Opinião

Joseph Goebbels e os incêndios ibéricos da manipulação

Luis Alberto Ferreira

Nem de propósito, nem por encomenda: depois de Portugal, também a Espanha engole o caldo ardente da vaga de incêndios. Os altos fornos dos laboratórios da manipulação trabalham, dos dois lados da Península Ibérica, em acelerado e sôfrego regime de “full-time”.

O espectáculo ganha relevos inusitados, a menos que tenhamos como normal a restauração descarada dos métodos de Joseph Goebbels, um dos mais devotos serviçais da propaganda hitleriana. Está em curso uma guerra suja de proporções que só não são alarmantes porque se conhecem, deveras, as tripas e o coração dos actores da primeira fila. Lá anda a mesma televisão, inefável praça de todas as propagandas, a dar voz ao ferrabrás que garante que o governo de turno é um bando de pirómanos doutorados na Universidade do Fogo.
Os incêndios, em Portugal, são tão normais que muita gente acha que um governo sem a sua épocazinha de fogos postos ou naturais não é governo “de credibilidade”. Estranha-se, mas só um pouco, que um ex-governante beneficiário das propagandas da dita televisão e portador de uma “boa” carteira de incêndios e mortes de bombeiros, venha agora para a ribalta bradar aos céus e entrar, por conta própria, em campanha eleitoral. Ao abrigo desta lógica de guerra suja da mentira e da manipulação inventou, o ex-governante, apoiado na TV, quedas de aviões inexistentes e suicídios de pronto desmentidos por autoridades locais. (João Marques, um “sistémico” de “camisola” ideológica igual à do ex-governante, e ex-autarca de Pedrógão Grande, caiu para o lado quando teve de sair à praça pública para dar o dito pelo não dito e claudicar perante a “inventona” dos suicídios. Desgraças que o mesmo ex-governante tentou, a todo o custo, vender ao país. Tal como outra mentira grotesca: a da falta de apoio público às pessoas. Logo desmentida pelo actual presidente da câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, por oficiais da Marinha, por médicos e por várias unidades, como o INEM, de saúde pública, todos a actuar no terreno).
Diz o “homem de Estado” que, quando ele governou, o país era o melhor dos mundos. Pois era. A terceira idade foi, em público, crismada de “peste grisalha”, gente “a mais” e “imprestável” que, ao receber pensões de jubilação – para as quais contribuiu, todos os meses, ao longo de anos e anos – estaria a fazer tropeçar os jovens nas calçadas da “modernidade”. Entrementes, aos mesmos jovens reclamou, clamorosamente, a mesma “personalidade”, que fossem apanhar vento ou que, com dinheiro ou sem dinheiro para tal, procurassem melhor sorte no estrangeiro. As filas da “sopa dos pobres” engrossaram até ganhar traços de “originalidade” para turista fotografar. E, no hospital de São José, em Lisboa –  fui observador presencial do fenómeno – os corredores na “urgência” ganharam, a certa altura, contornos de corredores da morte. Médicos e enfermeiros debandaram, também, para a estranja. Escolas confessaram-se incapazes de oferecer o leitinho às criancinhas antes da primeira aula matinal. Cresceu como nunca o número dos sem-abrigo. Efectuaram-se cortes abusivos – autêntica roubalheira – em pensões e respectivos subsídios sazonais. Aumentou a corrupção e o nepotismo. A bajulação e o servilismo diante dos “grandes” da Europa fez corar os portugueses com um pouco ou um mínimo de vergonha na cara. Os tais que viveram “acima das suas possibilidades”... Josep Goebbels, que pouco teve a ver com o colonial-fascismo do casario lusófono, espantar-se-ia com o golpe demagógico “inovador” da mesma personalidade ao exibir em público um familiar diminuído por doença oncológica. Algo muitíssimo pertinente a formular: Joseph Goebbels faria “melhor”? Quero admitir que sim. Apesar de tudo. Goebbels tinha cá uma preparação...das impossíveis de amassar e refinar num cantinho domesticado por anos de miserabilismo.
Ao tratar-se aqui de laboratórios, sem freio, da guerra suja da propaganda e da manipulação, exigível será conferir o seu a seu dono. A “pedalada” de Joseph Goebbels tonificou-se nas suas “vivências” hitlerianas de ministro para a Ilustração Pública e Propaganda do III Reich (1933-1945). Goebbels espingardeava as multidões com uma oratória mentirosa e torpe que enrubescia uma crescente e cruel discriminação racial –  rumo ao Holocausto. Na Universidade de Heidelberg, ele doutorou-se em “investigação” (quando a “investigação” falha não há suicídios nem aviões esbarrondados), mas sonhava ser escritor, “fraqueza” que Goebbels confessou várias vezes no seu diário pessoal.
A imprensa diária de Madrid, Espanha, com correspondentes em Portugal, associou-se ao “festim” da manipulação e da guerra suja usando um dos “fardamentos” tácticos da Falange franquista: o escriba-fantasma. Um tal Sebastião Pereira, completamente desconhecido em Portugal (enquanto jornalista), mantém-se incógnito depois de ter publicado num diário madrileno calamitosas versões dos fogos lusitanos – todas em consonância jeitosa com o discurso do ex-governante lusitano. Como “Deus é Grande”, não tardou que a Espanha se encontrasse também a braços com incêndios florestais danados e devastadores – em terrenos do célebre e rico Espaço Natural de Doñana, património da humanidade, segundo a Unesco. Durante horas, 50 mil pessoas estiveram isoladas. A certa altura, os ventos, com rajadas de cerca de 90 kms, tornaram o sinistro “ingovernável”. Mais de 20 mil veraneantes em pânico foram desalojados de “campings”, hotéis e residenciais da zona. Ali, por agora, não se fala da “falta de meios”, mas ela existe, tal como em Portugal.
Não há governos que superem o que aconteceu em Portugal nos incêndios de Pedrógão Grande: as comunicações, de tanto telefonema de familiares espalhados pelo mundo, congelaram. Perante a “falta de meios”, cabe aos operacionais dá-la a conhecer – em vez de dormirem a sesta do deixa-andar quotidiano próprio de quem só pensa no vencimento e em greves. Que, além-túmulo, nos escute o senhor Joseph Goebbels: o seu “exemplo”, o seu horrível “exemplo”, o da oratória ocultadora de intenções, não serviu, não serve, nunca servirá. O que serve é a prevenção, o rigor, a atenção, o tacto, as informações, a solidariedade.

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