Opinião

Gamal Nasser e Boutros-Ghali unidos na epopeia da Síria

Luis Alberto Ferreira

A imprensa europeia destacava, na primeira quinzena de Julho, a “irritação” de curdos e sunitas causada pela “presença”, em torno de Mosul, no Iraque, de milícias chiitas “apoiadas pelo Irão”.

Uma repórter a trabalhar, deduzo, em Mosul, daria mesmo por adquirida a presença, no terreno, do “líder máximo do Irão, o ayatola Ali Jamenei”, surpreendido “a sorrir” no posto de controlo entre Tawajna e Omar Khan. Episódio que, segundo a mesma repórter, significava para a população iraquiana (“sunita até à medula”) uma grave humilhação. Com os tresloucados do ISIS (Estado Islâmico) em fuga depois da derrota em Mosul, “caberia”, pois, à imprensa europeia, a moldagem de novos cenários, sempre relanceando ou subestimando a intencionalidade dos bombardeamentos da França e dos Estados Unidos na região, na Síria em particular.
A subestimação calculada das brechas mais desastrosas nas vertentes humanas e culturais do Iraque e da Síria vem sendo, desde a Guerra do Golfo, uma constante pouco considerada, por muito “estrutural”, da desinformação ocidental. À sombra deste fenómeno descansa, impune, a maior parte dos torturadores e, também, dos beneficiários da pilhagem e esventramento dos patrimónios artísticos e monumentais de Babilónia, Mosul e Palmira. Se, por um lado, a acção dúplice norte-americana no caso do terrorismo islâmico explicita aritméticas “interesseiras”, favoráveis a Israel e à Arábia Saudita, por outro as intervenções bélicas na Síria levadas a cabo, também, pela França, relegam-nos para outros momentos da História. (A UE lamentou, em Março, a “falta de coordenação na luta antiterrorista”...).
Há um saudosismo fanático das potências que, tendo colonizado regiões e países não ocidentais, decidem hoje as suas políticas em consonância com os seus ideológicos humores figadais. A França colonizou a Síria e foi “humilhada” pelo Reino Unido quando, mediante um célebre ultimato britânico, bateu em retirada. Aconteceu em 1946, ano em que a Síria se tornou independente. Como aconteceu no México, na Venezuela, no Chile, na Argentina, na Colômbia, depois da independência nacional a Síria continuou dominada pelas mesmas elites. As mentalidades, regra geral, permanecem imutáveis, como pedregulhos conceptuais pré-históricos. Denunciá-lo-iam, ainda no século XX, dois homens cujas vidas ou cujas carreiras políticas materializaram dois vértices de atracção irresistíveis para os panegiristas da libertação: os egípcios Gamal Abdel Nasser e Boutros-Boutros Ghali.
O maior cometimento de Nasser: a República Árabe Unida, que irmanou o Egipto, a Síria e o Yemen na ambiciosa União Árabe Socialista. Sem menoscabo da arrojada nacionalização do Canal de Suez, toda uma história esdrúxula. Boutros-Boutros Ghali, compatriota de Nasser, terá sido talvez o mais apelativo, o mais culto e um dos mais proponentes secretários-gerais da ONU. Ele instruiu a cidadania na “arte” de melhor percepcionar as enormes contradições do Mundo Ocidental. Foi contra um segundo mandato de Boutros-Ghali nas Nações Unidas que se urdiu, nos bastidores de Washington, a serpentil “Operação Expresso do Oriente”. Manobra de “falcões” nos recessos do Salão Oval, com o presidente Bill Clinton pressionado e simulando hesitações tácticas. Boutros-Ghali, nos anos de 1970 membro do Comité Central da União Árabe Socialista, havia chegado à sede da ONU em 1992 sobraçando um registo curricular de excelência. Ministro das Relações Exteriores nos governos de Anwar El-Sadat, o diligente Boutros-Ghali resultou decisivo na consecução dos acordos de paz israelo-egípcios impulsionados em 1978 por Sadat e Menachem Begin – os chamados “Acordos de Camp David”, celebrados em Setembro daquele ano sob o testemunho do então presidente norte-americano Jimmy Carter. Enquanto secretário-geral da ONU, Boutros-Ghali “enfrentou”, desamparado, o genocídio no Ruanda e a desintegração da antiga Jugoslávia. A sua relutância, melhor dizendo recusa, em apoiar os bombardeamentos da OTAN contra os sérvios, na Bósnia, valeu-lhe o cerco demolidor – a “Operação Expresso do Oriente” – conjura bem explicada por Richard Holbrook, antigo embaixador dos Estados Unidos junto da ONU.
A Síria revigora o seu presente na leitura da convergência egípcia Nasser-Boutros-Ghali, que, ao revés do integrismo religioso, postulou o pan-arabismo e formas socialistas de organização do Estado. “Mantenham as tendas separadas e tragam os vossos corações unidos”, provérbio árabe inspirador da síntese programática que alicerçou a malograda União Árabe Socialista (UAS). Gamal Abdel Nasser lutou pelos seus ideais até à exaustão. Impressionante, a imagem da face magoada e envelhecida de Nasser numa capa da revista “Time” (1969). Quando faleceu, o presidente revolucionário do Egipto e do Mundo Árabe contava apenas 52 anos.
A Síria de hoje, a de Bashar al-Assad, atenazada por um terrorismo de origem tão “secreta” quanto a da “cedência” à França da antiga colónia, pela Inglaterra, revê-se ainda num dos grandes lampejos internos do nasserismo, o Partido Árabe Socialista Baath. Esta opção socialista aniquila a “estranheza” de quantos observam a intervenção da Rússia no seu denodo pela pacificação e normalização da Síria. O Baath, que em árabe significa Ressurreição, é fruto de um longo deslaçamento de classes, com o partido, em vários decénios, a motivar o mundo rural, operários e intelectuais da classe média para um projecto nacional intimorato nas convicções do laicismo. E os cabelos brancos dos actuais 62 anos de Bashar al-Assad lembram os de Gamal Nasser quando, em 1958, repelido por Washington e pelo Banco Mundial, recorreu ao financiamento da URSS (Nikita Kruschev) para construir no Egipto a decisiva barragem de Assuam.
Como num axioma superlativo endereçado aos vindouros: Nasser, relevante para a institucionalização dos Não-Alinhados, ao recusar o Pacto de Bagdad entorpeceu a tentativa britânica de implantação de uma frente anticomunista no Médio Oriente que aglutinaria, ainda, a Turquia, o Iraque, o Irão e o Paquistão. “Mantenham as tendas separadas e tragam os vossos corações unidos” – Nasser e Boutros-Ghali unidos na nova epopeia da Síria.

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