Opinião

Uma questão de mentalidade

Ramiro Barreira

A actual conjuntura política em Angola, longe de qualquer  surrealismo, tem sido marcada por acontecimentos de inegável repercussão, principalmente pela elevada proliferação de notícias que inundam as redes sociais, especulações e verdades à deriva, conversas de bar, tudo à custa dos novos cenários da política angolana.

Na sequência do discurso do Presidente da Republica na Assembleia Nacional, os angolanos ficaram a saber das grandes linhas da actualidade e estratégias para tirar o país da situação em que se encontra.
João Lourenço, sem evasivas, disse que o momento é difícil. Não escamoteou,  nem escondeu a verdade. Falou claramente o que gostaria que acontecesse para bem dos angolanos. Deixou muitos recados e mais uma vez avisou que estes são novos tempos. No entanto, ainda ficaram muitas coisas para serem ditas, embora nas entrelinhas e na análise política do seu discurso, tenha dito o essencial que os angolanos gostariam de ouvir, pese as muitas interrogações quanto à sua aplicação.
Relativamente ao sector empresarial falou de algumas das principais prioridades, embora alguns sectores tenham sentido que faltou algum amparo  na sua intervenção, naquilo que consideram ser as grandes linhas da política económica no âmbito da diversificação, não devidamente referenciadas, o que de facto criou alguns burburinhos de que se tinha relegado  para a um plano inferior um ou outro sector.
Independentemente de qualquer omissão, há claramente uma linha de actuação e vontade de realizar uma série de acções no contexto actual de relançamento da economia e de falta de divisas e de liquidez, de ajustamentos ao nível macro-económico e na política monetária, no papel do banco central na garantia da estabilidade cambial, no aquecimento da economia em desaceleração, enfim!
Há, também, que equacionar o modelo a seguir.  Na realidade, será o mercado a regular a taxa de câmbio ou continuará a haver uma intervenção administrativa? Qual o modelo mais condizente com a nossa realidade? Uma desvalorização abrupta, ou um reajustamento deslizante (?)...mas sem grandes implicações psicológicas para uma eventual subida da  taxa de inflação. Há aqui, naturalmente, muitas incógnitas. Mas, no fundo, precisamos de saber afinal de contas, como sairemos desta crise? Qual o preço a pagar?  Como “marginalizar” o dinheiro fora da circulação monetária? Será que temos uma equipa forte e compacta ao nível do Executivo, ou de facto temos o governo necessário e possível dentro das habituais jogadas políticas de bastidores, de duração transitória, mas ainda muito longe da dinâmica que se pretende impor e de que Angola bem precisa.
Não é fácil montar-se uma equipa, mesmo na continuidade, com tantos interesses à mistura e num mosaico de heterogeneidade sublime. É como no futebol. É necessário por vezes uma época para que o treinador imponha o seu estilo e estrutura táctica, dentro de uma estratégia devidamente definida. Significa dizer que, não tenhamos ilusões, os resultados não serão tão imediatos quanto gostaríamos, principalmente, porque se enraizou uma cultura do “laisser faire, laisser passer”, em que muitos dos vícios tardam a ser erradicados. O contexto de mudança exigirá, certamente, uma mentalidade inserida nos novos parâmetros da ética política e profissional e o seu ganho não será apenas por decreto.
Mas, longe dos discursos, o que os angolanos agora esperam mesmo, na verdade, são os resultados para melhorarem a sua vida. É essa a expectativa! Sabemos que vai custar. Enquanto isso, “malembe, malembe..., (..) ndo mbeu...”

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