Opinião

Uma indústria chamada Kuduro

Isaquiel Cori |

Até agora, mesmo depois de anos de consagração, com programas televisivos exclusivos e acesso dos cantores ao Palácio Presidencial (haverá exemplo mais simbólico de legitimação oficial?), o Kuduro continua a suscitar paixões desencontradas.

A sua batida sincopada (bum, bum, bum, bum) torna a dança num movimento quase involuntário, fisiológico, e traz ao de cima os instintos mais fundos, de raiz gregária. Quem quiser verdadeiramente apreciar o Kuduro tem de abandonar a atitude de apreciação racional, intelectual, e entregar-se aos instintos, deixar-se dominar pelo corpo. É ver as bailarinas profissionais em acção, os corpos suarentos, as nádegas moles em reboliço (sou dos que defendem que em vez de Kuduro o estilo devia chamar-se Kumole)...
Qualquer apreciação de fora, fria, sem a mínima preocupação de envolvimento, leva necessariamente a um choque: aqueles corpos que se movimentam de forma tão flagrantemente sensual, com apelos explícitos à sexualidade, ferem a sensibilidade mais convencional e moralista. Diríamos mesmo, ofendem. Daí o escândalo e até mesmo a repulsa que acompanhou os primeiros anos do Kuduro, numa sociedade pouco habituada ao espectáculo público do corpo e muito especialmente à alusão indiscreta da parte do corpo que, sem mais nem menos, como uma declaração de guerra, os inventores do novo estilo musical chamaram para seu nome. A isso junta-se a postura conscientemente rebelde de alguns dos seus maiores epígonos, as suas vestimentas e atitudes exuberantes de dandy e a arrogância e auto-suficiência artística.
Movimento musical inicialmente periférico, o Kuduro espalhou-se para contextos socialmente mais centrais, dentro e fora de Angola, mas continua essencialmente periférico, é de lá, dos guetos, diríamos musseques, que continuam a vir os aportes mais inovadores, tanto em termos musicais como de dança.
E é também na periferia onde se faz sentir mais a necessidade dos agentes que fazem dinheiro com o kuduro, além dos músicos, dos DJ aos promotores, até às vendedoras de um qualquer mercado de roulotes da Sapu 2 ou do Golfe 1, velarem por um aspecto essencial: o da poluição sonora. Movimento plenamente legitimado, com inumeráveis apreciadores, o Kuduro agora é uma indústria e os seus cultores devem interiorizar a necessidade do respeito pela liberdade alheia; não faz sentido que num espectáculo para um público circunscrito a música ressoe de tal maneira que vá fazer vibrar as paredes e tilintar os cristais de casas situadas a muitas centenas de metros de distância.
Isso chama à colação a responsabilidade profissional e social dos DJ, muitos dos quais fazem-se simplesmente de surdos e põem a música a tocar o mais alto possível, aterrorizando literalmente os habitantes em redor. E o terror é maior quando o pacato cidadão vai à esquadra policial mais próxima e se dá conta de um estado de coisas que aponta para um “fazer de conta” que o faz desconfiar de uma situação de cumplicidade. (Temos bem gravado na mente o caso da cidadã Maria Antónia Pereira, assassinada no dia 2 deste mês, no Bairro Popular, em Luanda, por ter ido queixar-se do som muito alto de uma discoteca local).
Voltemos ao Kuduro. Já lá vai muito tempo na Baixa ocorreu um tumulto. Zungueiras, engraxadores, taxistas e cobradores apeados, polícias, militares e civis corriam para um determinado ponto. Ansiosos, ofegantes, queriam ver o Sebem, que se pavoneava, no bom sentido, numa esquina, na sequência de uma preocupação pessoal. Nunca antes tinha visto o espectáculo de uma celebridade em acção, o indivíduo dotado de um poder simbólico capaz de, sem querer, fazer movimentar indistintamente multidões. Todos o queriam ver, todos queriam chegar o mais perto possível dele. É essa a lembrança que eu gosto de guardar do Sebem. Que Deus o ajude a recuperar a saúde.

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