Opinião

UNITA autodidacta

Sousa Jamba

O presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, anunciou que o partido que lidera tem um número de bolsas para estudantes.

Muitos jovens foram para inquirir e alguns ficaram desapontados ao saber que as bolsas eram apenas para militantes da UNITA. As discussões, bastante acaloradas nas redes sociais, resultaram em acusações do líder da UNITA ter feito afirmações enganosas. Alguns afirmaram, até, que a restrição das bolsas aos militantes do partido era sinal de que uma vez no poder a UNITA iria favorecer os seus militantes. Resumindo, pode-se dizer que muitos jovens que não são militantes da UNITA, que não se revêem neste partido, querem bolsas do mesmo.
A verdade é que em Angola existe uma sede profunda para a aquisição de credenciais académicas — a principal garantia de mobilidade social. Mas uma coisa é ter certificação, outra coisa é adquirir sabedoria útil. Sé há algo que o resto da Nação Angolana pode aprender da UNITA é o espírito de autodidactismo.
Em 1991, o então correspondente do jornal britânico “The Independent”, Richard Dowden, que não podia com a UNITA ou com o seu líder Jonas Savimbi, escreveu que havia algo que o tinha impressionado bastante — a sofisticação dos oficiais da UNITA que, em geral, além de várias outras coisas, eram poliglotas. O escritor e antropólogo britânico John Ryle escreveu que nos anos 90 nunca tinha visto no mundo tanta gente que escutava a rádio avidamente como os homens da UNITA — alguns escutavam os noticiários em Português, Francês e Inglês.
Muitos poderão não acreditar, mas a primeira vez que vi alguém a ler um livro com letras do alfabeto cirílico foi na Jamba, em 1986. Havia um destacamento de jovens angolanos num dos serviços de inteligência do Doutor Savimbi que tinha indivíduos que falavam e liam perfeitamente Russo. Depois de uma formação básica por alguém que dominava a língua Russa, os outros foram se inteirando sozinhos. Recentemente, no Facebook, muitos não acreditaram quando afirmei que li pela primeira vez obras de Luandino Vieira, Pepetela, Arnaldo Santos e os poemas de Agostinho Neto na biblioteca Polé Polé, na Jamba. O escritor francês Gerard Challiand, que estava a visitar a Jamba, foi para a biblioteca e encontrou uma secção com os seus livros e alguém que tinha lido um bom número deles. Challiand pensou que aquilo era uma encenação e começou a perguntar ao jovem sobre as suas obras. Lembro que este jovem deixou o escritor francês boquiaberto; ele tinha dificuldades em acreditar que lá, nas terras do fim do mundo, havia pessoas que tinham lido as suas obras. Eu estive lá.
A verdade é que muitos dos jovens que vieram do Liceu Nacional da Jamba são hoje bem sucedidos; é só ver a página deles no Facebook. O que esses adquiriram da UNITA é uma intensa habilidade de aprender, muitas vezes sem professores. O então Coronel Kavanagh, um jovem chamado Nélio, o então Major Kafundanga, etc, falavam inglês como se tivessem vivido toda a sua vida ao lado da Rainha Isabel. O truque deles era escutar a BBC religiosamente; consultar o dicionário Português-Inglês ao ponto de saber quase cada página e definição e ler tudo que lhes vinha à frente.
Aqui no Planalto, onde estou a escrever esta crónica, conheço um jovem agricultor que se meteu em autocarros e depois de três dias, através da Namíbia, estava na Zâmbia, porque queria melhorar a forma de cultivar tomate. Ele foi tomando notas e filmando as dicas de vários fazendeiros na Zâmbia, que ele conheceu numa rede no Whatsapp. Na Estufa do Huambo, uma vez vi um grupo de meninas a dançarem ballet com movimentos tão lindos que muitos pararam para apreciar aquela beleza. Fui perguntar à instrutora das meninas onde elas tinham aprendido aquela arte. Ela disse que era vendo clipes na YouTube e através de uma amiga que estava a estudar dança no Brasil.
Na minha aldeia ancestral do Manico, perto do Katchiungo, há um agrupamento musical chamado “The Ekundi Boys.” O professor Daniel Ekundi, antigo preso político em São Nicolau, construiu na nossa aldeia a grande escola de Salvaterra. O “The Ekundi Boys” foram altamente influenciados pela música norte-americana. Os rapazes da nossa aldeia juntam dinheiro, para terem acesso a canais de televisão, e passam os fins de semana a ver vídeo discos americanos. Alguns falam inglês perfeitamente. Estamos a falar de jovens que não conhecem a cidade do Huambo. Estes contaram, em todo os níveis, com os seus próprios esforços.
Falava-se muito do que um filósofo francês apelidou de capital cultural — jovens vindos de famílias da classe média tinham, aparentemente, uma certa vantagem na aquisição do conhecimento. As novas tecnologias estão a criar um nivelamento impressionante. Um jovem cá no interior com o seu celular cheio de saldos de dados que prefere passar o fim-de-semana assistindo aulas de Inglês no YouTube, certamente que estará em vantagem em relação a um jovem lá nas cidades a gastar o seu tempo com frivolidades. Talvez no lugar de ter falado de bolsas de estudo, o presidente da UNITA deveria ter realçado a tradição do autodidactismo do partido que lidera.

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