Opinião

As Mil e Uma Noites do Qatar segundo a Arábia Saudita

Luis Alberto Ferreira |

Eça de Queirós chamava-lhe humorístico lugar-comum do século XVIII: “A História é uma velhota que se repete sem cessar”.

No dia em que eu li esta máxima certeiríssima, pensei, de imediato e por associação de ideias, nas incontáveis aplicações metafóricas que, com base na História, permitiriam até uma equiparação com “As Mil e Uma Noites”. Ou com uma obra, “A Feira das Sensações”, novela de combate escrita no México pelo checo Erwin Kisch, fugido de Praga ante a aproximação das tropas e blindados de Adolfo Hitler. Desta tão variada cosmogonia emergem, de facto, “sensações”, muitas “sensações” experimentadas pela “velhota”, a História. Ao longo de sucessivas e tormentosas “Mil e Uma Noites”, multiplicáveis até cobrirem por completo as grandes ignomínias sofridas pelos povos de todos os continentes. Para muitos países, “As Mil e Uma Noites” estão para durar - e é bem verdade que nós, os povos, temos muito, ainda, para ouvir ou contar. Já vivemos a escravatura e ainda hoje lambemos as suas feridas. Já vivemos o colonialismo, exercido por gente que afinal pouco ou nada sabia e ainda hoje continua, em desespero de causa, a aprender. Já vivemos as consequências do “Mapa de Berlim”, de que o Ruanda, o Burundi e o Boko Haram são saliências espumejantes. Já vivemos as infindáveis “Mil e Uma Noites” de Hiroshima e Nagasaki. E temos consciência perfeita de como curdos, sírios e iraquianos estarão vivendo, hoje, as suas “Mil e Uma Noites”. Ao referir-se à “velhota”, a História, pois, Eça de Queirós ilustrou a sua tese com o manancial de crueldades do colonialismo britânico no Afeganistão e na Índia, em 1847 e em 1880. Alguns trechos da sua prosa chegam a produzir efeitos hilariantes. Ofereço-lhes um exemplo deveras chamativo: ”Em 1847, os ingleses, “por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, enfim, uma barreira ao domínio russo da Ásia…” e outras coisas vagas que os políticos da India rosnam sombriamente retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão. E aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas. Apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul. Sacodem do serralho um velho emir apavorado, colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes. E, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampando à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz… Assim é, exactamente, em 1880”. Razão tinha ele, Eça, ao invocar a “velhota”, a História, que sempre se repete. E Porque a História se repete, “As Mil e Uma Noites” - de cada povo, de cada nação- repetem-se. Às vezes, mediante a intromissão calculada de terceiros. O Qatar vê, de súbito, de supetão, recusada de um só golpe a sua pretensão de viver, a seu jeito, as suas “Mil e Uma Noites” nativas, autênticas. Uns estranhos, a Arábia Saudita, apossaram-se da tutela das “Mil e Uma Noites” do Qatar. Sem mais nem menos, os senhores de Riade arrancam das mãos dos senhores do Qatar a pluma e o guião das “Mil e Uma Noites” dessa pequena república enconchada entre areias e águas do Golfo petrolífero. Até quando? A pergunta é de Aladino…
Coisa estranhíssima. Num abrir e fechar de olhos, faz-se luz: “O Qatar alimenta o terrorismo do Estado Islâmico”. Chama-se a isto abrir uma segunda conta quando, por causa da primeira, temos à perna a polícia e a entidade creditícia. Fez-se luz, imaginem, no Qatar, com holofotes da Arábia Saudita. “As Mil e Uma Noites” do Qatar  mergulham nas trevas do insondável e do conluio, direitos de autor sequestrados  por nefanda e militarmente poderosa mão vizinha. Quem patrocina o esbulho? A que propósito? Fez-se luz no Qatar. Tanta (luz) que ninguém compreende como o Iemen, bombardeado, esventrado e dilacerado pelo Exército e a Força Aérea da Arábia Saudita, também participa do cerco ao Qatar. Fecham-se fronteiras, retiram-se embaixadores, proferem-se acusações que poderiam bem ser devolvidas a quem as profere: terrorismo, alianças estranhas ou espúrias, tentações de açambarcamento hegemónico do espaço das influencias. A verdade é que este segundo ou terceiro exportador mundial de gás, com todos os seus defeitos reais ou imaginários, emprega muitos imigrantes… Não poucos dos quais, egípcios, agora perturbados e inseguros - porque o Cairo é também peça do cerco ao Qatar. Tudo muito estranho e digno das “Mil e Uma Noites”. Coincidência singular, outra: a maior parcela das histórias que formam o livro foi recolhida, no século IX, em países como o Irão - sim, o Irão… - a Síria… o Iraque… o Egipto - sim, o Egipto - o Afeganistão. Donald Trump, que “nunca esteve” na Arábia Saudita, não é associável à lâmpada de Aladino. Quanto ao agrandamento armamentista da Arábia Saudita, o mesmo deve-se às influências além-túmulo da bela Scheherezade, figura central, uma espécie de Liz Taylor das “Mil e Uma Noites”. Outra coincidência, mais uma: o Qatar, segundo estatísticas internacionais de barulhos e confusões, é o 19º país mais pacífico do mundo. E, já agora, um dado interessante para todas as eminências do Golfo: mercê do imenso valor das suas exportações, o Qatar alcançou, já, o índice de desenvolvimento humano mais alto de todo o mundo árabe. Daí, talvez, o facto de, nesse país de pouco mais de 300 mil nativos, ninguém pagar impostos. São factos, nada capturado das “Mil e Uma Noites”. Repare-se na pouquidão das letras chamadas a formar o nome da pequena nação: Qatar. E compare-se com a extensão do nome do homem que, no ano de 850, compilou e traduziu “As Mil e Uma Noites”: Abu Abd-Allah Muhammad el-Gahshigar. A História deveria fazer justiça àqueles que, menosprezados pelo princípio da proporcionalidade, distribuem o que outros investem na arte da destruição. Segundo os jornais, alguém acena com o argumento das “ajudas ao terrorismo”. Ora aí está um tema digno de uma larguíssima investigação… em vários continentes e países. Comecemos pelas circunstâncias da Síria. Aladino e a sua lâmpada agradecem.

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