Opinião

"Copos e mulheres" ou a ausência de tropas no terreno

Luis Alberto Ferreira |

Título em mente seria, de início, outro: “A Arrogância das Supremacias e os Teocratas Anti-Sul”. Por fim, a adopção do que coroa hoje estas “subesferas”.

Mais consentâneo, quero crer, com a actual conjuntura no planeta. À maneira de prólogo, um sublinhado: revoluteiam, nestes dias de “muito Ocidente”, os estilhaços das declarações do holandês Jeroen Dijssebloem. (Tremendismo calculista). O timoneiro do chamado Eurogrupo disse que não disse o que disse, reportando-se aos países meridionais ou periféricos da Europa reitora: “Eu não posso gastar todo o dinheiro em copos e mulheres e, depois, pedir que me ajudem”. Itália, Espanha, Portugal e Grécia acusaram o toque e assumiram-se sem rodeios como destinatários da bombarda. Reagiram com verbo próprio de zaragata mais ou menos branda e convencional: a muito estafada reclamação do pedido de desculpas e a também corriqueira exigência demissionária. Como é também da praxe, o referido líder do Eurogrupo e ministro holandês das Finanças negou-se a qualquer pedido de desculpas. E quanto a demitir-se, fora de questão. Simples de explicar: a arrogância das supremacias.
Das reacções que se seguiram ficam-nos jogos de cintura argumentais, várias situações chamativas. O holandês Dijssebloem resguarda a excepcional visibilidade política tão de súbito adquirida, continua à frente do Eurogrupo e tranquiliza os seus pares holandeses. Do lado dos ofendidos, pertence à Espanha a única reacção revulsiva. Carregada de símbolos quixotescos, sociológicos, históricos e policiais: a de Albert Rivera, jovem líder do também jovem partido “Ciudadanos”, de direita “moderada”, diz-se. Rejeitando a exclamatória do holandês insimulante de que o governo de Mariano Rajoy gastou “à grande e à francesa” com “copos e mulheres” – isso seria malbaratar as ajudas da UE que evitaram a intervenção da troika – contrapôs Rivera: “Não, nada disso, em copos e mulheres não foi. Quem desbaratou esses dinheiros foram a corrupção, as circulares sem automóveis, os aeroportos sem aviões e os comboios sem passageiros”. Forma muito original de reconhecer que afinal a teoria dos “copos e mulheres”(a Holanda tão pouco será inocente na matéria) se aplica muito bem à Espanha: os dinheiros para o forrobodó poderiam relacionar-se com a proliferação de obras públicas não necessárias. A corrupção nos regimes de Mariano Rajoy vem sendo de fazer tremer a Torre de la Calahorra. Mais do que semântica, a declaração de Rivera é política – e quase catastrófica para o “destinatário”. Duplo efeito, pois, em Espanha, dos artefactos verbais disparados pelo holandês do Eurogrupo.Com a pior das intenções. Célere, a corrente das supremacias rói o pau-de-tunga das consensualidades. Sanha iníqua. As vontades unilaterais enconcham-se num feudo de pouquíssimos. 
Vem à superfície a inexaurível capacidade dos centros económicos para manter intocáveis e atendíveis os seus teocratas. O holandês Dijssebloem foi eleito, vai para mais de cinco anos, por influência inequívoca da Alemanha. Entrementes, como as cruzadas extremistas de Bannon, de Robert Mercer, do Relatório Drudge ou do Breitbart Banc não passam ao lado de Trump, este já se permitiu tratar com sobranceria a senhora Merkel durante uma entrevista do anfitrião com a líder germânica. Numa Europa a duas velocidades, os denominadores comuns passam pelo medo (segurança interna) e pela incerteza (Brexit “bom” ou Brexit “mau”).O rei Felipe VI de Espanha deposita nos dias 6, 7 e 8 de Junho próximo sublimadas esperanças que são também as dos mais de 150.000 espanhóis que vivem no Reino Unido e dos 300.000 britânicos radicados em Espanha. A todos preocupa o “Brexit”. A visita do soberano espanhol ao Reino Unido tem sido protelada – por culpa das sucessivas eleições efectuadas, em Espanha, desde Dezembro de 2015. Os vaticínios admitem, contudo, margem para novo adiamento. De facto, o PP de Mariano Rajoy mantém a Espanha sequestrada pela sua capacidade de recorrer à chantagem. A governar, sim, mas condicionado por não possuir maioria no Parlamento, Rajoy sofreu há pouco um desaire aparatoso: numa “derrota parlamentar sem precedentes desde 1979”, o seu governo viu rechaçada a tentativa de manter em vigor uma lei que afectava com evidente dureza a classe operária dos estivadores. Ele ameaçou, então, com “não concluir a legislatura”.
Poderia uma eventual e agora tão invocada federalização da Europa corrigir ou impedir tais desmandos? O que se sabe do lado dos “mais fortes” – no Ocidente algo ininteligível – é que o pomo da discórdia assenta no controle ou exercício das supremacias. A Conferência da Segurança (18 de Fevereiro) em Munique, abundou em evidências. Trump enviou o seu vice-presidente, Mike Pence, que “reafirmou” o “compromisso” dos EUA com a OTAN. Choveram, contudo, as alfinetadas. Reiterando anteriores assertivas do secretário de Estado e do secretário da Defesa norte-americanos, Mike Pence insistiu: “é chegado o momento” de a Europa abrir os cordões à bolsa na vertente militar. Merkel promete “fazer o possível”: chegar a 2024 com dois por cento do PIB atribuídos às Forças Armadas. Muito interessante – para filósofos, ensaístas da Guerra e da Paz, sociólogos, psicólogos... – o rasgo ideológico do “vice” de Donald Trump ao relacionar o “estilo de vida” ocidental com a supremacia das armas. Há “pacifistas” a reflectir sobre o que vem sucedendo, de facto, na Síria e no Iraque. Tropas no terreno – só os curdos e os soldados sírios e iraquianos.
Em Novembro de 2015, o escritor francês Bernard-Henri Lévy, nascido na Argélia e líder do movimento “Novos Filósofos”, advertia: “More blood on our ground, no boots on their ground” (Se não há tropas no terreno deles mais sangue haverá no nosso – eis a questão). Lévy indignava-se com o facto de ser o sacrificado povo curdo a argamassa do primeiro obstáculo à progressão do Estado Islâmico... rumo a Paris, Nice, Bruxelas, Londres. Babilónia e Palmira são patrimónios da humanidade. E recordam-nos que a Humanidade, a Humanidade!, reclama de vez um só “estilo de vida” – para Todos.

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