Opinião

Vice-Presidente eleita da Libéria é exemplo de resiliência

Faustino Henrique |

A vitória da estrela do futebol africano e mundial George Weah sobre o antigo Vice-Presidente de Ellen Jonhson-Sirleaf, na segunda volta das eleições presidenciais liberianas não deixou despercebido um aspecto singular, susceptível de provocar alguma controvérsia, que tem a ver com a figura do Vice-Presidente eleito.

Trata-se de Jewel Howard-Taylor, curiosamente ex-esposa do antigo Presidente Charles Taylor, actualmente a cumprir 50 anos  de prisão, numa prisão britânica, por crimes de guerra e contra a humanidade.
A Vice-Presidente eleita representou para a eleição de George Weah um activo importante ao mesmo tempo que paradoxalmente leva muitos a experimentar alguma dificuldade em a dissociar da figura do seu ex-esposo Charles Taylor.
Daí igualmente o facto de ser considerada pela imprensa um pouco por toda a África ocidental como figura controversa e por isso surpreendente a sua aparição ao lado da antiga estrela de futebol como Vice-Presidente.
Mas, na verdade, Jewel Howard-Taylor é uma “self-made-woman” na medida em que não andou simplesmente atrelada à sombra do seu ex-marido, de quem se divorciou em 2006, tendo abraçado uma carreira que também fala por si.
Não é apenas o facto de ter sido a mulher daquele que foi um dos senhores de guerra mais fortes da África ocidental, mas o facto de ter reconstruído a sua imagem como mulher batalhadora e dedicada ao país, sobretudo após a sua eleição como senadora, em 2005. E fê-la transformando-se numa mulher resiliente que muitos liberianos passaram a encarar como uma alguém que deu a volta a muitos obstáculos, tornando-se numa figura com louros para disputar as presidenciais.
Como Jewel Howard-Taylor se referiu a si mesma, citada pela AFP, “eu fiz promessas que tenho cumprido no desenvolvimento da educação, saúde e infra-estrutura, e espero que nos últimos 12 anos Jewel Howard tenha feito a sua própria caminhada trabalhando pela paz, pela prosperidade e para o desenvolvimento”.
De facto, ela fez muito para assumir o seu próprio percurso sem a sombra do seu ex-marido. Isso ao ponto do partido do Congresso Para a Mudança Democrática, de George Weah, ter feito aliança com o partido de que Jewel Howard-Taylor é membro, o Partido Nacional Patriótico, para que a mesma entrasse na chapa como Vice-Presidente.
Mas todos os esforços no sentido de se distanciar da figura do ex-marido, embora surtam algum efeito, as interrogações relativamente até que ponto a ex-Primeira-Dama sabia dos excessos do regime do seu ex-marido prevalecem como uma das manchas que a vai acompanhar.
Para melhor situar, trata-se de excessos ocorridos entre 1989 a 2003, através dos quais o ex-Presidente Charles Taylor tinha sido acusado, inicialmente na Libéria de crimes de recrutamento de crianças soldados, financiamento de rebelião armada em países vizinhos, violação, genocídio, entre outros que, por sua vez, foram retomadas pelo Tribunal Penal Internacional.
Ela desmistifica o seu suposto papel enquanto Primeira-Dama, citada pela revista Jeune Afrique, questionando nos termos seguintes “durante a crise na Libéria, eu não estava no país. Eu estava longe, eu estava a estudar. Eu não estava lá, então, como é que se pode dizer que eu estava envolvido na guerra?”
De facto, embora nunca tenha reconhecido publicamente responsabilidade do seu ex-esposo, durante o período mais trágico do conflito armado Jewel Howard-Taylor encontrava-se a estudar finanças nos Estados Unidos.
Atendendo à sua passagem pelos sectores público e privado, bem como aos cargos desempenhados tais como governadora do Banco Central da Libéria, além de ter sido em determinada etapa conselheira do marido enquanto Presidente da Líbéria, muitos acreditam que Jewel Howard-Taylor venha desempenhar o papel de cérebro do Governo de George Weah.
De figura alegadamente controversa e transformando-se numa verdadeira “self-made-woman”, Jewel Howard-Taylor é um exemplo de resiliência na vida pública dedicada ao povo liberiano e ao país.  

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia