Opinião

A inutilidade das terríveis lições da batalha de Okinawa

Luis Alberto Ferreira

Puras exortações ao imobilismo demagógico! Um homem desloca-se, a duras penas, de Guadalajara, até à Cidade do México, entra num hospital e desabafa: “Eu quero só uma moedinha”.

E o médico que o atende exclama: “A virtude deste homem é a esperança!”. Pois, entre o escamoteio e a aura sacrossanta da demagogia neoliberal. Recurso não aplicável, todavia, a fenómenos sociais de maior rebentação: os 29 suicídios de trabalhadores despedidos, em França, por empresas como a Continental de Clairoix, ou a Goodyear, que eliminou de um só golpe mais de mil empregos “quando registava milhares de milhões, em lucros pelo mundo fora” (Le Monde Diplomatique). Desde a Segunda Guerra Mundial, vivemos um indescritível latrocínio moral_ sob a hegemonia tentacular de “órgãos de comunicação social” que as “novas tecnologias” agilizam a cada segundo. Crianças e adolescentes não brincam, vêem televisão e, cooptadas pela “civilização telemóvel”, muito pobremente dominam a língua nativa. Os principais centros urbanos sucumbem à pressão demográfica e à carência de infraestruturas. Ninguém se interroga sobre a “saúde” do mundo, sobre a “saúde” da convivência, sobre os novos perigos que nos cinturam. “A história do Haiti”, comentava há dias o norte-americano William Robinson, “é a história dos vários imperialismos capitalistas” _ um clamor. O Haiti continua miserável, explorado, abandonado. Privaram-no de todo o sangue da sua vitalidade. E o processo de balcanização da Síria estremece-nos com novos figurinos da ingerência militar. William Robinson é professor de sociologia na Universidade da Califórnia. Investigador pertinaz, Robinson invade sem temor os corredores da globalização, do materialismo histórico, da economia política. Mais contundente nas análises continentais é, todavia, o seu compatriota Russ Baker, também californiano, mergulhado no jornalismo de investigação. Como a intrépida Manú Dornbierer, colunista suíço-mexicana que viveu alguns dos piores momentos da tragédia do Iraque, também Russ Baker comete as mais veementes indagações nos cacifos da responsabilidade do clã Bush. Disso é prova um livro recente, “Family of Secrets”, que Manú Dornbierer avaliza nestes termos: “A dinastia Bush, o Governo invisível da América e a história oculta dos últimos cinquenta anos”. Merecem observação as andanças jornalísticas de Baker (hoje com 61 anos, um jovem… se considerarmos os actuais 86 de Manú Dornbierer). Russ Baker vem publicando em jornais como o “The New Yorker”, o “Washington Post”, o “The New York Times”…  Em suma, as populações dos Estados Unidos não podem queixar-se da carência de meios _ quando em causa está a interpretação correcta do que acontece dentro e fora do seu país. Os episódios em curso no mundo devem comover e preocupar a Humanidade. Na Síria, reedita-se agora o que Russ Baker esquadrinha no seu já imperdível “Family of Secrets”: os mais de 500 mil iraquianos mortos durante a famigerada “Tempestade do Deserto”. Depois de, como reitera a colunista Manú Dornbierer, ter a Casa Branca de George W. Bush menospreciado o prévio ajuizamento das Nações Unidas. Enquanto hoje milhares de trabalhadores desfilam e protestam, em Paris, contra as medidas “injustas” do seu governo, e quando em Glasgow desfilam, também, outros milhares, pela independência da Escócia, a Síria vive o inferno de um processo de balcanização susceptível de prosseguir, não se sabe quando, noutras zonas do planeta. Importará, no caso da Síria, lembrar uma das consequências da invasão e balcanização do Iraque: a estruturação da Al Qaeda e do Estado Islâmico (Daesh). Ou, se acharmos mais transcendente, as páginas humanamente inadmissíveis da chamada Batalha do Japão _ quando a Segunda Guerra Mundial quase deu lugar à era do fim de todas as esperanças num mundo melhor. Em 1945, no auge de um dos populismos patrioteiros que mais afectaram a Europa e o mundo, a verdadeira Batalha do Japão cifrou-se na irresponsabilidade da mortífera Batalha de Okinawa. No eixo da ofensiva “ocidental”, a Frota Britânica do Pacífico fornecia mais de um quarto do apoio naval “Aliado”. Algo como cerca de 450 aviões-caça e 17 porta-aviões, além de 50 navios de guerra. Para ripostar aos ataques “kamikazes”, os “Aliados” contavam ainda com unidades “dos mais diferentes lugares da comunidade britânica de nações” _ Canadá, Nova Zelândia, Austrália… Na altura, desconhecia-se que Prescott Bush, pai do mais velho dos Bush _George Bush, chegado à Casa Branca depois do exercício como director da CIA _ era suspeito de ter financiado “projectos” de Adolfo Hitler. (John Foster Dulles, secretário de Estado norte-americano, foi, de facto, delegado oficial da banca hitleriana nos Estados Unidos). Do lado japonês, numa luta “primordialmente defensiva”, 67 ou 77 mil soldados do designado Exército Imperial e outros 9 mil da Marinha imperial, dos quais apenas algumas centenas haviam recebido a conveniente treinagem… Até trabalhadores, cerca de 15 mil, sem fardamento e sem armamento compatíveis, combateram e morreram, pelo Japão, nos recontros de Okinawa _ uma irresponsabilidade só sobrelevada pelos horríveis bombardeamentos atómicos em Hiroshima e Nagazaki. Como advertência sempiterna ou convocatória para um mundo fraterno de reciprocidades _ na rota de um progresso igualitário e prevenido _ ficam, irreparáveis, as baixas sofridas ao longo da batalha de Okinawa. Do lado norte-americano, 82 mil mortos e desaparecidos. Muito controversas precisões, em todo o caso:  4.907 perdas  da Marinha, 4.675 do Exército e 2.938 do Corpo de Fuzileiros. O próprio general Buckner, que decidiu e dirigiu o assalto a Okinawa, “foi morto por fogo de artilharia nipónico quatro dias antes de concluída a campanha”. Nas filas japonesas: cerca de 111 mil mortos, números “estipulados pelos militares norte-americanos”. Porém, o Japão retoma, agora, sem dissimulações, a tentação genesíaca do militarismo. Em pleno 2018, a inutilidade das terríveis lições de Okinawa deve inscrever-se, com urgência, na esfera transpolítica. Um claro aviso à Humanidade.

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