Opinião

Venda ilegal de dinheiro é incentivo à impunidade

Luciano Rocha

A venda ilegal de dinheiro na capital, em quintais, vãos de escadas, avenidas, ruas e becos, cresce a olhos vistos, perante a passividade, feita incentivo, das autoridades de vários sectores da província.

O descaramento, verdadeiro desafio aos esforços governativos, é a parte visível de associações criminosas, com “padrinhos” - como todas as organizações do género espalhadas pelo mundo - que é urgente colocar atrás das grades, em cadeias de alta segurança. Por se tratar de gente perigosíssima, capaz de tudo para atingir o objectivo máximo que lhes norteia a vida: enriquecer sem trabalhar, nem correr grandes riscos.
Por muito menos, há quem esteja preso em Angola. As nossas cadeias abarrotam de pequenos delinquentes, a quem normalmente se chama “pilha galinhas”. Em alguns casos, até, já depois de cumprido o tempo de prisão a que foram condenados. Muitos deles são jovens, cujas penas podiam ser substituídas por trabalho comunitário. Era-lhes mais benéfico, afastava-os de criminosos violentos, reincidentes, para os pôr em contacto com a vida real, com o dia-a-dia de quem trabalha para viver, não raro, sobreviver.
Quando for feita - há-de se fazer - uma investigação aturada sobre as quadrilhas do crime organizado, que inclui os traficantes ilegais de divisas e de quem está por trás deles, muitos de nós hão-de “ficar de boca aberta até à nuca”.
O dinheiro vendido e comprado ilegalmente, à descarada, em Luanda - falo do que vejo, mas admito que se estenda por todo o país, que as redes de patifes não se ficam pela capital - não vai parar às mãos dos “cambistas” de rua, quintais e vãos de escadas por obra a graça do Espírito Santo. As notas que pagam as despesas do cidadão comum às vezes voam de outros lugares, até das contas bancárias, mas não têm asas para voar direitinhas às bolsas dos traficantes de moeda.
O Governo não se tem poupado a esforços - e ainda bem - para fazer regressar ao país fortunas saídas para o estrangeiro de forma ilegal, muitas delas obtidas da mesma maneira. Sem aquelas trafulhices, a nossa economia, não se tinha ressentido tanto da crise económica e financeira internacional. Dizem alguns tratar-se de missão quase impossível, que jamais a fatia maior do dinheiro volta a solo angolano. Mesmo que assim seja, o Executivo cumpre o papel que lhe está destinado. O contrário era demitir-se de funções, obrigações, passar a ser incentivador do descalabro nacional, da bagunça,  da delapidação do Estado.
O mesmo se passa com a venda ilegal de dinheiro em Luanda, incentivada, no mínimo, sublinhe-se, pelo alheamento dos responsáveis de vários sectores. Se a investigação sobre as redes que dominam aquela acção delituosa cabe às autoridades de âmbito nacional, por se tratar de um crime que lesa - e de maneira - o país, a acção mais imediata deve ser da responsabilidade das autoridades distritais, municipais, provinciais.
Além de serem criminosos contra a economia, os “cambistas de rua” são veículo de propaganda negativa da capital. Pelo espectáculo indecoroso que protagonizam. Por incomodarem, desavergonhadamente, os transeuntes -  que podem ser forasteiros -,  ocupando passeios, vãos de escadas, quintais. Elas, porque há eles também, sentadas em cadeiras de praia, enquanto lhes pintam as unhas dos pés, numa homenagem e convite ao ócio. Que, diziam os antigos, era fonte de todos vícios.
Também neste caso, haverá quem argumente que desafogar a rua destes “cambistas” não resolve nada, porque, tirados de um sítio hoje, amanhã estão noutro. Por esta ordem de ideias, não se prendiam os pilha galinhas, pois quando um vai preso, há outro a saltar o muro de um quintal.  

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