Opinião

Verdade histórica e respeito ao povo

Altino Matos |

A UNITA promete acabar, a partir do dia 23 de Agosto, com o voto em Isaías Samakuva, claro, “com os 42 anos de sofrimento, perseguição e ditadura a que os angolanos estão sujeitos, situação imposta pelo Governo desde 1975”, quando o MPLA conquistou a independência de Angola.

Acabar com 42 anos de sofrimento, ditadura, perseguição: palavras que nos remetem para uma situação paradoxal e que desfazem todo o efeito da estratégia central da UNITA. Pois, tornou-se comum ouvir de Isaías Samakuva coisas extraordinárias, como estas, com alcance destruidor para o próprio partido do “Galo Negro”.
A UNITA e Isaías Samakuva estão a mentir, quando prometem acabar com 42 anos de sofrimento; estão a mentir quando prometem acabar com a ditadura e a perseguição. Diante de tamanha asneira, não se deve calar. Pois recorrer a contextos históricos, ou mais do que isso, invertê-los para aproveitamento político imediato, em período eleitoral ou não, é um suicídio!          
Os “maninhos” foram mal aconselhados, ou estão a justificar as acusações de que não conseguem desfazer-se do seu projecto de guerra, ao assentarem a sua mensagem central na base da mentira e inversão de factos históricos.
Aos angolanos, não lhes foi imposto um sofrimento de 42 anos, nem são vítimas de nenhuma perseguição ou ditadura, no espírito que a UNITA desenvolve a sua narrativa de campanha. Isaías Samakuva, o cabeça de lista da UNITA, ao aceitar desdobrar-se, perante os angolanos, com essa estratégia operacional, perde a oportunidade de colocar-se como um político acima das diferenças partidárias e históricas, como desejam os eleitores.
Samakuva mantém a ideia de divisão: pois ao invés de aproximar, afasta ainda mais os angolanos. Quando se acusa o MPLA e o seu governo de terem imposto aos angolanos 42 dois anos de sofrimento, as pessoas ficam imediatamente presas ao “não dito.” O cabeça de lista da UNITA e seus pares esqueceram que o “não dito” remete imediatamente para os anos de guerra; a guerra, que os angolanos sabem, terminou em 2002.
Se à UNITA interessa expor-se ao ridículo, com este infeliz argumento, aos angolanos não interessa. A verdade histórica está do lado do povo, a quem o governo do MPLA e o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ofereceram a vitória pela conquista da paz.
Logo, a esse povo, todos nós devemos respeito. Por isso, por todo o sofrimento causado pela guerra desde os anos de luta pela conquista da independência até ao ano de 2002, se reprova o aproveitamento que a UNITA quer fazer com factos que devem fazer parte de um passado terrível, expondo os angolanos a lembranças horríveis.
É comum, em eleições, os adversários trocarem acusações, mas não dessa natureza. As estratégias de marketing devem perseguir falhas e assentar em narrativas de construção de realidade tentadoras, capazes de incentivar alterações de âmbito técnico-político, na forma de governação.
Para isso, os partidos e cabeças de lista, tal como acontece em realidades mais avançadas, não precisam de tocar em aspectos políticos ou militares que provoquem mal-estar às pessoas, basta que explorem os pontos fracos do adversário.
E nesse caminhar, não vejo necessário tocar em perseguição ou ditadura, ou que arrolem os 42 anos de soberania, no tom que a UNITA fez. Não estou a impedir que Isaías Samakuva fale de perseguição ou de outras coisas, exijo somente, como angolano, não minta ao povo.
Por exemplo, se quer justificar a ditadura, diga que não vive num Estado soberano, não tem liberdade política, que faz política na clandestinidade, que participa, pela terceira vez consecutiva, em eleições noutro país.
Também pode dizer, para justificar a ditadura, que está num país sem leis, sem instituições, que vive numa farsa e que o seu argumento de propaganda eleitoral foi enviado para outro planeta e não para esse povo que não mais quer ouvir falar de guerra.
A UNITA, o seu cabeça de lista, Isaías Samakuva, e os “managers” foram infelizes ao introduzirem no seu tempo de antena conteúdo desconexo ao carácter eleitoral. É tempo de a UNITA alterar toda a sua forma de linguagem política: deve retirar da sua comunicação política, para começar, palavras como ditadura e perseguição... Também deve deixar de mentir!

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