Opinião

O 25 de Abril ungiu os

Luís Alberto Ferreira

Extraterritorial, no planeta, o momentoso caso do governo da Lusitânia. Porque congeminador ideológico de “coisas” que excedem o próprio ultrarrealismo.

Artífice da maior trapalhada de que há memória, na Europa, desde a queda tonitruante do Muro de Berlim. Dizer ultrarrealismo responde à admissão do produto acabado mais danoso da condição humana: um estamento despótico. Neste caso, despotismo que origina sucessivas resmas de mortos e de mortos-vivos com a indiferença de quem abre ou fecha uma porta. Despotismo exercido por gente medíocre e apenas devedora de favores ao ovo mágico que, devagar, depois de 25 de Abril de 1974, transformou fascistas e retornados habilidosos em “democratas” para a reciclagem do atraso que era congénito aos seus predecessores.
Há cerca de uns quinze dias, o diário “Público”, sede em Lisboa, deu à estampa um texto de análise da relação económico-financeira entre as antigas colónias e o “continente”. A “metrópole”, como reza a História, carbonizava a qualquer preço quaisquer “novidades” estruturais, verdadeiras ou espúrias, na ossatura do “Ultramar”. Por isso, em Angola, Norton de Matos, que não era nenhum bondoso missionário do igualitarismo, e Henrique de Carvalho, que estudou as culturas submetidas, foram ambos desfeiteados com ferocidade. O texto do “Público” advertia que “o atraso económico em Portugal não foi nem causa nem consequência do Império: é para dentro de Portugal que se deve olhar com mais cuidado”.
Conclusão canónica, mas de escassa contundência. “Mais cuidado” vem a ser um bocejo inofensivo, um suspiro afidalgado, quando olhamos para a catástrofe social que o hodierno primeiro-ministro português tem vindo a provocar no país. Com a jactância característica dos retornados enfastiantes, o “artista de Massamá” anuncia agora, com ominoso descaramento, um golpe de 600 milhões de euros nos dinheiros da segurança social. Um dos muitos golpes com que o autoproclamado “africanista” continua a armadilhar o “sistema”, empenhado em tornar impossível uma mínima administração do país pelos seus previsíveis sucessores.
“Olhar para dentro de Portugal”, recomendação dos investigadores, deve traduzir-se em acções de denúncia consentâneas com o fóssil tentacular que assola o país: prisão de Sócrates para o silenciarem na RTP, impostos indevidamente cobrados, “cortes” e trapaças numerológicas, legislação laboral e salários para escravos, emprego fulanizado para novos enxames de “boys”, milhares de crianças a passarem fome, listas de espera na “sopa dos pobres”, corredores da morte nos hospitais públicos e… queda para o último lugar, debaixo da Grécia, na dívida como nos índices da pobreza e da indigência. Afinal, debaixo da Grécia…
Os “pides”, os esbirros do antigamente que torturaram e assassinaram em Portugal, em Angola, na Guiné, em Moçambique, foram de facto os grandes “vencedores” no dia 25 de Abril de 1974. O 25 de Abril foi o tubo-de-escape da saturação das cúpulas militares que, no “Ultramar”, sofriam a valer no choque com os movimentos de libertação. Não houve, entre os militares e os “novos” políticos civis, nem pulsão nem consenso para uma genuína mudança em Portugal. No interior da cúpula do MFA tripudiou um número considerável de fascistas de toda a vida. Os fascistas rijos e os fascistas moles. António de Spínola, o “general do monóculo”, e Kaúlza de Arriaga, procediam do recurso ao “napalm” contra populações na Guiné e em Moçambique. Kaúlza, fero nazi-fascista, de talha eugenésica assustadora, dispôs de espaço e liberdade, em Lisboa, para explanar, até, a sua teoria supremacial da raça branca. A 26 de Abril de 1974 já os pasquins de extrema-direita floresciam. Seu linguajar contemplava o insulto e a calúnia. E já a direita refundida acolhia nas suas filas partidárias rebanhos de delatores, bandos de pés-descalços vindos da montanha e da várzea, adaptáveis a tarefas como as de fotografar os patrões nas campanhas eleitorais, fazer recados ou comprar cigarros, fazer barulho nos comícios “democráticos” para a tomada de Belém ou São Bento. E tudo porque a 25 de Abril de 1974 quem ganhou foram de facto os “pides”. Eles em particular. Assim raiou a “democracia” à beira-Tejo.
Primeiro: no dia 25 de Abril de 1974, os “pides”, num cenário do que deveria ter sido mas não foi uma revolução, puderam fruir o “privilégio” (o exclusivo rancoroso) de matar, de assassinar. Em Lisboa, das janelas do seu bastião na pavorosa Rua António Maria Cardoso, os “pides” metralharam e assassinaram os atónitos manifestantes civis esquecidos… pelo MFA. Ao mesmo tempo, montada em carros de combate e sem perceber patavina do que acontecia, a tropa vendia sorrisos no centro de Lisboa, em postura triunfal, atirando cravos com o ar idiota de quem dissesse “eu não tive culpa”. Segundo: já em Portugal choviam, cada 24 horas, cinco milhões de euros da UE (fartote que, sem “resultados”, duraria 25 anos!), quando Aníbal Cavaco Silva, primeiro-ministro, aborígene algarvio de Boliqueime, classificou de “serviços à nação” os crimes hediondos da PIDE/DGS. Conclusão: os “pides”, via decreto, foram contemplados com pensões de reforma. E, na mais escandalosa e miserável das impunidades, mandados para casa descansar.
Perguntam-me se o 25 de Abril foi “bom”. Se o 25 de Novembro também foi. É nisso que eu e muitos, pela primeira vez nas nossas vidas, estaremos de acordo: foi tudo “bom” para os “pides”, para os retornados espertalhões, para as “juventudes partidárias”, para os escritórios de advogados, para as elites bancárias de Cascais e da Lapa. Portugal começa hoje a ser também dos lugares inseguros do mundo. Por um lado, circulam armas para o “Estado Islâmico” e proliferam em Lisboa os asiáticos de mãos nos bolsos, vadiando e resmungando pelos cantos. Por outro lado, a segurança social vai ser anavalhada com a tal subtracção de 600 milhões de euros… Na escala humanitária de Ritcher, o epicentro anuncia no país um sismo social de proporções calamitosas.

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