Opinião

Um “freedom fighter” nas brumas do esquecimento

Filipe Zau |*

Edmundo Vicente Melo Rocha nasceu em Porto Amboim, na província do Cuanza-Sul e comemorou, na passada terça-feira, dia 21 de Maio, o seu 88º aniversário natalício. Filho de um português e de uma angolana, neto da Maria Ebo, figura emblemática dos musseques daquela cidade, teve a sua infância no Morro do Canivete, não muito longe da antiga estação de caminho-de-ferro do Amboim, onde antigamente chegavam para os armazéns os sacos de café torrado, levados posteriormente em botes para os navios cargueiros atracados, ao largo, na grande baía daquela cidade.

Fez a instrução primária na sua terra natal e iniciou os seus estudos secundários em Luanda, no ex-Liceu Nacional Salvador Correia e também em Coimbra. Com 21 anos de idade, licenciou-se em Medicina e especializou-se em Pediatria e em Imuno-Alergologia. Mais tarde, na Argélia, doutorou-se em Pediatria.
Entre 1949 e 1954, foi membro da Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Coimbra; do Movimento de Unidade Democrática (MUD-Juvenil); da direcção do Movimento Anti-Colonial (MAC) e do Movimento de Estudantes Angolanos (MEA). Na Alemanha, já no exílio, participou na organização da fuga de cem estudantes africanos de Portugal.
Em 1961, organizou, em Marrocos, o Congresso Constitutivo da União Geral dos Estudantes dos Países sob Domínio Colonial Português (UGEAN). Em Setembro de 1961, participou da instalação do MPLA em Leopoldville (hoje Kinshasa, capital da República Democrática do Congo) e exerceu medicina no Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR). Após a expulsão do MPLA e do próprio CVAAR de Leopoldville, parte para a Argélia, tendo regressado a Angola, com a independência, em 1975.
Em Lisboa, foi presidente da Casa de Angola e fez parte da direcção da revista cultural Afro-Letras. Iniciou, em 1997, a sua actividade de pesquisa científica, através de um artigo inserido na revista “Mensagem” intitulado: “A CEI nos anos de fogo”. No mesmo ano, publica o opúsculo “O Clube Marítimo Africano” e, em 2003, sai a público “Angola: Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano (período de 1950-1964)”, um trabalho de fôlego, distinguido, em Angola, com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Investigação em Ciências Sociais. Para além de ser um dos livros mais vendidos em Angola, o mesmo procura dar respostas ao conturbado percurso do nacionalismo angolano, iniciado a partir da segunda metade do século XX.
Apesar da sua enorme experiência como militante antifascista e anticolonialista, face ao rigor epistemológico a que se sujeitou (enquanto investigador na área das ciências sociais), foi suficientemente modesto para entender que o objectivo do seu trabalho era apenas o de contribuir para a historiografia angolana e nunca o de perseguir a verdade única e indiscutível na interpretação dos factos. Porque as ciências sociais não se regem por determinismos rígidos, mas, sim, tendenciais, levou-o a afirmar que o seu trabalho de investigação “(…) não lhe confere uma autoridade incontestada nem uma autenticidade particular”. Todavia, a sua contribuição para a história contemporânea de Angola é irrefutável.
Em 2008, juntamente com Francisco Soares e Moisés Fernandes, participou da elaboração do livro “Viriato da Cruz: o Homem e o Mito”. Viriato da Cruz nasceu também em Porto Amboim e conviveu mais de perto com Edmundo Rocha, quando este, durante seis meses, o hospedou na sua residência em Argel, antes de Viriato ter seguido para a China, onde acabou por falecer.
Está, portanto, Edmundo Rocha apresentado, de parabéns pelo seu 88º aniversário natalício e por não ter sido um combatente qualquer, mas um verdadeiro “freedom fighter”, que muito contribuiu para a independência do país que o viu nascer. Também por ter sido um bom profissional de medicina e, já com a idade avançada, um bom investigador. Tudo deu e nunca pediu nada a Angola. Apenas o desejo de ter o Bilhete de Identidade Angolano, que a cegueira burocrática, lamentavelmente, lhe vem negando.
Contudo, seria bom que, “pelos relevantes serviços ao país e/ou pelas suas qualidades científicas”, tal como reza a nossa Constituição, houvesse, pelo menos, 15 deputados da Assembleia Nacional, em exercício de funções, que propusessem a concessão da nacionalidade angolana a este cidadão “estrangeiro”(?!). Obviamente, enquanto durarem os poucos anos de vida, que lhe restam… Tal como muitos outros, há que evitar, que mais um bom filho deste País se perca nas brumas do esquecimento.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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