Opinião

Do "caçador de marajás" aos soldados nas ruas do Brasil

Luis Alberto Ferreira

Os brasileiros contemporâneos chamavam “caçador de marajás” ao antigo presidente Fernando Collor de Melo. Todos pensavam, e ainda pensam, que Collor de Melo terá sido uma espécie de fundador da corrupção na política e na governação do Brasil.

Fernando Collor de Melo chegou à presidência do grande país em Março de 1990, mas foi derrubado por um “impeachment” aparatoso e que deu muitíssimo que falar. Collor e Temer não se encontraram no tempo, mas em comum eles têm o “espaço”, a realidade material do que as duas governações traduziram. Temer, tudo o indica, não conseguirá manter-se no poder pelo espaço de dois anos completos, aquilo que Collor conseguiu (de qualquer forma um magistério-relâmpago), ao ter governado no período de 1990-1992. Quando se fizer um balanço ético da passagem de ambos pela presidência do Brasil, ver-se-á que o “caçador de marajás” (Collor de Melo) saiu, é verdade, pela porta pequena, mas dando menos trabalho aos tribunais, ao Senado, ao Parlamento e à opinião pública.
De facto, em 1992, Collor facilitou as coisas, aquilo que Temer, 25 anos já passados, se recusa a fazer.(“Eu não me demito!”). Tal como Temer, que já afundou a barca da economia e golpeou a cultura, a escola, a saúde e a segurança social, Collor gerou o pânico e a desesperança ao aprofundar, em 1992, a recessão económica. Perderam-se, então, no Brasil, 920 mil postos de trabalho. A inflação chegou a cifrar-se em 1.200 por cento. E foram chocantes as denúncias de corrupção política envolvendo Paulo César Farias, o célebre “tesoureiro” do presidente Collor. Isto presta-se a diferentes exercícios apreciativos. Em cenários ou terrenos também diferentes: política, corrupção e Forças Armadas. Michel Temer chamou o Exército para as ruas e nesse preciso instante, por comparação, o “caçador de marajás” (Collor de Melo) ascendeu à categoria de “menino de biberão”. Em 1940, quando o Brasil “respirava” a plenos pulmões o “fenómeno” Getúlio Vargas, o escritor e político brasileiro Azevedo Amaral lançou esta canónica e central advertência: “A essência do regime envolve o conceito de militarização do Estado... E o Exército... coexiste com a própria estrutura do Estado, de que constitui o elemento dinâmico de afirmação e defesa”. Muitos anos decorridos, isto é, em 2016, descubro, com um misto de admiração e surpresa, a autêntica cordilheira cognitiva que é a obra do historiador brasileiro José Murilo de Carvalho. Sendo o prof. Murilo doutor em ciências políticas, não lhe assentaria mal o grau de marechal de artilharia crítica. A ele se devem longas acções de análise das muitas transformações vividas, até tempos muito recentes, pelas Forças Armadas do Brasil. Com a figura de Getúlio Vargas quase sempre no centro ou proximidades.
Michel Temer, ao convocar a tropa para o meio das ruas, de Brasília em particular, apenas confirma o que todos conhecemos desde a farsa da demolição de Dilma Roussef: é um homem de “temer” e o arpão que ele empunha traduz-se num ruidososuperlativo de irresponsabilidade. Ele é, de certeza, alguém que ignora ou despreza completa e perigosamente a história dos conflitos internos que foram sendo a argamassa das sucessivas “estabilizações” do Exército brasileiro. Se a história das ditaduras militares ou civil-militares no Brasil passam ao lado das interpretações “democráticas” de Temer, é de todo incompreensível que tal homem tivesse podido chegar ao comando dos destinos do maior país da América do Sul. O tecido psicológico que enforma o Exército brasileiro não é tarefa para amadores, muito menos para agentes do mercantilismo neoliberal corrupto e insensível às diferenças entre vozes representativas. Num país de desigualdades tonitruantes como é o Brasil e são, também, a Colômbia (que escraviza os afrodescendentes) e a Argentina (que consente horríveis aglomerados de bairros-de-lata em periferias como a de Buenos Aires e outros centros urbanos). Getúlio Vargas, na esfera civil da administração central do Brasil, é e será sempre a referência-chave, absoluta, quando se procede à avaliação dos melindres inspirados por requerimentos “de emergência” junto do Exército. Basta dizer que, tendo Getúlio governado o Brasil entre Novembro de 1930 e Outubro de 1945, ele testemunhou, “ao vivo”, as metamorfoses operadas no interior das Forças Armadas ao inaugurar-se a Segunda República (1930). O Exército, sobretudo o Exército, sentiu-se no eixo do poder como não se havia sentido na abertura da Primeira República. As “facilidades” encontradas haviam resultado do desacordo conflituoso entre os Estados brasileiros mais poderosos, um dos quais São Paulo, que, ao sair derrotado da contenda nacional, ocasionou duas erupções: a invasão, pelos militares, da burocracia da República, e uma forte e grave colisão entre correntes antagónicas no seio do próprio Exército. O Brasil assumiu, então, em 1930, o cariz “revolucionário” do movimento saído de tais convulsões, com Minas Gerais e o Rio Grande do Sul como pontos fulcrais dessa “nova era”. Sentimento, ou convicção, que não impediu as vagas de um caos progressivo, com o Brasil varrido de lésa lés pelo “receio do militarismo”.
São fantasmas de outros tempos, mas o Brasil, o Brasil contemporâneo, não esquece o que foram no país os anos vividos em regime de ditadura militar.
Michel Temer, é evidente, não resiste à comparação com Collor de Melo. A comparação justifica-se. Talvez seja mesmo de atribuir a Collor, não obstante o enorme descrédito em que ele mergulhou e merece, um certo “sentido de Estado”: sabendo do processo de impugnação, ou “impeachment”, que contra ele fluía nos bastidores, renunciou. (Alguém, no Brasil, sentenciou a propósito: “A humanidade é má por inclinação e corrupta por oportunidade”. Protestos, aceitam-se – quase todos nos julgamos imunes e sãos, de mente e espírito, como goiabas frescas no quintal). O “caçador de marajás” (Collor de Melo), tem andado no activo – como político. Que conste, não figura na lista do Lava Jato. Temer e muitos dos seus “amigos” do PMDB, do PSDB e do DEM, figuram ou talvez figurem. O cauteloso “talvez” é já muitíssimo mau para quem se lembrou de chamar, para o meio das ruas, os... soldados!

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