Opinião

Um mundo melhor depois da pandemia...?

Apusindo Nhari |*

Para as milhões de pessoas que, um pouco por todo o mundo, perderam o emprego, ou viram drasticamente reduzidos os seus rendimentos como consequência da crise causada pela Covid-19, poderá até parecer absurdo que nos interroguemos se o mundo poderá vir a estar melhor depois dela.

A Organização Mundial do Trabalho - OIT, estima que esta crise elimine, globalmente, no segundo trimestre de 2020, o equivalente a 195 milhões de postos de trabalho a tempo inteiro. E não esqueçamos as cerca de 400.000 mil pessoas que já perderam a vida, e toda a dor daí decorrente.
Mas, se há uma coisa que esta crise nos recordou, é que, na sua unidade, o mundo é extraordinariamente diverso, cheio de complexidades e contradições. Recordou-nos que as crises são por vezes o momento doloroso em que ocorrem saltos qualitativos. Estaremos perante um desses momentos - em que as dores e as dificuldades imediatas são sinais do germinar de um futuro melhor - ou estaremos apenas a viver um desastre que deixará marcas, profundas e persistentes, que perdurarão por várias gerações?
Vale a pena explorar estas duas possibilidades clarificando, de início, o quadro de referência de uma tal avaliação. Numa lógica puramente ambientalista, e adoptando uma perspectiva de curto prazo, é tentador pensar que a pandemia está a transformar o mundo positivamente. É evidente o terrível golpe no funcionamento das economias que operam com pouca sensibilidade para com os seus impactos, em especial sobre o ambiente. A redução na emissão dos gases com efeito de estufa - provavelmente num valor próximo dos 7 por cento, a meta para 2020, estabelecida no Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas -, a redução do consumo e do consumismo, o reconquistar de espaço por animais selvagens de várias espécies, parecem mostrar um impacto positivo da Covid-19. Mas, até este olhar parcial deve ser cauteloso, pois estas mudanças serão revertidas pela previsível “recuperação económica”. E sem adoptar o “olhar parcial”, característico de uma perspectiva meramente ambientalista importa ter em conta que o ambiente é como uma das pernas de um tripé, que só quando associado às outras duas dimensões, a sócio-cultural e a económica, gera progresso duradouro.
Em Setembro de 2015, estabeleceram-se em Nova Iorque os 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável - ODS, a serem alcançados até 2030. O diagnóstico implícito é claro: o reconhecimento de um mundo profundamente desigual, onde os mais fracos são sistematicamente prejudicados, onde os modelos de desenvolvimento em vigor buscam resultados imediatos sem contabilizar os custos sobre o ambiente e os desfavorecidos. Façamos um passeio - em ritmo de corta-mato… - por alguns desses objectivos.
O primeiro, o da eliminação da pobreza, nas suas diferentes dimensões, e que integra muitos dos outros objectivos, é afectado negativamente pela crise. Não apenas porque os grupos sociais, e os países mais pobres, são mais vulneráveis aos impactos vários da Covid-19, como é também provável que os recursos anteriormente dedicados pelo apoio internacional ao desenvolvimento - que era já inferior ao prometido - seja agora canalizado prioritariamente para a recuperação dos países mais ricos. Algumas das simulações feitas pelo PNUD revelam que as condições actuais poderão, sem medidas correctivas, ser equivalentes a uma regressão no desenvolvimento humano, que apaga os progressos conseguidos nos últimos seis anos. Os objectivos relacionados com acesso a serviços básicos e bem estar - como a educação, saúde e água - estão estreitamente relacionados com a pandemia. A educação, para quem não tem acesso às TIC, é um serviço que, apesar das experiências inovadoras de ensino à distância, quase se esfumou de repente. Ao nível da saúde, parece ser um padrão comum, todas as outras doenças terem passado a receber menos atenção e recursos. Será que a adopção massiva de novos hábitos - como a lavagem das mãos acabará por ter um impacto indirecto na diminuição de muitas doenças contagiosas?
Fora do quadro dos ODS esta pandemia mostrou-nos como estamos interligados e como o nosso poder sobre a natureza é mais limitado do que pensávamos. Talvez isto nos devesse estimular a cultivar mais humildade, um desenvolvimento mais responsável, solidário, e harmonioso com ela. Os comportamentos de solidariedade e responsabilidade profissional, muitas vezes divulgados pelos órgãos de comunicação social - os profissionais de saúde, os artistas a usarem a Internet, os vizinhos a cantarem juntos nas varandas - são sem dúvida estimulantes, mas escondem, provavelmente, a gravidade, e profundidade do impacto das mudanças, sobre os muitos que, pelo mundo fora, não têm varandas, acesso à Internet, ou mesmo, a serviços de saúde.
Estas considerações aplicam-se aos países como o nosso, nos quais a pandemia não aconteceu, mas onde o susto que a sua ameaça causou, levou a tomar as medidas preventivas que - imitando, justificadamente ou não, os países mais afectados - têm causado os mesmos males sobre o emprego, e sobre as camadas menos privilegiadas.
O PNUD defende que - para que não se saia da crise com um mundo ainda mais injusto - as soluções deverão assentar em três princípios:
Encontrar respostas na perspectivada equidade, conscientes de que os que já eram desfavorecidos (países ou grupos sociais) sofrerão mais profundamente com esta crise e deixá-los para trás deixará um impacto profundo e prolongado sobre o desenvolvimento humano;
Manter o foco no reforço da capacidade das pessoas, preparando-as para lidar com as prováveis pandemias futuras;
Seguir abordagens mais sistémicas do que fraccionadas, por sectores.
Irá o mundo gerar as múltiplas lideranças capazes de nos mobilizar para, em conjunto, seguirmos estes princípios? Há motivos para duvidar, o que reforça a necessidade de estimular, em cada país e em cada comunidade, uma mais firme cidadania global.

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