Opinião

"Dom Casmurro" ou a metáfora completa para o Brasil

Luís Alberto Ferreira

Os significados morais do “Dom Casmurro” estão de volta. Título marcante na história da literatura do Brasil, “Dom Casmurro” é revisitado quando a nação sul-americana vive um dos momentos menos faustosos e mais desconcertantes da sua história política, económica e social.

Machado de Assis, o glorioso autor desse livro nascido de uma sincopada publicação de folhetins, retoma o centro do debate em sectores intelectuais que associam o “Dom Casmurro” à corrente influencial de um período decisivo da História, a segunda metade do século XIX.
Conquistada a independência nacional, só em 1888 ocorrem no Brasil as primeiras mudanças dignas de inscrição na história das Américas e do mundo: a abolição da escravatura, a proclamação da República, a entrada de imigrantes no país. E a revitalização da vida cultural: escritores e pensadores brasileiros assimilando as significações da ciência, das ideias liberais, do socialismo, das teorias cientificistas. Hoje, os brasileiros revisitam o “Dom Casmurro” em busca de mais um serviço simbólico de utilidade portátil: perceber no país o mundo da política, da justiça, do empresariado, da comunicação social e respectivos protagonistas e beneficiários.
“Dom Casmurro” constitui a narrativa, na primeira pessoa, de um homem idoso e solitário empenhado em “atar as duas pontas da vida” - a infância e a velhice. É a metáfora completa para o Brasil. Ou o curiosar atónito do Brasil plural. O Brasil do Tiradentes, o Brasil dos cangaceiros, de Lampião e Maria Bonita, o Brasil que institucionalizou na sua imensa largura humana as cumplicidades de Graciliano e Garrincha ou de Jorge Amado e Leónidas ou Chico Alves. Durante anos, “Dom Casmurro”, a obra-prima de Machado de Assis, propiciou interpretações sociológicas, e outras, talvez as mais significativas, associadas à psicologia, até mesmo à psicanálise. “Atar as duas pontas da vida”: Getúlio Vargas, no limite de uma conjuntura política à mercê da especulação, suicidou-se; Michel Temer, em pleno “apogeu” dos sólidos indícios de montagem de um sistema para arrecadar subornos de grandes empresários, alardeia uma comediante resiliência - conluiado com a mesmíssima câmara de deputados que em 2016 fabricou o “impeachment” condenatório da presidenta Dilma Rousseff.
São caminhos tortuosos, ante os quais a própria Constituição brasileira de 1988 quase desaparece para dar lugar a um novo protagonismo rocambolesco: o dos juízes. Ecos de “Dom Casmurro” ressoam nos alardes de Sérgio Moro - alegado “escravo da lei”, com canudo de Harvard, o juiz que pegou no baralho do “caso Petrobrás”- ou no taticismo de Rodrigo Janot, o fiscal-geral. Dois craques do novo mediatismo, rivalizando em “popularidade” com o futebolista Neymar ou com Jair Messias Bolsonaro, militar na reserva, fascista, racista, machista virulento, que aterrou na câmara de deputados por artes mágicas, as do Partido “Progressista”. Jair Messias Bolsonaro, “transferido”, entretanto, para o Partido Social Cristão, sustenta que Augusto Pinochet, o ditador genocida chileno, “podia e devia mesmo ter matado mais gente”. Que a ditadura militar, no Brasil, “em vez de torturar deveria ter liquidado” a totalidade dos resistentes. O facto de este homem odiar os afro-brasileiros e na condição espúria de “político da nação” ter sido “suplente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados”, muito nos diz da falência profética de quantos acreditaram na pedrada no charco que foram “Dom Casmurro” e as “mudanças” de 1888.
Um século depois, nascia nova Constituição brasileira. A de 1988, olhada de soslaio por uma confraria político-partidária sem sextante ético para cálculos de grande precisão. Eis que a era de Getúlio Vargas emerge, “inconveniente”, das colateralidades temporais do “Dom Casmurro”. Ressurge o efeito-carambola da irresignação da História. Foi o presidente Getúlio Vargas quem, no dealbar dos anos de 1950, criou a… Petrobrás, com vibrante apoio popular (“O petróleo é nosso”). Criou a Petrobrás e fez mais: Getúlio decretou em 1954 o aumento em 100% do salário mínimo nacional. (A Petrobrás indignou os empreendedores privados). Ao mesmo tempo, os ecos de vários anos anteriores de ditadura personalista estigmatizavam, ainda, Getúlio Vargas. Fértil campina para as “oposições”. O jornalista Carlos Lacerda, agrandado por empresários, por militares golpistas e uma bancada parlamentar hostil ao palácio do Catete, viria a ser alvo de um “atentado”. Episódio atribuído à iniciativa presidencial. Lacerda sofreu alguns ferimentos, mas continuou vociferante nos ataques à governação de Getúlio Vargas. A esta onda somou-se Café Filho, vice-presidente de Getúlio. (Como Michel Temer na viragem serpenteia contra Dilma Rousseff…).
A impopularidade de Getúlio Vargas tornou-se, então, asfixiante. Na madrugada de 24 de Agosto desse mesmo 1954, o Presidente, no seu quarto, no palácio do Catete, virou contra si um revólver e pôs fim aos seus dias. O povo brasileiro, sentimentalão mas não alheio a evidências que mordem a sua pele, virou-se contra quem havia catapultado Getúlio para o abismo. Lacerda, sua língua de sete palmos, sua mala, escapuliram-se para o estrangeiro. E os políticos opositores aguardaram uma década inteira antes do novo “statu quo”! O Brasil evoluiu e retrocedeu. A fruição do teatro, da literatura, das artes plásticas: privilégio só de uma elite reduzida. Em média, cada brasileiro lê menos de um livro não didáctico por ano. Os partidos políticos proliferaram: PSDB, PMDB, PFL, PT, PSC, PPB, PP, PSB, PPS, PDT, PL, com as deserções feitas coisa banal no sistema: parlamentares e governadores estatais que passaram, já, por cinco partidos. Temer, indiferente, singra a todo o pano. O Sistema Único de Saúde (SUS), bateu no fundo. O protagonismo social das mulheres voltou à estaca zero. O palpitante rendeu-se ao inerte.
“Dom Casmurro” remete-nos agora para um dos pensamentos-chave de Getúlio Vargas: “Desconfio de quem nunca me pediu nada. Geralmente, aqueles que se sentam à mesa sem apetite são os que mais comem”. Café Filho, o vice-presidente traidor, coleante, trânsfuga, “nunca pediu nada” a Getúlio Vargas, leitor de Machado de Assis.

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