Opinião

Uma boa decisão

Victor Carvalho

A audiência esta semana concedida pelo Presidente João Lourenço ao líder da UNITA, resultou num bom entendimento mútuo e numa boa decisão para que seja dado um passo decisivo para a resolução de um problema que se arrastava no tempo e que como uma chaga estava a ferir relações entre o Governo e o maior partido da oposição.

O constante adiar de uma decisão sobre a exumação do corpo de Jonas Savimbi, o que João Lourenço agora garantiu que vai ser feito até ao fim deste ano, traz uma imensa satisfação, em primeiro lugar, aos familiares do antigo líder da UNITA. Esta boa decisão contribui, também, para o suavizar de alguma mágoa nunca escondida da parte de muitos dos militantes e dirigentes do principal partido da oposição que vêm nela um gesto de boa vontade com um enorme significado politico.
João Lourenço, com esta decisão, reafirmou o seu compromisso em não fazer do diálogo e do entendimento meras palavras vãs, dando-lhe o significado prático que se impõe e que se espera seja assumido por um presidente que se quer verdadeiramente assumir como de todos os angolanos.
A decisão tomada pelo Presidente João Lourenço, conjuntamente com Isaías Samakuva, é um compromisso e uma porta que se abre ao diálogo e ao entendimento mas que não se pode fechar com a exumação do corpo de Jonas Savimbi.
O futuro imediato do país, sobretudo o caminho a trilhar para a tão desejada recuperação económica, precisa do esforço empenhado de todos os angolanos, independentemente da sua filiação partidária.
A UNITA, na qualidade de principal partido da oposição, tem uma responsabilidade acrescida e um importante papel a desempenhar para que o envolvimento dos seus dirigentes e militantes seja efectivamente construtivo, sem deixar de ser politicamente crítico.
O diálogo, para o ser na verdadeira acepção da palavra, necessita de dois interlocutores. Esse mesmo diálogo, para ser construtivo, precisa que esses dois interlocutores estejam envolvidos de modo sincero e determinado no tratamento que vão dar aos assuntos que que decidam abordar.
O desafio da realização das eleições autárquicas, previstas para daqui a dois anos, é um teste decisivo para ver até que ponto é que existem dois interlocutores verdadeiramente empenhados em manter um diálogo franco e aberto, onde as críticas sejam feitas com a ideia de construir e não de destruir, de unir e não de dividir e onde, também, não existam verdades absolutas, quase sempre inimigas da perfeição que em política não existe.
Ter visões diferentes sobre o modo como se pode atingir determinado objectivo é normal e até salutar em democracias, como a angolana, onde a sua consolidação se faz caminhando, num processo evolutivo e dinâmico onde a defesa do bem comum deve ser o factor determinante para nortear a acção de todos os intervenientes.
Uma verdadeira reconciliação nacional não se faz com palavras, mas sim com gestos práticos como aquele que foi protagonizado no Palácio Presidencial pelo Presidente João Lourenço e pelo líder da UNITA, Isaías Samakuva.
Exemplos destes devem contagiar a sociedade, até para contrapor um espírito radical que aqui e ali, infelizmente, ainda se vai sentindo através da demonstração de alguma frustração que é expressa por parte de pessoas, singulares e colectivas, sedentas de vingança e que exigem da justiça uma actuação que ela não pode ter por ser o garante da lei.
Há quase um ano no poder, João Lourenço tem sobre os ombros a enorme responsabilidade de responder aos grandes desafios impostos pela sociedade, mas seria injusto exigir-lhe que fizesse mais do que até agora fez, não só por manifesta falta de tempo mas também por falta de condições objectivas, tanto do ponto de vista político como económico.
A opção pelo diálogo e busca de consensos, que já é uma imagem de marca do Presidente da República, são indicadores positivos que deixam perceber a existência de condições para a aplicação de uma estratégia inclusiva onde todos os angolanos se sintam também responsáveis pela construção do seu futuro.
A oposição, como não podia deixar de ser, tem um importante papel a desempenhar dentro dessa estratégia desde que opte por ser o tal interlocutor positivo que João Lourenço precisa para liderar o processo de construção da nação.

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