Opinião

A Europa e a correspondência entre Churchill e Estaline

Luis Alberto Ferreira |*

O Kremlin desmentiu a ocorrência de quaisquer contactos de Putin com o candidato presidencial norte-americano Donald Trump. O que Moscovo poderia hoje considerar factual e relevante é a correspondência que, durante a Segunda Guerra Mundial, trocaram entre si Estaline, Roosevelt e Churchill.

 A correspondência epistolar entre estadistas das chamadas potências mundiais iria, entretanto, quase extinguir-se. Sabemos do gigantesco tropel das múltiplas mudanças – reais e artificiais – acontecidas depois da Segunda Guerra Mundial. Mudanças que desembocaram no actual retrocesso qualitativo nas relações entre continentes, países, povos, culturas e religiões.
O curso da Segunda Guerra Mundial cifrou-se, de facto, numa grande oportunidade para a desejável coesão planetária. Oportunidade perdida, poucos aceitam reconhecê-lo. Uma defenestração cometida com a leviandade de quem pensava o presente, venerava o imediato e apetecia a carnalidade efémera dos bens materiais. O resultado é o que temos hoje diante dos olhos. A Espanha vai acolher no regaço do erário público muitíssimos milhões pela venda de armamento bélico à OTAN e a países como, por exemplo, a Arábia Saudita, implicada na carnifica decorrente no Yémen, e o Iraque, onde o sangue jorra a cada minuto. A França, depois da tragédia de Nice, destacou para a Síria a sua aviação de guerra: choveram bombas sobre os civis de Alepo, cidade sitiada pelos terroristas e agora confortada com sete corredores de ajuda humanitária propiciados pela ajuda da Rússia. Vi num canal televisivo da América do Sul uma reportagem desanimadora sobre as bolsas de pobreza em Inglaterra: “Terceiromundismo à Inglesa”, intitula-se o documentário. Ao mesmo tempo, o “Le Monde Diplomatique” surpreendia-me com mais um dossiê à altura do melhor jornalismo de investigação: “Desunião Europeia – Viagem por uma autodestruição”. Como suporte analítico, na mesma edição do “Diplomatique”, mais um editorial de rigoroso delineamento crítico assinado por Serge Halimi: “Uma Europa por reconstruir”. Há, no texto em apreço, um momento crucial: “A União, projecto de elites intelectuais nascido num mundo dividido pela Guerra Fria, desperdiçou há um quarto de século uma das grandes bifurcações da História – um outro caminho possível. A queda da URSS deu ao Velho Continente uma oportunidade para refundar um projecto susceptível de satisfazer a aspiração das populações a justiça social e paz. Para isso, teria sido necessário que não se tivesse medo de desfazer e reconstituir a arquitectura burocrática sub-repticiamente erigida ao lado das nações, e ainda que se tivesse mudado o motor livre-cambista desta máquina. A União Europeia teria então oposto, ao triunfo da concorrência planetária, um modelo de cooperação regional, de protecção social e de integração por cima das populações do ex-bloco de Leste. Em vez de uma comunidade”, prossegue Halimi, “a União criou um grande mercado, carregado de comissários, de regras para os Estados e de punições para as populações, mas muito aberto a uma concorrência desleal para os trabalhadores. Um grande mercado sem alma e sem outra vontade que não a de agradar aos mais privilegiados e aos mais bem relacionados das praças financeiras e das grandes metrópoles. A União já só alimenta um imaginário de penitências e de austeridade, invariavelmente justificado pelo argumento do mal menor”.
Outro rasgo chamativo – por coincidir com a explanação crítica de Halimi – é a do novelista também francês Michel Houellebecq, que o diário italiano “La Repubblica” quis ouvir a respeito do abandono da União Europeia pelo Reino Unido. É bem certo que, no imediato, os resultados dessa decisão dos britânicos traduzem-se em convulsões assinaláveis nos meios políticos, sociais, empresariais, financeiros, etc. Contudo, não só se conhecem do Reino Unido as suas múltiplas capacidades de superação como, por outro lado, se desconhece a autoridade moral de formadores de opinião radicados em países que constituem na Europa exemplos deploráveis da “Desunião” – sobretudo “Desigualdade Europeia” – denunciada pelo “Diplomatique”. O novelista Houellebecq disse aos jornalistas italianos – profissionais certamente preocupados, por seu turno, com o “buraco” de 360 mil milhões na Banca do seu país... – o que Serge Halimi clarifica no seu editorial: “Acho muito bem. Louvo os britânicos por não se renderem às exigências da elite mundial. Sem vínculos com a Europa, os britânicos viverão muito melhor. O projecto da União é uma ilusão perniciosa. A Europa não tem interesses económicos comuns, nem uma língua ou uma cultura comuns (...), portanto é impossível uma estrutura política comum e democrática”. Reagindo em termos desabridos, um dos mais “alcatifados” defensores do andamento desuniforme da União Europeia, o novelista espanhol Javier Cercas, que vota numa “democracia” dominada pela corrupção e pela desigualdade, argumentou, retórico, usando a magnificação dos “benefícios” da UE. Conclusão inelutável: o espectáculo  agora oferecido pela UE não é senão o resultado do desprezo pelas grandes oportunidades históricas.
Churchill e Roosevelt assinaram, juntos, cartas dirigidas a Estaline no decurso da Segunda Guerra Mundial. Estaline queria, em Setembro de 1941, a abertura de uma segunda frente para travar as forças de Hitler. Churchill confessou então ao colega soviético a falta de meios para participar no projecto. Estaline achou, contudo, que “o Governo britânico deseja a vitória da URSS”. O tom dessa (numerosa) correspondência, envolvendo também Roosevelt, não poderia ser mais amistoso. Hitler seria de facto derrotado. No entanto, o Plano Marshall norte-americano de 1947 transformar-se-ia em detonante da maldição europeia. As contradições, hoje, causam assombro: a navegar, dir-se-ia, em águas gregas, o couraçado “Deutsche Bundesbank” acusa um rombo de 6.700 milhões de euros...

(*) Luis Alberto Ferreira é o mais antigo
jornalista angolano no activo

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