Opinião

Viagem ao passado

Osvaldo Gonçalves

Todos os citados nesta crónica já morreram e não nos podem desmentir nem confirmar. Quem está vivo pode até acusar-nos do que bem entender, mas, como dizia o Kangrima – também já falecido -, “depois de nós, não haverá mais ninguém”. Aqui, tudo se passa na base da palavra dada. E esta é a minha. Contámos esta história em 2011, quando a Sara Fialho nos chamou para ir lá ao Centro de Imprensa Aníbal de Melo, na Baixa de Luanda, falar sobre David Mestre.

O outro convidado era o artista plástico Hildebrando de Melo. Pensámos para nós próprios que era demasiada areia para o nosso camião. Mas tratava-se de um convite da Sara, tínhamos ao lado o Hildebrando e havia que falar sobre o Mestre David.
Sentados diante da velha máquina de escrever, ensaiamos o discurso. Pelo meio, deixámos espaços para falar de improviso, contar histórias. Às tantas, notamos que mais valiam as falas improvisadas que o resto do discurso. David era grande demais para segurá-lo num texto escrito, fosse ele qual fosse. 
Foi assim que a contámos e assim mesmo a repetimos hoje aqui. Uma noite qualquer, há alguns anos, David Mestre foi à Redacção e encontrou-nos na mesa de maquetagem, debruçados sobre uma folha de maquete, de régua na mão esquerda, marcador na direita, ao lado de outros companheiros, a rabiscar algo. Claro que eles depois iriam corrigir tudo, mas estavamos a aprender, até porque David, então chefe de departamento informativo, defendia que todos os jornalistas deviam saber maquetar: transportar para o jornal impresso as suas emoções, os seus sentimentos.
Voltou para o seu “bunker” e, passado um bocado, chamou-nos. Ao contrário do que pensávamos, era para nos convidar a sair, a dar uma volta pela cidade. Claro que aceitámos.
Partimos do Jornal de Angola na velha carrinha azul; David Mestre do lado direito, junto à porta, o mais velho Bexiga, motorista, ao volante, e nós no meio. Rumámos para o Largo da Sagrada Família e ali chegados, encontrámos o escritor Aires de Almeida Santos, que já nos esperava no passeio.
Passámos para a carroceria e seguimos em direcção à Rádio Nacional de Angola. À frente da portaria, estava outro kota, Raul David. Logo me apercebi que decorria em Luanda uma reunião qualquer da União de Escritores Angolanos.
Foi a vez de David Mestre passar para a parte de trás da carrinha, dando lugar na cabine a Raul David, mais velho. E estavamos na“quintal da njipe”, um escritor e poeta de renome, chefe de departamento do Jornal de Angola, e um jovem jornalista.
O mais velho Bexiga embicou a viatura para o Bairro do Café, onde morava António Jacinto, em casa da irmã. O poeta de “Monangambé”, na altura membro do BP do CC do MPLA, recebeu o grupo com a maior simpatia. Envergava trajes caseiros.
Horas depois, rumámos para a Baixa da cidade, em direcção ao “Animatógrafo”. Mas, ali numa travessa à saída da Ingombota, Man David mandou parar a carrinha em frente à casa do Viteix.
E fomos todos na carrinha. Desta vez, eram os mais velhos Aires de Aldemida Santos, Raul David e Bexiga, o motorista na cabine. Viteix, Man David e nós atrás, rumo ao Animatógrafo, onde fomos recebidos pelo Félix Vinagre.
Fica aqui muito pano para outros textos, mas, sobretudo, um aviso à navegação sobre a importância da modéstia: uma noite, nós, ainda jovens repórteres, andámos no “quintal da njipe” com David Mestre e Viteix, com Aires de Almeida Santos e Raul David na cabine da carrinha, conduzidos pelo mais velho Bexiga. Nossa boca não abrimos com receio de que fosse entrar mosca.

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