Opinião

Churchill descobriu a tempo que havia fascistas no Reino

Luis Alberto Ferreira |

No dia 29 de Março, Theresa May sacudiu o Parlamento britânico com “palavras fortes” para anunciar os preliminares da saída da União Europeia. Alguma imprensa dos países associados a “copos e mulheres” fez da postura de May uma espécie de fim do mundo: “O Brexit arranca com um duro choque entre Londres e a União Europeia”.

Os queixumes da imprensa neofranquista de Madrid prendiam-se, de facto, com a questão de Gibraltar. Porque, em circunstâncias não de todo idênticas mas “parecidas”, o Reino Unido não precisou sequer de oito dias para arrasar, em águas das Malvinas, as forças de mar e ar da Argentina. A senhora Theresa May, é certo, deu já a entender que o Reino Unido não abdicará da soberania em Gibraltar. Um dos membros do seu gabinete, o ministro David Davis, explicou que as palavras de May “não significavam uma ameaça”. O que a primeira-ministra britânica disse em Londres privilegia águas mais profundas: o Reino Unido contribuirá para a segurança colectiva europeia se houver, nos termos da saída, “um bom acordo económico e comercial”, satisfatório para o seu país. A Espanha, com o pensamento em Gibraltar, confiou ao seu ministro das Relações Exteriores a tarefa épica de explicar que o seu país gostaria de “um Brexit manso”. Trasladar as Malvinas para Gibraltar seria uma loucura.  
Um dos rasgos mais sinistros da narrativa política de Bruxelas é a negação e a subestimação sistemáticas do passado histórico, das feridas por cicatrizar, das ofensas e prejuízos nunca ressarcidos. Theresa May abriu o seu discurso de finais de Março no Parlamento com uma assertiva cortante: “Este é um momento histórico e não haverá marcha atrás”. Na Batalha de Trafalgar (Outubro de 1805), em águas vizinhas de Gibraltar, o almirante Nelson, que comandava esquadra britânica do Mediterrâneo,  proferira o célebre sinal de bandeira: “England expects that every man will do his duty” (A Inglaterra espera que cada homem cumpra com o seu dever). Theresa May, aconteça um Brexit “bom” ou um Brexit “mau”, espera o mesmo dos seus concidadãos. A História europeia é um corpo sulcado de chagas, purulências e traumatismos perduráveis. A insolidariedade encontra nisso uma campina fertilíssima de interpretações e desacordos. A 5 de Dezembro de 2016 o Eurogrupo, melhor dizendo a Alemanha, rejeitou um plano de Bruxelas que visava “uma tímida expansão fiscal de 50.000 milhões de euros em 2017 para remediar os efeitos da austeridade”. Apenas a França, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia apoiaram a iniciativa da Comissão Europeia –  que colheu aplausos do FMI, do G20 e da OCDE. Antes, a 23 de Novembro de 2015, com Bruxelas sitiada depois de mais um ataque terrorista, a França “lembrou-se” de intensificar a sua ofensiva militar e diplomática fazendo avançar o porta-aviões “Charles de Gaulle” para águas territoriais do Iraque. No mesmo dia, o então primeiro-ministro britânico David Cameron exibiu, por sua vez, no Parlamento, um plano para somar o Reino Unido aos bombardeamentos na Síria. E também nesse mesmíssimo dia, o governo da Espanha, numa rotação desconcertante, menosprezou um pedido do ministro francês da Defesa, Jean-Yves Le Drian, no sentido de uma rendição, no Mali, de tropas gaulesas por espanholas. Na “justificação” oferecida por Mariano Rajoy pesou deveras a preocupação pela vizinhança das eleições que a seguir teriam lugar em Espanha. Deu-se até a circunstância de José Manuel García-Margallo, então ministro das Relações Exteriores, ter sido “desautorizado” – expressão usada pela imprensa da capital – por Mariano Rajoy, presidente do Governo, quando este proferiu um desmentido que anulava a prometida disponibilidade da Espanha para reforçar a defesa militar de Bamako. Isto, na sequência do ataque “yihadista” a um hotel de Bamako que causou 27 mortos. (Bruxelas acabava de apurar que a sua Repartição de Propriedade Intelectual descobria, na União, perdas anuais de 48.000 milhões de euros, 7.088 dos quais em Espanha, na esfera das falsificações de marcas de medicamentos, cosméticos, vestuário e calçado...). Tais eram os níveis de solidariedade no seio da União Europeia quando estalou o Brexit saído do ovo de um referendo britânico.  
Cerca de um mês antes da categórica declaração de Theresa May no Parlamento, “ressuscitou” em Londres, nos salões do “Open Britain”, o conhecido Tony Blair, proponente de “uma campanha pelo direito a reconsiderar o Brexit”. Discurso classificado de “incendiário”, muito afim ao crematório devastador que ele, Tony Blair, ajudou a promover no Iraque. É crível que o Reino Unido pagará por um preço contundente os “benefícios” da sua saída da União Europeia. O primeiro lance foi a depreciação da libra em, pelo menos, 20 por cento. Como a saída só estará consumada num prazo de dois anos, a economia britânica mantém-se muito razoável mas deixando clara a importância do apoio simultâneo do Banco de Inglaterra e do Banco Central Europeu (BCE).  Na vertente orçamental, entretanto, um dado mais ou menos forte: o Reino Unido pagará 40.000 ou 60.000 milhões à União Europeia – verbas inerentes às pensões dos seus quadros comunitários, às garantias pelos seus empréstimos e aos projectos europeus em território britânico. Se por um lado isto identifica os pontos centrais da insegurança ou da incerteza no Reino Unido, por outro é inegável o teor preocupante e pessimista dos discursos que há pouco assinalaram o 60º aniversário do Tratado de Roma. Adulterada, com descaramento, a verdadeira significação dos populismos, não é de esperar que haja muitos a olharem-se ao espelho. 
Quando, em 1939, ou 1940, a Inglaterra decidiu envolver-se também na Segunda Guerra Mundial, descobriu Winston Churchill que havia no país uma pequena multidão de fascistas. Duas mil pessoas receberam ordem de prisão. Entre elas encontrava-se um primo do próprio Churchill. Esperemos então pelos novos capítulos.

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