Opinião

As guerras de Trump

Eduardo Beny

O mês de Fevereiro está a ser difícil para o Presidente Donald Trump que tem uma série de encontros marcados que serão decisivos para a segunda metade do seu mandato e a sua eventual reeleição à cabeça dos Estados Unidos.


A 15 de Fevereiro, o acordo temporário que pôs termo a 35 dias de paralisação parcial da administração federal, provocada pela não aprovação em tempo útil do Orçamento do Estado, pelas duas câmaras do Parlamento.
Até ao final do mês deve chegar a um acordo comercial global com a China, sem o qual os direitos alfandegários sobre a quase totalidade das importações oriundas desse país asiático, subirão, em Março, para 25 por cento (em vez de uma média de 10 por cento actualmente).
Oficialmente, o bloqueio do próximo orçamento federal se deve à recusa do Partido Democrata de incluir uma verba de 5 à 700 milhões de dólares para a construção do «muro» que Donald Trump pretende erguer ao longo dos 3 141 km de fronteira terrestre entre os EUA e o México para impedir a entrada de imigrantes ilegais no pais. O «muro», promessa faro de Trump durante a campanha presidencial de 2016, foi «dramatizada» durante a campanha para as legislativas de 2018, com a mediatização de milhares de centro-americanos em marcha através do México para tentar obter o asilo nos Estados Unidos e das «tragédias humanitárias» provocadas pelas medidas adotadas pelas autoridades americanas para impedir-lhes a entrada e expulsar os que consigam atravessar ilegalmente a fronteira. Apesar disso o Partido Republicano perdeu a maioria necessária para fazer aprovar o seu financiamento pelas duas câmaras do Congresso. Os democratas são agora maioritários na Câmara dos Representantes; os republicanos «seguraram» o Senado, mas com apenas um mandato de maioria quando precisariam de 10 para fazer aprovar as despesas federais. Em consequência do bloqueio – que interveio quando 85 por cento do OGE estava aprovado - as administrações federais tiveram de suspender os pagamentos de serviços considerados por lei como «não essenciais» e cerca de 800 000 funcionários foram suspensos de empregos e salários, enquanto os outros viram o pagamento dos seus salários adiados. Trata-se de uma «originalidade» do sistema americano que resulta do apertado controlo parlamentário sobre as despesas federais e que recebeu o nome de «shutdown» (apagão). Habitualmente, a situação se resolve por um compromisso negociado, mas, desta vez, o «record» estabelecido sob a administração Clinton (21 dias) foi superado e, a cabo de 35 dias, Trump foi obrigado a suspendê-lo por três semanas, o que foi interpretado como uma vitória política da oposição democrata liderada por Nancy Pelosi. Mas Trump não se dá por vencido e estuda todas as possibilidades de financiar o «seu» muro sem o aval do Congresso. Uma delas è o recurso a um «decreto executivo» ao abrigo do «National Emergency Act» em vigor desde 1976, que confere ao Presidente plenos poderes para tomar as medidas consideradas necessárias à segurança nacional sem o prévio aval do Congresso. Em alternativa, poderia incluir o muro nas despesas militares, já aprovadas, ou financiá-lo mediante taxas sobre as importações mexicanas (uma cláusula do novo acordo comercial com México e o Canadá o permite em caso de emergência).
Mas a questão não è financeira, e o «muro» é, sobretudo, simbólico em relação ao debate sobre a imigração.Como recordam os apoiantes de Trump, ele já existe, ao longo de cerca de um terço da fronteira terrestre, de 3141 km, com o México, e a sua construção foi autorizada em 2006 pelo Congresso , que aprovou o «Secure Fence Act» por 283 votos contra 138, incluídos os dos então senadores democratas Hillary Clinton , Barak Obama e Joe Biden. Se 57 por cento dos cidadãos americanos se opõem agora a conclusão da «barreira de segurança» como alegam os democratas, 78 por cento dos eleitores de Trump estão a favor, e o Presidente depende, mais do que nunca, deles – e não do Partido Republicano – para manter-se no poder e candidatar-se de novo em 2020. Mas o shutdown é impopular, os analistas económicos que estimam que custa mais num mês à economia do que a construção do muro e os democratas, que conseguiram convencer a opinião pública de que Trump é o único responsável do bloqueio, exultam. Pela primeira vez, a popularidade de Trump regista sinais de erosão, o que não conseguiram nem o inquérito sobre as alegadas ingerências russas, nem o destempero verbal do Presidente, ou os seus problemas com a Justiça. Em contrapartida, a economia americana está de boa saúde, as empresas e os mercados financeiros são optimistas e acumulam os lucros, como Trump gosta de lembrar, diariamente nos seus «tweets» e no seu «discurso sobre o Estado da União». Quer ele, quer a oposição, estão convencidos de terem «o tempo ao seu favor» e o braço-de-ferro promete continuar, pelo menos até a corrida às primárias dos dois partidos, para a designação dos candidatos às próximas eleições presidenciais.

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