequência, se produziram. Neste momento, o que mais importa é condenar todos os actos de violência, sem olhar à forma como surgiram.
E não é uma opção feliz escolher o actual contexto para vir a público falar da nova política migratória da África do Sul, quando, no rescaldo dos acontecimentos, milhares de moçambicanos, de zimbabweanos e de nigerianos estão a ser forçados a deixar o país de Nelson Mandela, se calhar muitos deles até com a situação regularizada.
Isso é um erro de palmatória, prezado embaixador Fanie Phacola.

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