Opinião

Uma noite de loucos...

Matias Adriano

À data da grande final, que evocamos hoje, contava eu 13 anos, a escassas duas semanas para apagar a 14ª vela. Morava na Cónego Manuel das Neves e integrava um grupo de meninos imbuídos de bons princípios, como, de resto, era na época. Escola, matineé aos sábados e domingos, desporto e afazeres caseiros preenchiam o tempo.

O Girabola, que ia na sua segunda edição, era quase a preferência e o pômo de discórdias desportivas no seio do grupo, porque seria algo anormal todos sermos adeptos do mesmo emblema. Havia, por isso, os do 1º de Agosto, os da Taag e os do Progresso Sambizanga. As discussões após os jogos eram acaloradas.

Mas no dia 13 de Setembro, quando tomámos a direcção da Cidadela, levávamos apenas uma bandeira, da República Popular de Angola. Era a selecção que estaria em campo e o compromisso, enquanto cidadãos, era puxar para o mesmo lado, e empurrar a equipa para a vitória que se apresentava a escassos 40 minutos.

Não é sem razão que se diz que o desporto é factor de unidade. Lembra-me a memória que houve entre nós, quem não olhou a meios para pegar em kzs 50.00 e custear o bilhete para o amigo, que na altura não dispunha deste valor, que correspondia ao ingresso do jogo. E lá fomos à Cidadela, numa espécie de resposta positiva ao apelo que era feito à população de Luanda, em representação de todos os angolanos.

Na verdade, houve uma boa adesão. O pavilhão rebentava pelas costuras, sendo que muitos viram o jogo de pé, porque os assentos estavam esgotados. Na quadra, momentos antes, as equipas faziam o aquecimento da ordem. Aqui e ali, as pessoas iam cochichando. “Aquele é o Barros, o número 14 é José Carlos Guimarães, aqueloutro que ostenta uma fita branca à testa é o Victor Almeida. O Victor, se a memória não me falha, tinha a família na bancada.

Depois começou o jogo, soltaram-se os gritos no pavilhão. Era preciso galvanizar a equipa. O adversário não era nenhuma pêra doce. Tinha um número 11 fenomenal. Frederico Goporó, de sua graça, era uma arma letal. Mas os nossos foram se impondo ao domínio de uma RCA, que tinha chegado à final desfeiteando a Nigéria por 107-87.

No cômputo geral, o equilíbrio dominou o jogo. Tudo indicava que com mais crença, determinação e disciplina táctica se podia chegar à ansiada consagração. E assim aconteceu, embora tenha sido por uma sorte, que não se tem todos os dias, que a vitória se consumou. Ó Victor Almeida, conta lá como foi possível aquela “roubalheira” de bola a Goporó para que se virasse toda a História.

O empate (73-73) “in-extremis”deu lugar a um momento de forte tensão. O público no pavilhão explodia de alegria. Tamanha era a adrenalina. Rui de Carvalho, o relator ao serviço da RNA, demonstra um coração pequeno. Quase desfalece, desiste do relato, e passa o microfone a Ladislau Silva, que narra os minutos adicionais.

Gente já nas imediações da antiga DNIC, apercebendo-se, pelo rádio, do milagre que tinha sido protagonizado, voltava a correr para o pavilhão. Consumada a conquista do título, Luanda tornou-se um quintal de festa. Havia necessidade de comemorar aquilo que o bom do Silva Candembo passou a chamar “a mãe das vitórias”.

Não era fácil , numa época de rigorosa disciplina partidária e de recolher obrigatório. Quem pôde não resistiu à tentação, rendeu-se à folia. Valeu que a reprimível ODP naquele dia tenha entendido conceder aos luandenses tolerância excepcional. A noite tinha carácter especial. Testemunhava o acender da chama do progresso da nossa “bola ao cesto” pelo continente, como se veio a confirmar nos anos seguintes. A noite de sábado, 13 de Setembro de 1980, foi realmente de loucos...

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia