Opinião

Pablo Milanés e o degelo tardio das suas lembranças

Luis Alberto Ferreira

E propiciou reflexões de alta craveira “intelectual”. Como no caso do escritor cubano Carlos Montaner, que em Janeiro categorizou “os cinco erros de Obama na sua nova política sobre Cuba”.

Montaner é o fundador da União Liberal Cubana e “um dos líderes da oposição” ao regime de Havana. Difusor de ideias aparatosas, cativa numa linha para logo decepcionar e suscitar rejeição na outra. É um liberal que importa ouvir mas a quem a “Doutrina Monroe” não ensinou nada. Não se lembra, parece, de ter ouvido que Washington “não tem amigos”.
Entende  o fundador da União  Liberal Cubana que o “primeiro erro” do presidente Barack Obama consistiu em “supor que pôs fim a uma política que não funcionou”. Outro erro: “Cancelar a política de contenção sem ter com que substituí-la”. Terceiro “erro” de Obama: “O prejuízo causado à oposição democrática em Cuba”. Depois, o fundador da União Liberal Cubana deriva, filosofante, para a definição do quarto “erro” (“de carácter moral”, explicita ele) e do quinto (“de carácter legal”). Sendo dignas de toda a reflexão, as linhas-mestras do pensamento de Montaner suscitam muitas reservas, algumas bastante sérias. Se ele acha que o fim do bloqueio económico “prejudica” em Cuba “a oposição democrática”, podemos ver nisso uma postura egoísta, ou elitista, ou pacóvia, dado que a “oposição democrática” na ilha se traduz em pequenos núcleos de peso social não manifestamente influente ou apelativo para a população em geral. Ideia demonstrável nas duas recentes reportagens de rua efectuadas, em Cuba, depois do “manifesto” de Obama, por equipas da operadora brasileira “Globo”.
Se, como há dias alegou o escritor espanhol Jorge M. Reverte, “viver é o que mete medo”, os cubanos, homens e mulheres, jovens e idosos abordados nas ruas pelos repórteres brasileiros, dir-se-iam decididos a provar o contrário. Perceptível, naqueles cidadãos, o realismo inapelável da sua leitura dos factos. Da sua leitura da vida, acção norteada por uma lucidez crítica que obriga qualquer pessoa a valorar o que é afinal básico na gestão e projecção qualitativas dos dias da nossa existência. Em relação à “abertura” regimental desde logo associada à “decisão” de Obama, os muitos cubanos ouvidos pela “Globo” não esconderam as suas perplexidades. De muitos deles ouvimos ponderações ­sobre o valor aglutinante da igualdade, mensurável não apenas no acesso à educação e à saúde como, também, na segurança decorrente dos baixos índices da criminalidade. Em síntese, apurámos que os cubanos admitem, em termos lineares, apenas e só que o “seu” socialismo possa ser melhorado.
O pecado de omissão do fundador da União Liberal Cubana motiva também algumas suspeições na esfera da comparação que ele estabelece quando se refere às antigas ditaduras latino-americanas. Por ocasião dos “acidentes” aéreos que vitimaram os presidentes Jaime Roldós, equatoriano, em 1981, e Omar Torrijos, panamenho, dois meses decorridos, já o cubano Montaner dispunha de meios para questionar as versões oferecidas sobre tais “casualidades”. Que se saiba, não o fez. Montaner vem agora, lírico-patético, recordar ao presidente dos Estados Unidos as suas “obrigações morais” no continente. É de confundir o mais prevenido. Mas temos ainda, vociferante, o trovador Pablo Milanés, que começa “agora” a exibir, com envinagrada melancolia, uma espécie de degelo tardio da sua memória de “mártir fundacional”. Milanés esteve agora em Espanha e foi ao diário “El País” apresentar queixa contra os responsáveis pelo seu longínquo internamento em “campos de correcção” cubanos. O que Fidel Castro entenderia ser “corrigível” no Pablo Milanés da época, não se sabe muito bem. Actualizando: o cantautor desde há muitos anos vem actuando no estrangeiro e cobrando em dólares lá onde as “revoluções” não põem pé em ramo verde.
Conheci Pablo Milanés, em 2005, na Cidade do México. Depois de um concerto domingueiro do artista no Zócalo (centro histórico) da capital azteca, fui ao hotel, na Avenida Insurgentes, propor a Milanés uma entrevista, coisa para menos de uma hora. Na recepção do hotel, o cubano, acompanhado da secretária, mostrou-se apressado. Disse-me ter “uma quantidade de assuntos para resolver” no México. Mais um concerto? Que não, alegou, apenas “uma quantidade de assuntos”. Quem sabe, talvez a “reforma agrária”… Milanés facultou-me, então, o número do seu telefone particular em Havana. Se eu quisesse, seria só apresentar-me por lá, fosse quando fosse.
Recuemos então a 1966. Pablo Milanés, por “vícios adquiridos”, ingressou no campo de trabalhos forçados da Unidade Militar de Ajuda à Produção (UMAP), na região cubana de Camaguey. Com audácia, escapou-se Milanés do campo e foi a Havana protestar. Revista a sua “folha de serviços”, o regime, “ingrato”, contemplou o futuro trovador revolucionário com mais uns meses de trabalho forçado. Mas logo em 1967 o mutante  Milanés participava, em Varadero, Cuba, no Primeiro Encontro Internacional da Canção de Protesto. No ano seguinte, 1968, ei-lo na Casa das Américas num concerto a par de Sílvio Rodríguez, este sim identificado por convicção com os valores propugnados pela Revolução Cubana. (É tudo e só uma questão de coerência. Ao amigo, como ao inimigo, exijamos sempre e apenas coerência). Em 1972 instalava-se Pablo Milanés no movimento musical popular da “Nova Trova”. Isso permitiu-lhe coabitação artística e ideológica com trovadores latino-americanos da categoria de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Chico Buarque, Milton Nascimento, Victor Jara, muitos outros. Ele seguiu em frente. Lembrou-se, agora, de exigir que o regime lhe peça perdão. Que Cuba reconheça ser “parte do fracasso do socialismo”. Cuba poderá mesmo ser “parte do fracasso do socialismo”. Os cubanos, porém, acreditam em poder melhorá-lo. Como só se melhora aquilo que se “tem”, é de acreditar que os cubanos de hoje alguma coisa “tenham”. Oxalá Milanés e Montaner  algo “tenham” e “melhorem” no mundo e com a mesma fé.

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