Opinião

Ventos de mudança “varrem” Bouteflika e Omar al-Bashir

Victor Carvalho

No curto espaço de um mês dois Presidentes, com uma longa permanência de tempo no poder, foram obrigados a demitir-se perante a consistente e amplamente manifestada impaciência das respectivas populações, apoiadas em militares que também já não se reviam numa situação que fazia perigar a própria segurança interna em cada um dos dois países.

Primeiro foi Abdelaziz Bouteflika a reconhecer a inevitabilidade de ceder o seu lugar a uma nova geração, tendo-lhe contudo sido dado o espaço de tempo suficiente para acautelar o seu futuro ao nomear um Governo composto, maioritariamente, por pessoas da sua confiança, o que obviamente não deixou totalmente tranquilos os milhões de argelinos que desconfiam que possa estar a ser preparada qualquer manobra política que não torne a mudança tão profunda como desejam.
Na Argélia, os militares tiveram, juntamente com as restantes forças de segurança, um papel fundamental na forma como Bouteflika saiu do poder, como também o está nas garantias dadas para um processo de transição transparente, de previstos 90 dias, para que o país possa ir às eleições e assim escolher quem o passará a governar a partir de então.
No Sudão, Omar al-Bashir não soube ler correctamente os sinais que chegavam do interior do seu próprio regime, onde o medo de represálias manietava a expressão por parte dos militares – face à rivalidade com os poderosos serviços de inteligência – do seu sentimento de negação em relação à forma como o país estava a ser governado.
Por isso, enquanto na Argélia os militares manobraram na sombra os apoios às exigências para uma troca de liderança, no Sudão a classe castrense não teve qualquer dúvida em assumir directamente a responsabilidade de um golpe de Estado que agradou internamente mas que, externamente, colocou as Nações Unidas e a União africana em lugares opostos da barricada.
Em relação a Omar al-Bashir, Abdelaziz Bouteflika tem a seu favor um passado marcado por uma série de sucessos internos na luta pela estabilidade política, social e económica do país.
É a ele que se tem de atribuir, principalmente, o êxito da luta contra o terrorismo e as divisões tribais, ao longo dos anos responsáveis pela morte de milhares de pessoas e por uma divisão interna que impedia o país de dar mais passos no sentido do seu próprio desenvolvimento económico e social.
O grande erro de Bouteflika foi ter demorado demasiado tempo a preparar a sua própria transição, convencido de que mesmo numa cadeira de rodas, com 82 anos de idade e quase sem aparecer em público, poderia continuar a governar um país que desejoso de dar um passo em frente e que já não se revia, minimamente, com o orgulho do passado, exigindo aproximar-se do índice de desenvolvimento interno dos seus vizinhos através da adaptação a uma modernidade que lhe estava ser negada.
No sentido inverso está Omar al-Bashir, com todo um passado marcado por episódios de uma enorme violência exercida exclusivamente para dividir e nunca para agregar os interesses colectivos do país.
Ao chegar ao poder por via de um golpe de Estado, al-Bashir foi conseguindo impor-se muito mais pelo medo que incutia aos seus rivais do que pelo respeito que sempre deve merecer quem tem sobre os ombros a enorme responsabilidade de liderar um país historicamente dividido por profundas questões étnicas e religiosas.
Acossado internacionalmente por força das acusações feitas pelo Tribunal Penal Internacional e ensombrado pela emissão de um mandato de captura internacional, Omar al-Bashir foi musculando cada vez mais a sua governação, não resistindo até à tentação de intervir em países vizinhos de modo a moldar aos seus interesses as suas respectivas lideranças como sucedeu, por exemplo, no Sudão do Sul que ainda hoje vive um conflito claramente influenciado pelo antigo Presidente do Sudão.
Contrariamente ao que se passa com Bouteflika, que deverá ter um futuro sem grandes problemas internos, pois ninguém até agora falou em lhe abrir processos por práticas pouco transparentes ou indiciadoras de violações ou extrapolações de poder, Omar al-Bashir tem a pender sobre ele a possibilidade de ser extraditado para o Tribunal Penal Internacional ou, na melhor das hipóteses, de enfrentar um julgamento interno para responder por alegados crimes cometidos na região de Darfur.
Em comum, estes dois homens têm o facto de se terem tentado perpetuar no poder contra a vontade dos respectivos povos, julgando-se possuidores de um poder que não tinham e que apenas era alimentado pelo seu próprio egoísmo e por uma série de aduladores, ou se preferirem bajuladores, que tudo fizeram para os manter em funções de modo a que, eles próprios, não perdessem um estatuto que pensavam ser suficiente para os tornar superiores.
O que acabou de se passar na Argélia e no Sudão são mais dois bons exemplos dos ventos de mudança que continuam a soprar no continente africano, onde os povos têm uma palavra cada vez mais decisiva.

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