Macron arrebata a França com a "vassoura" da mudança

Luis Alberto Ferreira |
19 de Maio, 2017

Henry Kissinger, que conduziu o presidente norte-americano Richard Nixon até ao ressonante desastre do Watergate, tinha ideias estranhas sobre a realidade. Em seu entender, haveria duas realidades. A melhor das quais, a segunda: a realidade que cada qual constrói.

De facto, Kissinger construiu realidades catastróficas, não para os Estados Unidos mas para o Vietname, o Chile, a Argentina e outros países. As condições da França de Emmanuel Macron dão que pensar – porque se está perante uma realidade nova. A partir da condição do novo presidente, é possível construir, para as expectativas francesas e internacionais, um número infindável de cenários. O dínamo da nova realidade francesa tem uma relação directa com o personalismo – e o “centrismo”– de Emmanuel Macron. E essa realidade, de início feita de incógnitas, começa a traduzir-se no sobressalto originado por mudanças tonitruantes no coração da política vigente em França. Segundo Emmanuel Macron, a França não encontraria respostas para os desafios do século XXI “com os mesmos homens e as mesmas ideias”. A assertiva, interessante, foi proferida em Novembro do ano passado, estava-se no lançamento da sua candidatura presidencial. Dá-se a circunstância de Macron ter sido ministro da Economia seguindo, não tenhamos dúvidas, as “ideias” ou directrizes do seu presidente, François Hollande. Um dos “mesmos homens”. Oriundo de cargo destacado no banco Rothschild – ao sair havia ganho 2,4 milhões de euros – o presidente Macron não sugeria o perfil de quem, eventual portador de “novas ideias”, pudesse projectar-se como sinónimo de uma mudança radical no sistema político francês instalado. Ou como alguém dedicado àqueles que seriam as principais vítimas do “radicalismo” da senhora Le Pen. Acerca da qual cometeu Macron uma grave imprudência: ao ter-lhe atribuído vínculos fascistas com a Segunda Guerra Mundial. (Marine Le Pen nasceu em 1968). Se Macron “viu dentro do poder” – palavras suas – “a vacuidade do nosso sistema político”, ele teria de desembaraçar-se, sem hesitações, da colagem ostensiva e pouco digna de Manuel Valls, ex-primeiro-ministro “socialista” de Hollande e um dos “mesmos homens” sem tirar nem pôr. Valls é o autor de um dos comentários mais lamentáveis acerca do terrorismo. Não sendo muito claros os contornos e objectivos da França nos alegados bombardeamentos de posições do ISIS, ou Estado Islâmico, disse ele em Novembro de 2016: “Esta é uma guerra. Uma guerra em toda a acepção do termo. A França não bombardeou nunca Bachar el Assad, presidente sírio. Tem uma posição privilegiada para falar com todos porque não está na região por razões económicas”. Há nisto uma boa dose de cinismo e inverdade. Os parceiros europeus, Roma e Berlim em particular, não gostaram. “Falar com todos” soa a sarcasmo infeliz: porque o mesmo ex-primeiro-ministro de Hollande logo diria que, na Síria, “a solução política não passa por El Assad”. Mas o que mais importa é o fulminante reposicionamento do presidente francês. Emmanuel Macron rodeou com subtileza quase piedosa a pretensão de Valls, interessado em figurar nas listas do partido rompedor do “sistema”, o República em Marcha, quando se realizarem as eleições legislativas marcadas para 11 e 18 de Junho: o RM não apresentará candidatos na circunscrição de Manue Valls. E logo tratou, o presidente, de lançar a revoluçãopolítica e parlamentar que modificará por completo a Assembleia Nacional: recorrendo ao argumento bandeirante da mudança, ele recrutou quatro centenas de candidatos ao Parlamento vindos do interior da sociedade civil. A avassaladora maioria, pessoas que jamais conheceram tal vivência: 214 mulheres e 214 varões. Dos 428 candidatos, apenas 24 são hoje deputados. (A Assembleia francesa contempla 577 lugares). A França vai, pois, conhecer novas pessoas com “jeito para a política”.
O estremeção regimental fez soar muitos alertas. Entre os futuros novos candidatos a média de idades é de 46 anos, contrastante com a média dos 60 para cima na assembleia que em breve se despede. Macron, evidência, deseja uma maioria parlamentar que lhe permita aplicar em França o “programa” que tem na cabeça: o mundo laboral, a educação e a probidade da vida pública. O estremeção terá outras consequências na esfera dos cargos sistémicos. Centenas de políticos ancorados na “normalidade” durante décadas, serão jubilados. Três deles a “exercer” desde 1978! E acabarão as mais exorbitantes formas de despesismo à custa do Estado. Situações como esta: vencimentos de 7.000 euros, mais 5.700 euros para “alojamento” e refeições, e outros 9.500 euros para o deputado distribuir por assistentes ou auxiliares. Estes últimos, em geral, filhos, sobrinhos ou primos seus. Também para expurgar: os 150 milhões de euros anuais saídos do orçamento parlamentar francês para os deputados distribuírem na geografia que os elege– em suma, “compra de votos”. Com minúcia, e muito ciente dos seus dotes de sedutor determinado, espera o jovem presidente Macron atrair, para o seu projecto, muitos “reciclados”. Gente do estateladoPartido Socialista e direitistas de outra gema, os que agora se aglutinam, confusos e alvoroçados, no Partido dos Republicanos. Com a sua Lei de Moralização da Vida Pública, Macron mostra querer fazer da vida nacional a prioridade central. Mercê deste rasgo, ante a opinião pública em França ele torna-se irresistível. É um “problema” ou um “assunto” dos franceses. Falta conhecer o que mais interessa a africanos, latino-americanos e asiáticos: a política exterior de Macron. Na União Europeia, os passos do novo presidente terão de ser compatíveis com a tal realidade acutilante: olhando para as recentes cifras da actividade económica, vemos um crescimento de 0,5 por cento. E o desemprego deriva em 10,2 por cento da população activa sem trabalho. Nada que isente outras contas europeias. Mas não é bom para a tranquilidade de quem terá de saber posicionar a França cá fora – em função, vamos lá, dos seus valores históricos. África, Américas e Ásia esperam que Macron faça valer, no exterior, uma verdadeira e firme “política da França”. A mudança teria mais ecos.

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