Opinião

Contra-cultura e contra-informação no caos argentário

Luis Alberto Ferreira

Os incas, ainda hoje com estacas da alma e do pensamento mergulhadas na Cordilheira Andina, possuíam uma economia que, como no século XX escreveu Mariátegui, “brotava espontânea e livremente do solo e do povo peruanos”.

 O Perú da época fundacional era um bom lugar para viver. Feito de comunas agrícolas e sedentárias, o Império dos Incas tinha na economia um dos eixos da sua vitalidade e do seu sentido de agregado social. Mariátegui lembra-nos que o povo incaico _ laborioso, disciplinado, panteísta e simples _ vivia com bem-estar material. Desenvolveu, de forma muito expressiva, em benefício do seu sistema económico, “o hábito de uma humilde e religiosa obediência aos seus deveres em comunidade”. Daí, pois, que o trabalho colectivo, o esforço comum, se “empregassem frutuosamente nos objectivos sociais”. Também nos lembra o mesmo Mariátegui, o maior sociólogo da América Latina, que “os conquistadores espanhóis destruíram todo esse formidável sistema produtivo” sem jamais o terem substituído por outro de igual pendor humanista e solidário. “Os conquistadores tudo destruíram, dedicaram-se à pilhagem de templos sagrados e seus tesouros, repartiram entre si as terras e a mão-de-obra escravizada. Começaram a explorar as minas de ouro e prata. E, sobre as ruínas de uma economia socialista, lançaram as bases de uma economia feudal”. Quando Waldo Frank visitou os antigos cenários dos incas, ele particularizou que toda a paisagem “estava dominada pela pedra”. Dilucidação que nos nossos dias explica a existência de monumentos como Tiahuanaco, Cuzco ou Machu-Picchu. A esta oportuna anotação podemos ou devemos associar um outro registo, o do historiador e analista geopolítico colombiano Germán Arciniegas: “As civilizações da pedra ocorreram nos pontos geográficos em que deveriam de facto ocorrer. Absurdo seria que na Amazónia se encontrasse um ídolo de pedra… a Amazónia que justamente atribui ao granito o valor de uma joia”. Resumidos assim o brilho e o desmembramento de uma cultura superior _ a do Império dos Incas _ revisitemos agora as ruínas dos extraordinários avanços científicos que iluminaram o período clássico de outra relevantíssima civilização americana _ a dos maias. Aos maias desse período aurífero ficámos a dever o uso ou invenção do zero, revelador de um grande avanço nas matemáticas. Além da criação de um sistema numérico vigesimal, realizaram os maias medições dos ciclos solares, da lua e dos frisos planetários.  A sua observação permanente dos céus, em combinação com a sua exacta medição do tempo, permitiu-lhes descobrir eventos cíclicos repetitivos, forma eficaz de prever, com grande precisão, eclipses lunares e solares. As duas civilizações, ao contrário das teses do “Ocidente”, não sucumbiram por completo. Os quechuas do Perú actual são os “continuadores” _ explorados e submetidos _ dos incas. Em Chiapas, no sul do México, sobrevive o anfiteatro maia dos tzeltales, tzotziles, lacandones, choles e zoques, entre outros colectivos. Um desenho visceral e vigoroso dos dias de hoje, numa América Latina a esbracejar no caos argentário imposto pelo “Ocidente”, conduz-nos à certeza irrebatível de que incas e maias poderiam ter-nos conduzido, na esfera do progresso, a uma hodiernidade bem diferente da que hoje vivemos: a da contra-cultura e da contra-informação em pleno caos impositivo da ordem argentocrata.  As palavras de ordem desta voracidade poderiam resumir-se numa recente advertência do politólogo francês Serge Halimi, ao considerar que Emmanuel Macron parece ter como principal ambição _ palavras do próprio líder gaulês_ que “os jovens franceses tenham vontade de se tornarem multimilionários”. O remanescente humano dos maias pode hoje assistir, da sua frágil poltrona da Selva Lacandona, como a América Latina se transformou num inferno de assassinos, torturadores, sequestradores e narcotraficantes. Como a contra-cultura e a contra-informação accionam a mentira e o desconcerto. A argentocracia mais inescrupulosa desfigura ocorrências estremecedoras no México, na Colômbia, na Argentina, na Nicarágua, no Chile, na Guatemala, nas Honduras. O prémio Cervantes (literatura) é atribuído a um “arrependido” nicaraguense, Sergio Ramírez, autor de escassíssima nomeada, enquanto na capital do seu país, Manágua, grupos de marginais contratados saem à rua para agredir e assassinar em nome da “defesa da democracia”. No México, “pátio traseiro” dos Estados Unidos, cerca de 350 mulheres foram assassinadas desde princípios de 2018. No mesmo país (México), um “jornalista” do regime permite-se sugerir um magnicídio, o assassinato do candidato progressista Andrés Manuel López Obrador. Na Venezuela, sob uma torrente de sabotagens económicas e financeiras, Nicolas Maduro vence as eleições presidenciais com mais de 6 milhões de votos _ e a imprensa castelhana “informa” que “a abstenção foi de mais de 70 por cento” (!!!). A União Europeia aposta no mesmo tabuleiro. Com muita pena da claudicação prematura e forçada dos incas e dos maias _ não fora isso e teríamos hoje uma verdadeira Civilização global _ recordemos  que o plano de habitação social (2011) gizado por Hugo Chávez, na Venezuela, alcançou agora o apogeu: mais de 2 milhões de casas foram já confiadas às famílias beneficiárias e outras 90 mil irão, em breve, ser construídas. Os pensadores incas e maias poderiam questionar o “Ocidente”: se, em 2017, Nicolas Maduro e a Revolução Bolivariana, em eleições autárquicas, arrebataram 19 dos 23 municípios em disputa, tal numerologia, ciências incorpóreas à parte, bastará para explicar à pedra dura de muitas consciências o triunfo bolivariano nestas eleições presidenciais do passado fim-de-semana. O “Plano Habitação” vai de vento em popa, na Venezuela _ todos os dias bombardeada pela contra-informação. As “favelas”? Ladeado o Amazonas, é só olhar… Continuam por lá.

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