Opinião

Um ano depois… e agora?

Adebayo Vunge

Existe na televisão pública francesa, especificamente no canal france2, um programa muito interessante chamado “des parole et des actes”, literalmente algo como «da palavra e dos actos».

É um programa de debate, com um convidado. Este é confrontado com questões colocadas em blocos, por alguma pessoa da plateia, seus correligionários e seus oponentes. Foi neste programa que Emmanuel Macron, pode-se dizer, assumiu publicamente, em Março de 2015, o seu estatuto de jovem presidenciável. O que vimos a seguir é um Presidente com forte ímpeto reformista e um grande sentido pragmático, colocando-se longe das tradicionais querelas ideológicas e político partidárias da realidade gaulesa.
Ora, salvaguardando as devidas distâncias, é assim que olho hoje para o Presidente João Lourenço, um ano após assumir a Presidência da República, e recentemente, a presidência do MPLA. Da palavra aos actos, não nos restam dúvidas quanto ao ímpeto reformista que o Chefe de Estado vem assumindo nos seus discursos e que vai ganhando forma com a prática da sua governação.
Olhando aos 365 dias passados, gostaria de ater-me ao que considero fundamental. João Lourenço é um homem sem tabús. Assume um discurso reformista, identificando os diferentes eixos do que será a sua governação, rumo à verdadeira moralização e normalização do Estado (democrático e de direito).
Em primeiro lugar, há um desanuviamento da tensão política no País, deixando espaço público para que todos os cidadãos participem nas questões da polis. A liberdade é um pressuposto inevitável para que haja desenvolvimento. A liberdade de expressão, a liberdade de criar, a liberdade de empreender, mesmo numa conjuntura económica muito delicada, como esta que vamos experimentando. A liberdade, mas a ela acresceria a igualdade. Deixamos de ter zonas exclusivas, espaços e oportunidades que beneficiavam fundamentalmente alguns. O Estado passa a estar obrigado a proporcionar os mesmos direitos e oportunidades para todos e teremos com isso uma sociedade de meritocracia. Alguns se arrogavam ao mérito como exclusividade sua. Alguns se arrogavam à condição de melhores, mais empreendedores que os outros em função apenas dos seus privilégios. Esse tabu foi quebrado, como o Estado promete quebrar os monopólios que vinham destorcendo a economia por ausência de concorrência.
Ora, tivemos um ano eminentemente político e é compreensível que assim fosse. João Lourenço precisava afirmar-se interna e externamente como o novo Chefe de Estado. E deixar as marcas que o distinguem do seu antecessor, seja nas similitudes seja nas diferenças, no que ficou já apelidada de ruptura na continuidade.
O novo inquilino da Cidade-Alta colocou a fasquia demasiado alta com o seu fulgor irresistível contra a corrupção em Angola, outrora segunda mal, hoje em dia o maior problema. E os sinais que vai dando na senda do combate à corrupção pelo combate à impunidade é um caminho vital ao qual deverá contar com o auxílio de um sistema judicial independente e competente. Todos reconhecemos que existia em Angola uma chocante ausência do primado da Lei e do poder disciplinador do Estado que fechava os olhos a tudo, menos ao roubo de galinhas… sim porque até um qualquer estrangeiro já se permitia roubar cabos eléctricos para sua exportação...
Ora, e agora?
Chegados aqui, temos de admitir, pela natureza do ser humano, é expectável a busca incessante pelo melhor. E este melhor passa por devolvermos qualidade de vida à nossa população. Independentemente dos desafios que se colocam no plano político, são as questões económicas e sociais que vão ditar os próximos tempos da agenda presidencial.
Do ponto de vista económico, o Executivo vai avançar com um Programa de Financiamento Ampliado (Extended Fund Facility – EFF), com o FMI que visa a recuperação da situação económica, com Medidas de Reforma Estrutural, Reestruturação e fortalecimento dos principais indicadores macroeconómicos. A crise vai longa, mas deve ser agora um desafio e uma oportunidade para reformar, crescer e combater o desemprego, especialmente entre os jovens.
Não podemos permitir-nos aceitar a existência de bolsas de miséria abjecta no nosso País, espelhada em pântanos fétidos e um mar de doenças preveníveis a testarem um sistema de saúde em construção; a fraca qualidade do sistema de ensino denunciada agora nos resultados vergonhosos do concurso de contratação de novos professores e não sei mesmo o que será já pior, se as crianças em idade escolar fora das instituições do ensino por falta de documentos ou insuficiência da rede escolar, ou se alunos que mais parecem analfabetos mesmo ao fim do ensino fundamental. Não vou aqui falar da vulgarização do ensino superior e a escassez do ensino técnico-profissional pois a aposta nos CINFOTECs deveria persistir e expandir-se ainda mais. Arrisco-me a dizer que temos hoje mais universidades que instituições de formação técnico-profissional.
Nisso, a nossa esperança é igual a da criança que grita pelo lobo. Tarde ou cedo este aparecerá. Oxalá já com Jlo, para que possamos ainda estar em tempo de impedir a onda silenciosa de gente nossa que começa agora a abandonar o País, números que se misturam com os dos expatriados e por isso pouco perceptíveis, mas muito preocupante por se tratar de capital humano que tanta falta faz para as nossas empresas.
O momento do país é crucial. Estamos num caminho com dois desvios opostos. O dos Estados que com coragem avançam para o desenvolvimento e o progresso social, que valorizam o trabalho e a cidadania. O outro caminho é o do subdesenvolvimento, do atraso económico e da eterna dependência aos outros. O destino é por isso uma opção. Na metáfora de Alex Vines, a nossa encruzilhada está entre a Malásia e a Nigéria.
O outro exemplo é o da Coreia do Sul, que em 1985, era um país relativamente pobre. Hoje, a Coreia do Sul é uma das principais potências mundiais, os seus cidadãos estão entre os mais instruídos.

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