Opinião

Um holocausto de recordação permanente

Filipe Zau | *

Coincidindo com a data das próximas eleições em Angola, o dia 23 de Agosto foi em 1998 designado pela UNESCO como Dia Internacional de Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição”.

Novos dados apresentados por historiadores da Universidade de Emory, em Atlanta, nos EUA e de Hull, na Inglaterra, mostram haver uma hegemonia de portugueses e brasileiros no comércio de escravos, bem maior do que se pensava antes: deixaram a costa africana cerca de 12,5 milhões de escravos, durante a escravatura; morreram cerca 2,5 milhões de escravos, durante a travessia atlântica.
Publicado na revista “Stvdia”, nº 50, de 1991, o texto intitulado “Para o estudo do tráfico de escravos de Angola (1640-1668)”, da autoria de Maria Luísa Esteves, do Centro de Estudos de História e  Cartografia Antiga, do Instituto de Investigação Científica Tropical, refere que “era verdadeiramente desumana” a maneira como, naquela época, os escravos originários de Angola eram transportados para o Brasil.
“A fim de evitar os suicídios em massa, pois muitos deles preferiam a morte a ir trabalhar para a América, metiam-nos na coberta do navio, aferrolhados e apertados uns contra os outros, mal podendo respirar. Nestas condições e com uma alimentação insuficiente e má, feita quase sempre com géneros deteriorados, não era para admirar que grande parte deles morresse pelo caminho. A percentagem de 30 a 40 por cento era considerada normal e a designação dada aos navios empregados neste tráfico – ‘tumbeiros’, de tumba – mostra eloquentemente, tornando desnecessárias mais explicações, o que seriam tais viagens nessa espécie de ‘esquifes flutuantes’.”
Em Fevereiro de 1992, na Ilha de Gorée (Senegal), o Papa João Paulo II referiu que o comércio de escravos teve a participação de “pessoas baptizadas, mas que não viveram a sua fé”, e declarou: “A partir deste santuário africano do sofrimento negro, imploramos o perdão do céu”.
Em Abril de 2005, dias depois da morte de João Paulo II, o ex-presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, visitou aquele local e disse: “quando se comete um grave erro histórico, como no caso dos negros e dos judeus, o Papa nos ensinou que é fácil pedir perdão. “Não tenho nenhuma responsabilidade com o que aconteceu no século XVIII, nos séculos XVI e XVII, mas penso que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e ao povo da África: perdão pelo que fizemos aos negros”.
Em 30 de Janeiro de 2006, o ex-presidente francês Jacques Chirac destacou o dia 10 de Maio como um dia nacional em memória das vítimas da escravidão promovida pela França.
Em 27 de Novembro de 2006 Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, fez um pedido de desculpas parcial pelo papel do Reino Unido no comércio de escravos africanos. No entanto, activistas dos direitos africanos denunciaram o discurso como “retórica vazia”. Blair pediu novamente desculpas, no dia 14 de Março de 2007.
Em 31 de Maio de 2007, o governador do Alabama, Bob Riley, assinou uma resolução expressando “profundo pesar” pelo papel do Estado na escravidão e pediu desculpas pelos erros e efeitos remanescentes. O Alabama foi o quarto estado do sul a fazer um pedido de desculpas formal pela escravidão, após Maryland, Virgínia e Carolina do Norte.
Em 30 de Julho de 2008, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução pedindo desculpas pela escravidão e por leis discriminatórias posteriores.
Em 18 de Junho de 2009, o Senado dos Estados Unidos emitiu um comunicado pedindo desculpas e condenando as “fundamentais injustiças, crueldades, brutalidades e desumanidades da escravidão”, uma notícia bem recebida por Barack Obama.
A 23 de Abril de 2017, Macelo Rebelo de Sousa, presidente da República Portuguesa, afirmou que o poder político português reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu, em parte, do seu território pela mão do Marquês de Pombal, em 1761” (?!). Minimizou de forma ridícula a questão e fingiu esquecer que só em 1836, foi oficialmente decretada a abolição em Portugal do tráfico de negreiro e apenas em 1869 deixou de haver escravos em todos os territórios sob administração portuguesa. Para dizer o que disse, valia mais não ter ido à Ilha de Gorée.
Nos dias de hoje, políticos portugueses procuram apresentar-se como os maiores defensores dos direitos humanos em África. Talvez para branquear o quanto Portugal desrespeitou, durante séculos, direitos humanos de milhões de africanos inocentes – homens, mulheres e crianças – sob a capa de uma predestinação para o comprimento de uma exemplar missão civilizadora, através de uma colonização de “brandos costumes”.

 * Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia