Opinião

A insólita “oferta” ocidental de “reconstrução” da Síria

Luís Alberto Ferreira

No seu sempre actual  “Diálogo de Civilizações”, Roger Garaudy denuncia “a falácia segundo a qual o Ocidente - quer dizer, a Europa - teria sido o único criador de valores humanos”. Ao ilustrar, com exemplos contundentes, a mesma teoria, Roger Garaudy lembra as “ocasiões perdidas” da História: o genocídio dos índios americanos, a escravatura dos negros que eliminou cem milhões de africanos, o colonialismo e suas sequelas, a ignorância das riquíssimas culturas e civilizações não ocidentais.


Outros sociólogos, investigadores e historiadores corroboram as disposições gerais deste moldar analítico de Roger Garaudy. O inglês Edward Bying, renomado especialista que durante muitos anos permaneceu nos países do Médio Oriente em convívio com as populações, aprimorou-se no conhecimento da psicologia e costumes desses povos como elementos indispensáveis a acrescentar ao seu passado. Nesta ordem primacial de conceitos se inscreve o muito actual e indispensável estudo da ala radical do Islão e do chamado Islão político. Águas agitadas do presente nas quais se move com “conhecimento de causa” o iraquiano Waleed Saleh Alkhalifa, doutorado em Estudos Árabes e Islâmicos e licenciado em Filologia Hispânica.
O Afeganistão, onde em 2017 morreram nada menos de 2.300 pessoas - não obstante a presença dita “pacificadora” de militares ocidentais - é um dos temas recorrentes nas análises de Waleed Saleh Alkhalifa. Não lhe é indiferente o que antes preocupou, também, o britânico Edward Bying. Por exemplo, a situação geográfica do pais. Já nestas colunas me referi, a propósito da Síria, do Iraque e do Líbano, aos “Prisioneiros da Geografia”. O Afeganistão é um deles: Situa-se entre grandes potências como a Índia, o Irão, a Rússia e o Uzbekistão. É chamativa a sua riqueza étnica e cultural. As simplificações ocidentais satisfazem-se na contagem de baixas entre os talibãs...
Esta será a melhor introdução possível ao tratar-se, agora, das “novas iniciativas ocidentais” no Médio Oriente. Com Recep Erdogan, da Turquia, a vender por alto preço a importância atribuída ao país otomano pelos Estados Unidos da América, União Europeia e... a Organização do Tratado Atlântico. Numa altura em que esta, a OTAN, empreende, pela primeira vez, diligências em defesa da sua coesão ou eventual robustecimento, a União Europeia propõe-se criar as suas próprias Forças Armadas.
Se o analista Internacional Vladimir Ardanza obtempera, face a algumas “magnificações” unilaterais, que a Rússia, a China e a Coreia do Norte se aproximam dos níveis de capacidade nuclear dos Estados Unidos da América, o Governo de Donald Trump, por outro lado, revela constrangimento ao desencadear agora esforços “diplomáticos” do seu secretário de Estado no Médio Oriente.  Rex Tillerson  efectuou agora visitas-relâmpago ao Egipto, Turquia e Líbano, inconclusivas. Na Turquia, o secretário de Estado norte-americano, à margem das manifestações  populares insultuosas em Ankara, limitou-se a nutrir uma flébil “troca de impressões” com o perigoso e imprevisível Recep Erdogan, como nunca a movimentar-se no mesmíssimo tabuleiro  regional: antes da recepção a Tillerson havia estado, o primeiro-ministro turco, no Líbano, “praça difícil”, e na Grécia (!), onde pôs termo a longos anos de mútuo e acre divórcio. Erdogan alisou caminhos, mas invadiu o norte da Síria... Tillerson colheu ineficácias. No Líbano, o secretário de Estado norte-americano fez o inadequado: atacou o Hezbollah, trave-mestra dos equilíbrios que pacificaram o Líbano destes últimos anos. De facto, o Hezbollah controla no Líbano a “respiração” quotidiana do grande núcleo xiita, circunstância vital para o país, que alimenta planos (incómodos para Israel), de exploração de petróleo e gás na franja marítima. Um contencioso em cuja esfera pedregosa, diz o analista norte-americano William Engdahl, radicado na Alemanha, reinam os cálculos da aliança israelo-norte-americana. Há evidências de inabilidade. Tillerson acusou o Hezbollah de constituir uma ameaça à paz no Líbano e na região _ pura falácia. (Israel atravessa os céus do Líbano para bombardear, na Síria, alvos civis e militares). Washington não controla os desmandos e o tribalismo de Ankara.  Erdogan acusa Washington de apoiar e fornecer armas aos “terroristas” da milícia kurdo-síria YPG. As constantes gravitam sempre na Síria. Irrompe, por fim, o insólito da “disponibilidade” da Europa (encapotada na indecifrável “comunidade internacional”), para “ajudar” como “participante” na “reconstrução” da Síria. Esquecida, por certo, a UE, das responsabilidades autorais que lhe cabem na destruição da mesmíssima Síria, secundando os terroristas do Daesh e forças norte-americanas colaborantes. Esquecimento, o da UE, traduzido na ideologia proposital da senhora Federica  Mogherini, chefe da diplomacia de Bruxelas e cúmplice do farisaico  ”Exército Livre da Síria” (ELS), aliado de facto dos terroristas do Daesh _ todos colocando sobre a mesa de “negociações” a exigência prévia do afastamento do presidente sírio Bashar el-Assad! A teoria risória das “reconstruções” pós-destruição, no Médio Oriente, concebida pela maquinaria ocidental, devolve à superfície pesadas e repugnantes lembranças. O Kuwait e o Afeganistão podem servir de bússola. Na sequência da nunca explicada, por isso intrigante, “aventura” extramuros de Saddam Hussein, prelúdio do dilaceramento do Iraque, jornais da América Latina revelaram a participação de empresas da família Bush na “reconstrução” do Kuwait. Uma implicação afinal tentacular. Reflectia as boas relações empresariais entre a família Bush (Estados Unidos) e a família Bin Laden (Arábia Saudita). Hoje, quem quer que seja tem acesso livre à respectiva documentação. Enquanto nos debruçamos, alguns de nós, sobre os escaninhos dessa cumplicidade “empresarial” (!!!), a senhora Federica Mogherini vai clamando que a “ajuda” europeia à “reconstrução” depende de “melhorias no terreno”, o do território da Síria, calcinado pelos destinatários do “Diálogo de Civilizações”. Noam Chomsky, provadamente o norte-americano mais importante da actualidade, sugere que “esta geração _ universal _ terá de decidir se a existência humana se justifica ou é possível”. Um autodiagnóstico, este, de agradecer.

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