Opinião

Um rei emérito a bazar

Manuel Rui

A Espanha de Franco viveu uma das mais sangrentas e simbólicas guerras dos idealistas, amantes da liberdade contra um fascismo feroz. Homens de várias partes do mundo acorreram a Espanha.

 Escritores, músicos, pintores, sindicalistas lutaram e morreram em Espanha e sobraram poemas de Lorca, livros como “Mourir a Madrid” ou o eterno quadro de Picaço a “Guernica.” Ainda houve quem conseguisse exilar-se como foi o caso de Picasso para França.
Salazar abrigou o exílio da família real espanhola e o jovem futuro rei viveu em Cascais e foi educado em Portugal. Franco antes de morrer legou o poder ao rei. Dava impressão que através da monarquia se perpetuaria o autoritarismo franquista. No entanto o rei, suavemente, instalou uma monarquia constitucional, formaram-se partidos e veio a democracia.
No monumento erguido às vítimas da guerra civil, O Vale Dos Caídos, também sepultaram Franco até que, recentemente, movimentos da sociedade civil, contra a vontade da família do “caudilho”, obrigaram a saída dos restos mortais de Franco para fora do monumento num gesto parecido com o derrube das estátuas.
Numa altura em que a Espanha atravessava uma crise, descobriram D. Carlos divertindo-se a matar elefantes no Botswana. Foi um escândalo nacional e internacional para uma coroa já com escândalos económicos da descendência real.
Juan Carlos ocupou o trono entre 1974 e 2014. Virou rei emérito e passou o poder ao filho príncipe das Astúrias.
Agora rebentaram broncas de foro criminal. O emérito foi alvo de investigações de promotores suíços e da justiça espanhola por corrupção. O muadiê terá recebido 100 milhões de dólares da Arábia Saudita depositados em 2008, ilegalmente, numa conta Suíça. Era a continuação da vida de lazer nos iates com mulheres à mistura de uma paixão última com uma senhora de 74 anos (uma catorzinha para um cota de 81 anos) a quem agraciou com 65 milhões de dólares, por gratidão, segundo a senhora que era mais uma na longa lista que a antiga rainha sempre fingiu não saber. E o emérito tomou uma decisão: escreveu uma carta ao filho, rei Felipe VI a pedir para abandonar o país. Há seis dias, o emérito terá abandonado o palácio de Zarzuela para ir viver com a amante, O rei Felipe fez uma comunicação de Estado apelando à ordem e ao respeito dos militares pela constituição e as leis.
A corte espanhola está podre. O emérito a que se deve a burocracia caiu na lama. É um criminoso. E os criminosos devem ser punidos. Para aliviar a pressão o emérito opta pelo exílio e tentar limpar a mancha. Uma televisão portuguesa assegura que está em Cascais, mas em Espanha também se fala em Marrocos ou República Dominicana é o que se diz hoje, terça, quando escrevo. Mas sobra um problema. Juan Carlos não será julgado por corrupção enquanto os que querem a independência da Catalunha andam pelas cadeias?
Os reis costumam-se exilar por mor da política, golpes de estado, etc., neste caso tudo é singular, um rei que já não governava, divertia-se com amantes e corrupção e exila-se por ter sido descoberto e com processo aberto. A Espanha vai enfrentar uma instabilidade sui generis com os antimonárquicos a hostilizarem a coroa. Quer dizer que o criminoso decide por si a sua absolvição e desta vez o rei não vai nu, mas vestido de dólares. Mas Carlos foi ao fundo da sua dignidade para salvar a coroa. Ele a quem se deve a democracia em Espanha.
O que se passa em Espanha faz-nos lembrar dos Santos que se exilou, silenciosamente, em Barcelona, num palacete com segurança à distância e impedimento de alguém se aproximar como já passou nas televisões. Dos Santos que tinha o emeritismo da paz, não pediu perdão ou desculpa a ninguém… O emérito espanhol que é um aprendiz comparado com Isabel dos Santos, pelo menos pede perdão e diz que se vai exilar enquanto o casal do American Dream in Sonangol, não pediu perdão, saiu sem qualquer impedimento e protagoniza cenas de mais categoria que o célebre gangster Al Capone. Mas ainda estava a tempo de, voluntariamente, regressar a Angola, penitenciar-se, pedir perdão e reencontrar um caminho de riqueza, deixando o grosso do bolo para o lugar de onde o retirou. Eu, por mim, deixava-lhe os supermercados.
O mundo está assim. Um pobre pode ser preso por roubar um pão para comer ou uma bicicleta para andar…vamos fazer mais como? As cadeias foram feitas para os pobres já presos em solidão nas grades da miséria e da fome.

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