Opinião

O alerta em infra-estruturas do presidente J. F. Kennedy

Luis Alberto Ferreira |

Sempre “actual”, Donald Trump é o relançamento, no seu país e no mundo, da observação retroactiva dos caminhos percorridos pelos Estados Unidos antes e depois da devastadora depressão de 1929.

Não obstante as políticas seguidas em tempos de Roosevelt, de Eisenhower, de Kennedy, de Johnson e, por último, de Nixon, o grande país do norte da América continuou e continua à mercê de importantes desequilíbrios estruturais. Será porque os regimes desses cinco presidentes e de outros se caracterizaram por terapêuticas estruturais de mera conjuntura. Ou porque, depois do exercício de cada um deles, o materialismo selvagem do combate à “ameaça comunista” justificou todas as práticas draconianas do capitalismo. A sociedade-guarnição, como lhe chama o sociólogo Vernon Dibble, muito deve aos vazios sucessivos legados pelas várias administrações. Juízo cujo suporte de credibilidade aponta para norte-americanos dedicados, desde há muito, ao estudo minucioso das crises vividas quase em permanência pelos Estados Unidos.
Impõe-se, pois, estabelecer uma certa ordem temporal e específica. Franklin Roosevelt (1945-1953), democrata, inovou com o seu “New Deal”, querendo propor à sociedade norte-americana um “novo contrato”. Em causa, com Roosevelt, uma questão de rara magnitude – a urgência de um enorme rasgo intervencionista para enfrentar os efeitos da grande depressão de 29: acudir aos milhões de pobres, à escassez, reformar os mercados financeiros, reerguer uma economia rastejante, responder ao desemprego brutal e às falências em cadeia. Roosevelt lançou programas agrícolas e afoitou-se no socorro ao mundo laboral. Inegável, o êxito do “New Deal”, as pessoas beneficiaram. Esta porfia só abrandou quando a economia dos Estados Unidos viu cair-lhe no regaço a paradoxal “vitamina” da Segunda Guerra Mundial. Dwight Eisenhower, que nessa tragédia dirigiu as operações do desembarque aliado no litoral da Normandia (França), veio a ser o 34º Presidente. Militar, preocupou-se mais com a política externa, com a ingerência em Taiwan, no Líbano, no antigo Vietname do Sul. Com as armas nucleares. Encorajou a criação da NASA. De modo contraditório, em 1961, em fim de mandato, o presidente Eisenhower alertou para os perigos do “enorme gasto militar do país”. E o certo, também, é que com ele os Estados Unidos, recessão de 1958 e 1959 à parte, até conheceram uma “considerável prosperidade económica”, rezam os cronistas da época. O vazio em infra-estruturas de longa duração manteve-se, contudo. John Kennedy (1961-1963), sucessor de Eisenhower, dispôs, como pode ver-se, de pouquíssimo tempo. O seu assassinato em 1963, dez anos após o casamento, ditou o malogro das suas mais fortes medidas infra-estruturais. Os respectivos projectos de lei seriam adoptados pelo seu vice-Presidente e sucessor, Lyndon Johnson. O homem do programa “Grande Sociedade”. Kennedy – além do muito que não cabe na temática desta avaliação – percebeu nos Estados Unidos o “cansaço” da sociedade civil perante as “anquilosadas administrações” posteriores ao “New Deal” de Roosevelt. O jovem J.F.Kennedy aplicou-se na concessão de créditos a longo prazo, estabilizou os preços nas exportações, fomentou programas de reforma agrária e estímulos ao investimento privado. Diversificou o apoio técnico a políticas de intercâmbio de conhecimentos entre escolas. Assim, investia Kennedy no longo prazo infra-estrutural. Como depois Johnson, o 36º Presidente: suavizou os impostos, combateu a pobreza, incentivou os apoios ao domicílio. E, em Maio de 1964, discursando na universidade do Michigan, anunciou reformas em toda a classe de serviços urbanos – transportes “mais modernos”, medidas para o ambiente, reformas no sistema de saúde e na educação.  E, em matéria de armas, avançou em 1968 com uma das “mais abrangentes leis federais, na história norte-americana”, iniciativa já subscrita por John Kennedy.
O que resulta de todo incompreensível é a dissipação do “já feito”, em infra-estruturas, e a sub-reptícia evolução dos Estados Unidos para esse “modelo” desmontado por Vernon Dibble: o da sociedade como guarnição. Dibble é categórico: “Os militares penetram no ensino, na investigação científica, nas bolsas de estudo e nos sindicatos. Nas decisões de senadores e deputados”. Um “vício” que datava de muitos anos atrás e denunciado em 1914 pelo então presidente Wilson, que fez uma advertência por escrito ao Secretário da Guerra do seu Executivo. Outro analista norte-americano, Bert Cochran, avisava em 1968 que o Pentágono era “o quartel-general da maior corporação do mundo”. Sublinhava ele, Cochran: “A exuberante burocracia alojada nesta enorme fortaleza... controla um império que impõe uma respeitosa atenção aos chefes das nossas empresas mais importantes”. O “Relatório Cordiner de há uns anos”, prossegue o mesmo analista, “avaliava o património do Departamento da Defesa em 160 mil milhões de dólares. Em conjunto, esta riqueza compreende mais de 15 milhões de hectares em território nacional e outro milhão, ou milhão e meio de hectares, no estrangeiro (...)”.
A progressiva erosão infra-estrutural aparece reflectida no país que  Donald Trump tem de governar. Já em 1966 o sociólogo Seymour Melman advertia que a “América” precisava de habitações condignas, à escala nacional, para sete milhões de cidadãos. Isso requeria uma despesa anual de pelo menos 15 mil milhões de dólares por um período de cinco anos. Para o saneamento básico, oito mil milhões. Para a educação, 25 mil milhões. Para o abastecimento de água potável, quatro a cinco mil milhões. Para os transportes, 11,2 mil milhões. Recursos naturais, mil milhões também anuais. E 10 mil milhões anuais para modernizar as indústrias. Etc, etc, etc. Contas globais: perto de 80 mil milhões por ano. Isto, na década de 1960... Os problemas infra-estruturais mantêm-se, todavia, nos Estados Unidos – e Donald Trump, mais do que qualquer concidadão, deve estar consciente dessa realidade. Estará de facto?

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