Opinião

Aznar e Felipe González juntos no “assalto a Caracas”

Luís Alberto Pereira |

Em Espanha, a Lei de Segurança Pública reflecte o argumentário neofranquista do governante Partido Popular (PP). Ao mesmo tempo, o discurso do PP revela-se matrimoniável com a impudícia de Felipe González e de outros falsos fundadores do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).

Por mera coincidência(?), isto ocorre num momento em que a Espanha se percebe convulsa, fremente, com as populações a responderem de modo muito expressivo às proclamas de novas formações político-partidárias (“Podemos” e “Ciudadanos”). Em perigo, pois, o “statu quo” do bloco central, muito à maneira de como se vive nos Estados Unidos, o sobe-e-desce protagonizado por democratas e republicanos.
O emblema indisfarçável do neofranquismo  que irriga o PP é o bigodado José María Aznar, de pequena estatura e astuciosa “pinta”, instigador de George W. Bush e Tony Blair quando a tragédia do Iraque foi parturejada em território português dos Açores. De entre as exuberâncias  de Aznar destaca-se, sobremaneira, a sua recusa, sua e do seu partido, em condenar  no Parlamento espanhol os crimes horrendos do franquismo. Deste fenómeno decorre um facto que apenas por algum tempo perturbou a disposição crítica dos espanhóis: a literal “decapitação” do juíz  Baltasar  Garzón, cuja carreira judicial foi trucidada depois da sua tentativa de reabertura e julgamento dos crimes de Franco e seu hediondo regime. Na vertente dos socialistas (PSOE), com frontaria já remoçada, ao desconcerto causado pela erupção do “Podemos” acresce, agora, a intenção anunciada pelo “velho” Felipe  González  de ir à Venezuela, na qualidade de advogado, encarregar-se da defesa de dois “patriotas” enclausurados pelo regime de Nicolás Maduro. Pode parecer  “bonito”. O regime de Maduro e o quadro actual da vida nacional venezuelana têm muito que se lhes diga. Quem defenda os mínimos valores cívicos, a segurança, a qualidade de vida, com muita relutância apoiaria, hoje, o que sucede em segmentos essenciais do pulsar do país que a agenda bolivariana de Hugo Chávez colocou no eixo das agendas internacionais. Há, contudo, no tocante à Espanha do PP e do PSOE, muitos reparos e relembranças por fazer. Algo que, de um só golpe, deita por terra as presunções do neofranquista Aznar e do socialista González.
No dia 8 deste mês de  Abril, foi dada a conhecer uma “carta aberta a favor da democracia e dos direitos humanos dirigida ao Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro”. A notícia dessa quarta-feira  acrescentava: “A carta já foi assinada por 20 antigos chefes de Estado e Governo da América Latina e Espanha. E será entregue como uma declaração de princípios à margem da Cimeira das Américas, que reúne os líderes de 35 países das Américas e Caraíbas”, a realizar no Panamá. O principal “activista” desta iniciativa é… José María Aznar. Coisa de impressionar o mais estrábico dos observadores. Em primeiro lugar, devem questionar-se  as capacidades intelectuais deste ex-chefe do governo espanhol. E logo apurar os índices de autoridade moral que possam dar sustento às suas diligências. Da desfaçatez na colagem ao franquismo, das medidas golpeantes da qualidade de vida dos espanhóis, da destruição estética e sanitária de Madrid, da política externa conivente com os piores regimes da América Latina, das provocações neofranquistas a Cuba, da mentira tonitruante sobre a autoria dos atentados de Atocha (na fracassada tentativa de ganhos eleitorais), dos incitamentos à invasão do Iraque, até à sua presentânea actividade intriguista no seio do próprio PP espanhol, de tudo um pouco faz deste político reaccionário a imagem do mais ruinoso descrédito.
Tão pouco o socialista Felipe González, nesta braçagem de política internacional perversa, escapa ao crivo de algumas valorações éticas e morais. Permitir que se confundam com a Andaluzia, digamos Sevilha, onde ele nasceu, as origens do PSOE, é um deixa-andar que não enobrece González ou o seu conterrâneo e “compagnon-de-route” Alfonso Guerra. Nenhum dos históricos, dos verdadeiros fundadores do PSOE teve berço na Andaluzia. Mas a desautorização moral de González procurou-a o mesmo González e equaciona-se noutra esfera. Na da sua política, quando governante, para combater a ETA. O terrorismo deve ser combatido, dê por onde der, doa a quem doer, com medidas extremas de prevenção, vigilância, dissuasão, repressão judicial e políticas prisionais em consonância irrefragável com o Estado de direito.  A ETA, enquanto grupo terrorista accionado por razões políticas, ceifou vidas inocentes e indefesas. Colocou-se na mais inapelável das marginalidades. Ora, num quadro de monarquia constitucional, os governos de Espanha não estavam legitimados para constituir, às ocultas e com disfarces patéticos, os seus próprios grupos terroristas. Fê-lo o governo socialista do mesmíssimo Felipe González, que hoje coincide com o neofranquista Aznar no pretendido “assalto a Caracas”. Os governos de González  criaram, de facto, na década de 1980, os Grupos Antiterroristas de Libertação (os GAL), uma forma declarada de terrorismo de Estado, ou “guerra suja”. Os GAL foram uma criação do ministério do Interior da época de González. Passada a fronteira espanhola, os terroristas dos GAL entravam no País Vasco francês e metralhavam, às cegas, o interior de cafés e bares supostamente frequentados por gente  da ETA. O resultado de tais incursões viria a traduzir-se num cataclismo. Os GAL assassinaram simples militantes da esquerda independentista do País Vasco, ecologistas, sindicalistas e outros cidadãos em nada identificados com a ETA ou com os seus abomináveis métodos. E, como se tal não bastasse, os GAL abateram também cidadãos franceses sem quaisquer ligações à ETA ou à política interna da Espanha.
Em suma, o governo socialista de Felipe González não olhou a meios quando tentou envolver também a França, na perseguição e extermínio dos “etarras”. As vidas humanas decapitadas por esse terrorismo de Estado  não foram, de modo nenhum, ressarcidas, quando o ministro e o secretário de Estado do Interior foram parar aos calabouços madrilenos de Carabanchel. Com isso, alguma coisa a democracia espanhola terá ganho. Felipe  González, contudo, não aprendeu. Fia-se na fraca memória  do “bom povo”. Lá vem, agora, em pose quixotesca, juntar-se ao neofranquista Aznar na “expedição punitiva” a Caracas. O mais absurdo da convocatória de Aznar é o facto de a “carta aberta”  ter incluído assinaturas de “20 antigos chefes de Estado e de governo da América Latina”. Observado com uma lente de razoável eficácia, o passado de alguns desses cavalheiros só pode exibir manchas abjurantes da decência elementar. O colombiano Álvaro Uribe, arquitecto dos “esquadrões da morte”, mil vezes piores que os GAL, tudo faz para sabotar os esforços do actual executivo de Bogotá para pacificar a nação. E os mexicanos Fox Quesada e Felipe Calderón, da extrema-direita, arrasaram o seu país com a corrupção e as estrambóticas “facilidades” aos “capos” do narcotráfico. Afinal, uma carta  “aberta” que, por questões de decoro, mereceria antes ser “fechada” a sete chaves.

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