Opinião

O México de Zapata y Villa nos labirintos da mitologia

Luis Alberto Ferreira

O México de Zapata y Villa nos labirintos da mitologia Em Abril de 1981, na cidade de Tapachula, sul do México, um arguto "muchacho" dizia-me: "“Não tenha a menor dúvida, com o Pancho Villa tudo isto entraria na ordem".

Estava eu no país dos olmecas para desfiar o que viriam a ser mil e uma andanças, conversas e leituras sobre a Revolução Mexicana de 1910. Francisco (Pancho) Villa, lá das longínquas terras dos tarahumaras (Chihuahua), parecia-me figura de segunda linha. No território histórico dos “grandes” da Revolución estavam Zapata, Madero, Carranza e Obregón. Esses nomes fulguravam na cúpula dos mais de 500 livros dedicados à Revolução Mexicana. Trezentos dos quais, alinhados no Instituto Nacional de Antropologia, entronizavam a figura de Emiliano Zapata, “caballerango” (domador de cavalos), que reclamava terras para os campesinos. Assim, numa casuística nada favorável à unidade cognitiva, Pancho Villa dir-se-ia remetido para a rectaguarda das urgências da minha acção vasculhadora. Até ao dia em que Luis Spota, escritor e jornalista do diário “Excelsior”, na Cidade do México, tornou claro tudo o que até ali me parecera difuso e incerto. Pancho Villa era, sem margem para evasivas, um dos cinco “grandes” da História da Revolução Mexicana. A ombrear, pois, com Zapata, Madero, Carranza e Obregón. Eles, Zapata e Villa, representavam o flanco popular.
Muito do que hoje sabemos deste México violento, traumatizado, caótico, que desfila em jornais e televisões de todo o mundo, é mais fácil de auscultar quando, recuados no tempo histórico, centramos a análise na figura de Francisco Villa, o Pancho Villa da lenda e da realidade. O caule deste raciocínio nutre-se de dois referentes primordiais: a experiência citadina de Villa perante um Zapata do mundo rural, e a reacção, a esse contraste, da alta burguesia e das classes médias mexicanas. O contraste é, por sinal, na vertente sociológica, muitíssimo apelativo.
Zapata, enquanto galvanizador e porta-voz do campo, incomodava algo menos que um Pancho Villa reptador das estruturas imperantes nos grandes centros urbanos: Cidade do México, Guadalajara, Monterrey, Cuernavaca, Jalapa, Chilpancingo, Toluca, outros  mais. A área de rejeição das pretensões revolucionárias de Zapata cobria, no México de 1910-1919, um espaço geoeconómico e social muito inferior ao do afectado, directa e indirectamente, pela avançada muito plural das reivindicações de Pancho Villa. Essa diferença encontrámo-la, explícita como o desabrochar de um girassol, na constituição das forças guerrilheiras de Zapata (camponeses) e Villa (camponeses, operários, professores, estudantes…). Como se fosse preciso mais, tornar mais agudo e mais translúcido o contraste, Villa representava o norte do México (fronteira com os Estados Unidos) e Zapata o sul e o centro-sul (com uma pouco interventiva cercania da Guatemala).
O último trecho dos vários consulados presidenciais de Porfírio Díaz (1910-1914), que a Revolução Mexicana tomou como alvo fulcral a abater, acentuou, com profundidade, no país, o que tornava diferente do “projecto Zapata” aquele outro que movia Pancho Villa. A industrialização (1910) começava a altear-se no modelo económico, os caminhos-de-ferro sublinhavam esse pendor. Renovou-se o perfil dos interesses norte- americanos e canadianos.
O petróleo suscitou a gula da França, da Inglaterra, da Alemanha Pancho Villa, com experiências centro-urbanas que Emiliano Zapata não possuía, com percepções e adaptações zonais que lhe conferiram uma incomparável elasticidade guerrilheira, fez do seu Exército do Norte um raro feixe de obstáculos para a ala burguesa da Revolução (Carranza e Obregón). E a sua força mítica ganhou robustez que, transportada para os confrontos armados, foi capaz de desafiar tropas norte-americanas em território… norte-americano (Columbus). O cúmulo viria a cifrarse na literal debandada e expulsão de 15 mil soldados dos Estados Unidos, invasores do estado mexicano de Chihuahua, quando Pancho Villa dispunha apenas de um “exército” de 400 homens. O cabo- de-guerra chegara a mobilizar mais de 5 mil combatentes.
O leitor, já, por certo, identificou nestes acontecimentos tudo o que é indispensável à criação de uma imagem de excepcionalidade. O México actual, castigado pela tenaz do narcotráfico até proporções inimagináveis, “precisa de um Pancho Villa”. É o povo mexicano quem o proclama. Assim se constroem imaginários, sofridos e quase sempre estultos imaginários. Pancho Villa era conhecido como violento, implacável, imprevisível, audaz, “capacíssimo de tudo”. Mataram-no em 1923. Quando ele começava a fruir os bens de uma vida expurgada de conflitos. Quando havia confinado a sua vida aos limites de uma “hacienda” (fazenda) e de um quotidiano esmaltado da simpleza do meio rural. Assim a sua lenda, desde a tonitruância do tiroteio que o matou, foi crescendo, electrizante, por vezes irrazoável, mas avassaladora. Com o México tão ferido de desigualdades, contradições, desconfianças, vazios, medos, pensa o povo que “sem o Pancho Villa o país torce a orelha…”. Esse é um traço angular do recôncavo da solidão do homem mexicano, dissecado já com dolorida profundidade por Octávio Paz, uma das mais altas e polémicas vozes do país. Tem força, o imaginário popular mexicano. Os tempos, porém, mudaram. Para sempre partiram, já, em anos recentes, os grandes idealistas. Já não vivem Fuentes, Monsiváis, Monttemayor, Scherer, Heberto, Villoro, Leñero. O petróleo foi privatizado.
Os sindicatos estão órfãos dos seus históricos demagogos. Os olhos do povo concentram-se na fronteira do rio Bravo, que, quando vencida, pode conduzir à morte por insolação no deserto do Arizona, ou render um emprego na vertente daquilo que os norte-americanos não gostam nem querem fazer. E, para acentuar o negrume nos labirintos da mitologia, o narcotráfico, a pobreza e a insegurança impõem a draconiana força das suas garras. Mas o México é lindo, sim. Lá onde a morte é coisa banal,as pessoas sorriem ainda à vida.

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