Opinião

"Prisioneiros da Geografia" e do fascismo "democrático"

Luis Alberto Ferreira

Tim Marshall, jornalista e escritor britânico de grande fôlego associado a inúmeras reportagens como correspondente de guerra, tem da influência da Geografia nos conflitos armados em curso ou já ocorridos uma visão muito própria.

Eu diria certeira e aplicável à quase totalidade da história dos humanos. Há, contudo, uma analogia por estabelecer _ entre “prisioneiros da Geografia” e prisioneiros da “ficção democrática”. Na origem semântica e catalogal de muitas definições a nível mundial estão, de facto, os interesses de quem mais pode _ na economia, na tecnologia, no armamento, no acesso, enfim, à mentira mercantil opressora que impõe a artificialização “democrática” bazofiada com eleições presidenciais, regionais, estatais, municipais. À falta de um eficaz “Tribunal do Mundo”, o chamado Tribunal Penal Internacional vai fruindo, sem atritos, “vida folgada e milagrosa”.  Discrimina, tergiversa e, de quando em vez, “faz qualquer coisa”. O TPI especializou-se na captura de alegados “genocidas” em áreas de potencial “interesse” para a as intervenções esperpénticas da OTAN. Tim Marshall e a visão global que ele nos sugere em “Prisioneiros da Geografia” apenas reforça o entendimento que sempre formulámos da “visão europeia” decisória de muitas fronteiras artificiais. As do chamado Médio Oriente, por exemplo. Facilitadoras, hoje em dia, de muitas das selvajarias consentidas do Estado Islâmico. Em 2014, este bando de mercenários sustentado pelo indecifrável “Ocidente” _ o Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh _ presenteou o “mundo civilizado” do TPI com um vídeo estapafúrdio que “anunciava” uma espécie de “empurrão” na fronteira entre o Iraque e a Síria. Resta aguardar, recomenda Marshall, que se cumpra, ou não, a arenga profética do degolador ao serviço do Daesh que nos surge no vídeo: “Estamos destruindo as fronteiras e derrubando as barreiras. Damos graças a Alá”.  Quando os norte-americanos invadiram o Iraque _ o Tribunal Penal Internacional dorme, eternamente, a sono solto… _ o país de Sadam não se esgotava no petróleo. Os “marines” estavam no local quando ladrões e bandoleiros “por identificar” assaltaram e incendiaram um dos tesouros do país, a Biblioteca Nacional de Bagdad. No local estava, também, o inevitável Robert Fisk, repórter do “The Independent”, que viu transformarem-se em cinzas, “entre chamas de cem metros de altura, dezenas de documentos antigos, cartas históricas e antiquíssimos exemplares do Corão, manuscritos de literatura árabe e otomana. Além de testemunhos da guerra Iraque-Irão”, fomentada por Washington, que na altura incluía Sadam na lista dos seus “amigos” mais fidelizados. O próprio Fisk avisou os soldados norte-americanos, nas cercanias da grande e preciosa biblioteca, obtendo como reacção o típico encolher de ombros da cumplicidade. À proliferação do fascismo “democrático” em abundantes segmentos planetários assenta que nem luva esse inesquecível, para Robert Fisk, cenário da Biblioteca Nacional de Bagdad em chamas. Poucos dias antes, duas joias arqueológicas do Iraque haviam sido alvo de idêntica monstruosidade: o arrasamento do Museu Nacional e da Escola de Estudos Islâmicos. No rol de preciosidades perdidas figuravam os primeiros exemplares da escrita e dos sistemas numéricos da humanidade. No “Ocidente”superabundam os leilões de peças de arte do Mundo Árabe, tão valiosas quanto antiquíssimas: “ninguém sabe” aonde estarão 50.000 das 200.000 peças do Museu Nacional de Bagdad. A Síria destes dias “prepara-se” para todas as eventualidades. Ao processo de reagrupamento dos terroristas do Daesh varridos do país seguiram-se, já, a conhecida pretensão de Telavive e Donald Trump (transferência da capital israelita para Jerusalém) e comentários enviesados da França. Há poucos dias, na Catalunha, dois filofascistas, o peruano-espanhol Mário Vargas Llosa e o franco-catalão Manuel Valls, trânsfuga do PS francês pontapeado depois por Emmanuel Macrón, surgiram abraçados numa montagem destinada a apoiar as candidaturas da direita neofranquista nas eleições autonómicas deste 21 de Dezembro. A crónica filofascista e neofranquista de Vargas Llosa é conhecida do planeta, em particular das Américas. Em 2000, no México, Vargas Llosa intrometeu-se _ o homem nada tem a ver com o México… _ e apoiou, com intervenções clamorosas, o então candidato fascista Vicente Fox Quesada. Ambos, Vargas Llosa e Manuel Valls, “desconhecem” a permanência, nas prisões do “regime democrático” de Castela, do preso político Oriol Junqueras, “independentista” da Catalunha! E, contra todas as evidências _ de sinal contrário _ também o México desfralda bandeiras “democráticas”: na última quarta-feira, mais um jornalista mexicano foi assassinado. Desta feita, no estado de Veracruz. O assassinato de Gumaro Pérez Aguinaldo soma-se, em 2017, ao de outros 13 jornalistas mexicanos “em conflito” com o governo do filofascista Enrique Peña Nieto. O Exército e a Polícia mexicanos colaboram com os grandes “capos” do narcotráfico. Peña Nieto avança, agora, com outra iniciativa terrífica: a nova “Lei de Segurança Nacional”, que permite ao Exército e à Polícia, como no reinado do filofascista Felipe de Jesús Calderón (60 mil mortos), devassar residências e prender ou assassinar. Nas Honduras, agora mesmo, o desaforado Exército “reelegeu” o fascista Juan Orlando Hernández (fraude no Tribunal Supremo Eleitoral), responsável pelo assassinato, em 2016, de Berta Cáceres e dezenas de outros activistas sociais. E, na Argentina, o “democrata” Maurício Macri lança tropas e blindados contra a rejeição de cortes brutais nas pensões de reforma (17 milhões de afectados). Entre o sindicato da morte e a lei do número, o fascismo aposta na “tecnologia” da ficção democrática. Talvez a “grande farra” da modernidade.

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