Opinião

Uma pausa no cacimbo

Adriano Mixinge

O cacimbo já se instalou, parece confortável e a fazer das suas: a cor cinza do céu indica a apreensão e o sufoco deste desconfinamento, afinal, pouco afortunado uma vez que a cifra de diagnosticados positivo continua a aumentar, dia após dia. Quase ninguém acorre aos restaurantes e aos bares do centro da cidade: continuam vazios, as pessoas têm receio e medo, mesmo.

Na periferia é o contrário: a pandemia do coronavirus é cilindrada pela necessidade de sobrevivência, as pessoas não se importam e expõem-se como se não houvesse qualquer risco. A vida tem de continuar, não há inimigo invisível que impeça a luta contra a fome e o desamparo.
A vida continua, mas, eu estou cansado, um pouco exausto de tudo. Preciso fazer uma pausa para reflectir: é o que acontecerá nas próximas quatro semanas. Há mais de dois anos que escrevo, regularmente, esta coluna. Comecei a escrever para a imprensa local, antes de regressar definitivamente a Luanda: primeiro para o Jornal Vanguarda e, depois, para o Jornal de Angola. Estando fora do país, a ideia inicial era repensar o vivido lá e cá, para resituar-me rapidamente no plano prático e no das ideias, tão logo chegasse.
Assim fui escrevendo com diversos registos: umas vezes escrevia crónicas de história e de costumes; algumas vezes, escrevia textos de admiração e culto e noutras de crítica e de reflexão. Em todos eles tratei de situar-me equidistante de qualquer capelinha de ideias, qualquer grupo sectário, qualquer tendência reduccionista, evitando os ajustes de conta e os ataques pessoais, tentando sempre ser construtivo, alertar, fazer pensar.
Neste exercício também fomos lendo outros cronistas, estando atentos ao que se produz no âmbito das artes, - música, dança, artes visuais e plásticas, cinema, entre outras - das letras e, em geral, da cultura, não importa de que tipo, segmento social, forma, estilo, perfil dos criadores, se vem da urbe ou do gueto, se vivem no país ou na diáspora.
Escrever uma crónica todas as semanas não é fácil. Se consegui manter o fôlego foi, certamente, pela força e o apoio dos meus colegas do Jornal de Angola – eles sabem quem são - que, sempre, me apoiam, corrigem, questionam e aconselham: é por eles e com eles que vou aprendendo – e me esforçando - por escrever um pouco melhor. De modo que, depois de mais de dois anos, fazer uma pausa para reflectir é, quase, uma necessidade criativa e vital. As crónicas que foram escritas até aqui serão compiladas num só volume, que se intitulará “O meu país como se fosse uma laranja”, o título de uma delas: esta pausa é, também, o sinal de um corte. Ainda não sei lá muito bem o que virá a seguir, mas, certamente, será num estilo e forma que permita reposicionar-me da melhor maneira possível, no universo de cronistas deste jornal e de outros jornais que circulam entre nós.
Depois destes mais de dois anos a escrever regularmente, tenho a sensação que há uma crónica de sucessos, anedotas, factos sociais, acontecimentos políticos e novos hábitos e costumes que não aparecem nas crónicas que vêm sendo publicadas, nos jornais. Nos últimos anos surgiu uma série de figuras da vida pública que, mesmo tendo muitos seguidores a fazerem opinião em determinados círculos e estratos, não aparecem na grande crónica: é como se não existissem, quando se narrássemos e interpretássemos as suas posturas mostraria outra cara tanto da actual crise moral, da riqueza de atitude de muitos cidadãos anónimos e batalhadores como das lutas intergeracionais, do caos e da criatividade da sociedade angolana actual.
O cacimbo já se instalou, parece confortável e a fazer das suas: a pausa de quatro semanas nos permitirá repensar tudo de novo e, sobretudo, recomeçar melhor. É preciso sempre recome-
çar como se o passado fosse, apenas, um ponto de partida e o presente um lugar de passagem, um lugar de inconformismo e de regeneração constante que, no futuro, nos permita dar outra luz às nossas vidas.

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