Opinião

Macron e Maduro entre assombrações do voto popular

Luis Alberto Ferreira |

Não vai faltar quem se escandalize. Por exemplo, os magnatas do palavreado em torno da democracia, da globalização, do livre mercado, até dos direitos humanos.

Quanto à globalização, ora porque sim, ora porque não. O “sim” liberaliza as mil astúcias e a pilhagem dos recursos de quem os tem mas não brilha pelas “tecnologias”, ou pela rendição serviçal. Tudo menos tratamento igualitário. Vejam só a Itália rouquejante de tanto gritar pela ajuda dos vizinhos europeus no acolhimento de imigrantes e mais imigrantes. Só agora se sabe (!) que morre muito mais gente no deserto, a partir do Níger, do que no Mediterrâneo. Redes de traficantes esvaziam os bolsos dos desafortunados e deixam-nos morrer, às centenas e centenas, nas areias de fogo que vão dar à Líbia. Da Líbia partem os barquinhos de papel em demanda do Mediterrâneo, mas os mortos do mar haviam deixado marcas invisíveis dos muitos mortos caídos “em combate” no deserto. Não interessa discutir isto, condenar ou remediar isto?
Então, escandalize-se quem quiser: o presidente francês Emmanuel Macron, a exemplo do tão satanizado Maduro, da Venezuela, deu mais um passo na direcção que muitos considerarão certa: assumindo-se como aquilo que ele de facto é, presidente eleito, decidiu reorientar as políticas e os destinos do país. Fê-lo no palácio de Versalhes, para onde convocou o Parlamento e o Senado. Confirma-se: a Assembleia deixará de ser um machimbombo a transbordar de passageiros: em vez de 577, como até agora, passarão a ter assento 385, só. Também o Senado encolhe: 232 em vez dos até agora 348.O presidente da França falou ao Congresso escorado no artigo 18 da Constituição, que Nicolas Sarkozy havia reformado há nove anos. Sem essa modificação constitucional Emmanuel Macron não teria podido dirigir-se assim, directamente, aos deputados. De momento, são águas mais ou menos serenas. Se a corrente fizer ondas, Macron – promessa do próprio – lançará mão de um recurso que a “malta” aprecia: referendos.
Maduro, também chamado Nicolas, como Sarkozi, decidiu recorrer, na Venezuela, ao melhor dos meios para responder à onda reaccionária e criminosa encorajada por forças do exterior: no dia 30 de Julho, o povo da Venezuela, o genuíno, descendente dos bravos da batalha de Carabobo(24 de Junho de 1821),acudirá ao escrutínio para a eleição da Assembleia Constituinte forjada numa representação maciça da sociedade civil. Eu penso em Macron ao ver Nicolas Maduro “inventar” um mecanismo de resposta à sabotagem praticada pela Assembleia Nacional, onde reluz a crista dos saudosistas do franquismo e do “jimenizmo” (o ditador fascista Pérez Jiménez, fugido da Venezuela, foi acolhido, volto a lembrar, pelo “caudillo” Franco, e acabou mesmo por morrer em Espanha). Que Washington queira hoje “o apoio da União Europeia para endurecer medidas contra a Venezuela” é bem demonstrativo de algo relevante: o que tem sido, desde que fundada em 30 de Abril de 1948, a Organização dos Estados Americanos (OEA). A data coincidia com o agigantar dos militares fascistas que puseram o Brasil a ferro e a pão-e-água. Onze anos depois, com muitíssima razão, o Che rotulava a OEA de “ministério das colónias” do Tio Sam. No entanto, a OEA nascia num berço cor-de-rosa de mil e um juramentos: “diálogo multilateral, integração continental, fortalecimento da paz e da segurança”. Hoje, na América Latina, assistimos à mais espantosa violação dos direitos humanos dos camponeses e das comunidades negra e ameríndia. O México, com 32 mil desaparecidos, feminicídios atrozes e dezenas de jornalistas assassinados, e a Colômbia, onde os acordos de paz com a guerrilha são objecto da zombaria de “esquadrões da morte” ligados ao poder, não fazem esquecer o Perú. Neste país andino – dos antigos incas – são moeda corrente o trabalho escravo de operários e o sequestro bárbaro de outros trabalhadores, impedidos, estes últimos, de quaisquer contactos com a família ou amigos: laboram em catacumbas sob a forma de contentores com ferrolho. Este é o Perú do “democrata” PPK (Pedro Pablo Kuczynski). Apelido que, para peruano, “não fica nada mal”, dando embora que pensar.
Uma verdade irrefragável: grupos mediáticos como Clarín (Argentina), Globo (Brasil) e Prisa (Espanha), associados ao pior da comunicação social norte-americana, praticam acções combinadas de falsificação diária do que se passa de facto na Venezuela. Em desespero de causa, o “El País” (grupo Prisa, espanhol, ávido de negócios na região), titulava assim o ataque recente, com granadas, de um helicóptero ao edifício-sede do Supremo Tribunal da Venezuela em Caracas: “Maduro ameaça com recorrer ao uso da força”. Já as Nações Unidas haviam condenado tal acção terrorista da direita venezuelana. Nestas operações de desgaste da Venezuela tomam parte –  pasme-se! –   países em estado caótico, como o México, a Colômbia e o Perú. Países frustrados com o que se passou na Comissão dos Direitos Humanos da ONU e na Assembleia-Geral da OEA efectuada em Cancún, no Estado mexicano de Quintana Roo: em ambas as instâncias fracassaram por completo as insólitas “resoluções” contra a Venezuela.
A ofensiva contra a Venezuela é uma ameaça, também, aos países em construção nos outros continentes, aos quais se pede unidade nacional, firmeza e respeito político e jurídico pelas instituições do Estado. Nas últimas semanas, a desfiguração manipulada dos acontecimentos na Venezuela tem vindo a ser clamorosa. Grupos de bandidos mascarados atacam e incendeiam os centros de abastecimento populares. Assaltam escolas, unidades hospitalares, centros culturais. Saqueiam lojas. Usam explosivos e abrem fogo sobre transeuntes e polícias. Isto é, vão oferecendo ao “El País” e aos jornais dos países sul-americanos à deriva os nutrientes das suas campanhas de satanização e desestabilização da Venezuela. A quantos conhecemos o colonialismo, a sua verdadeira face, cabe a linear missão de identificar, sem rendilhados, a face draconiana das apetências que o petróleo e o alfobre mineiro da Venezuela suscitam.

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