Opinião

Yelela Airways

Sousa Jamba

Quando se conduz aqui no Planalto, onde estou,  às vezes  fica-se  com sensação de que se está a voar, porque as nuvens estão bem perto. Em momentos surrealistas, imagino que uma voz no carro vai me dizer a altitude em que estou, como acontece nas avionetas. Viajando pelas belíssimas vias por cá, e sonhando,  imaginei-me ajudar na criação de uma linha área só para o Planalto Central.

A Yelela Airways (Yelela significa voar em Umbundu), a minha linha aérea teria como o seu centro no Huambo. É que o planalto está cheio de pistas de aterragem. No Ngove, perto da barragem, vi um pequeno aeroporto (em desuso) que daria inveja a muitos países africanos. Vi pistas no Bailundo, Chinguar e até Katchiungo. Os aviões da Yelela Airways seriam do tipo "commuter planes" para voos de menos de duas horas.
Houve um tempo em que trabalhei na África Oriental e tinha muitas vezes que ir para áreas bastantes rurais da Tanzânia. Na capital, Dar -es- Salam, eu só tinha que apanhar a Air Precision que parava em várias localidades, em pistas de terra batida. A Air Precision  é uma empresa privada que ajudou na transformação do sector turístico do pais. Antes, os turistas iam somente para a famosa montanha de Kilimanjaro e à ilha de Zanzibar; Ccom a Air Precision, os turistas começaram a explorar outros cantos do pais. Esta linha aérea teve tantos êxitos que foi comprada em parte pela Kenya Airways. A Kenya Airways traz os turistas da Europa; a Precision Air leva os mesmos para várias partes do pais.
Tenho  um amigo piloto  tanzaniano que trabalhou em várias linhas aéreas e com quem  eu falava sobre o que  estava por trás do êxito  da Air Precion. Ele me disse que era tudo uma questão de gestão. Ele me disse que na Nigéria houve um tempo em que os poderosos com capital tinham a febre de possuir linhas aéreas. Muitas destas linhas aéreas passaram a figurar na lista negra de linhas aéreas por falta de segurança. Estas linhas aéreas tinham pilotos com qualificações duvidosas e aparelhos em condições não perfeitas de serviço. Na Tanzânia, evitou-se todas estas falhas. Na nossa Yelela Airways, tais considerações  de segurança,  iriam ter prioridade.
A maior parte das linhas aéreas no continente africano, eu soube, dependia do Estado e não eram negócios propriamente ditos, onde se investia esperando por  lucros no fim das operações. Soube que havia em África linhas áreas com batalhões de gestores que faziam praticamente nada para o avanço do empreendimento. Em certos casos, investia-se mais nos salários e em outros benefícios dos gestores do que na aquisição, manutenção e formação das equipas para sustentar a linha. Um outro hábito era as linhas aéreas africanas, em geral, operarem com  aparelhos velhos, às vezes com manutenção que não era de confiança. As duas linhas aéreas africanas de referência - Kenya Airways e Ethiopia Airways - faziam sempre questão de comprar novos aparelhos, formar bem os seus pilotos, e evitar que os vários departamentos do Estado vissem na linha área  como algo para ser usado sem pagar. 
A Precision Air fazia, também, questão de empregar uma gestão altamente competente. Conheci uma gestora  desta empresa, a Alysha Magabe, formada em direito numa das melhores universidades nos Estados Unidos, que tinha muito orgulho em trabalhar para a Air Precision. Em conversas que tive com ela, soube que antes da Air Precision havia a noção de que o negócio não seria viável, porque as populações nas áreas rurais não tinham o hábito de viajar de avião e também todos pensavam que os únicos locais que poderiam interessar aos turistas internacionais eram os conhecidos.   Na prática, todas estas inquietações provaram ser infundadas; além dos turistas, a Air Precision começou a servir cidadãos que viviam na capital que queriam passar fins de semanas nas suas aldeias. Havia, também, os cidadãos que faziam turismo interno. A Air Precision construiu e toma conta das muitas pistas que tem na Tanzânia. Nesta instituição só entra mesmo quem tem qualificações e uma das culturas organizacionais da empresa é a formação constante de todos os quadros. Quando eu estive na Tanzânia a  Air Tanzânia, a linha aérea estatal, estava à beira da falência.
Na Zâmbia, aquele meu outro paíss, havia a Zâmbia Airways, uma empresa estatal que também faliu por corrupção, incompetência e por aquele problema africano de sempre , a má gestão. Um amigo que trabalhou para a linha aérea me disse que havia voos que vinham só com uma casa de banho a funcionar porque as outras estavam cheias de bens que a tripulação trazia para negócios privados. Na nossa Yelela Airways não havia tal falta de profissionalismo: tudo teria que funcionar com muita eficiência. Na Zâmbia  há agora várias pequenas linhas aéreas que saem da capital para as províncias a custos incomparáveis ao que os angolanos por viagens aéreas. Por exemplo: a distância entre Lusaka e Solwezi (a capital da província do Noroeste da Zâmbia) é quase a mesma de Luanda ao Huambo. Os angolanos pagam o dobro do que os zambianos pagam num dos voos das pequenas linhas aéreas no país, que voam até a fronteira de Angola.
A Yelela Airways teria uma secção da promoção de negócios e seria altamente criativa. Esta secção iria analisar tudo que deu resultados positivos em várias partes do que falhou. A Yelela Airways seria o grande sucesso angolano. Tenho que cair na real, porque talvez Angola ainda não seja um país que valoriza sonhadores!

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