Opinião

Sismo eleitoral em Espanha resgata valor da transição

Luís Alberto Ferreira |

Manchetes dos diários espanhóis de referência, na segunda-feira: “A derrocada do Partido Popular provoca uma reviravolta a favor da esquerda”. Veracidade ante a qual tão pouco “El Mundo” se fez rogado ou reticente: “Mudança política à custa do PP”.

 Toque a rebate nas hostes do saudosismo “falangista”. Também “El Mundo” diligencia propiciar, na sua primeira página, uma espécie de farândola  para todas as expectativas.  “Forte irrupção do partido de Pablo Iglesias (“Podemos”) e “notável ascensão do “Ciudadanos” (Cidadãos). Mais: “Barcelona e Madrid em mãos da esquerda radical”.
Como se esperaria, os dirigentes, sobretudo os candidatos, do Partido Popular (PP), no poder, trataram de compor a adequada máscara de “pessoas surpreendidas”. Mas não era caso, de maneira alguma, para tal. Qualquer sociólogo, relativo conhecedor da história da transição (do franquismo para a democracia multipartidária), sabedor dos primeiros êxitos de Felipe González e Rodríguez Zapatero, do revanchismo ideológico de Aznar e Rajoy, compreende o que aconteceu no domingo e estará, ainda, por acontecer.
 Travada em duas frentes específicas, a municipal e a comunitária (regional), a batalha eleitoral de dia 24 remunera, em particular, o invergável homem e político que foi Adolfo Suárez. Coube-lhe, após o derradeiro estertor do franquismo, timonar as acções regenerativas do sistema político-administrativo do país. Adolfo Suárez, falecido em Março de 2014, suportou com excepcional dignidade o peso dessa incumbência: a de compor uma paisagem política que priorizasse a obtenção de consensos à margem de ressentimentos. A Espanha precisava de oferecer ao mundo uma imagem de capacidade para superar traumas e constituir-se, na Europa, um novo referente das aspirações democráticas do continente. As resistências ameaçaram caotizar no país as relações entre sectores abertos à reflexão convivencial e forças convencidas, ainda, do poder de sobrevivência de uma ditadura fascista. Daí os vários episódios estremecedores, antes e depois das primeiras eleições gerais livres, em Junho de 1977. O assassinato de cinco advogados comunistas (a matança de Atocha) no centro de Madrid, teve uma relação crua e directa com a pessoa política de Adolfo Suárez: a ele se devia a legalização do Partido Comunista Espanhol (PCE). Depois, a 23 de Fevereiro de 1981 (ano da renúncia de AdolfoSuárez ao cargo de chefe do Governo), o assalto ao Congresso dos Deputados por militares avessos à democracia. Enquanto os amotinados faziam disparos de intimidação, Suárez manteve-se imperturbável no seu lugar, imitado apenas pelo comunista Santiago Carrillo. Os restantes parlamentares procuraram refúgio debaixo dos assentos. À firmeza de Adolfo Suárez deve a Espanha a liberdade que permitiu agora a “surpreendente” conquista, pela esquerda radical, do “ayuntamiento” (câmara municipal) de Barcelona. Sendo que a escolha do futuro líder municipal em Madrid é de igual modo questão desiderativa… à mercê da mesma esquerda radical.
Na sede metropolitana da Catalunha, a plataforma vencedora, “Barcelona em Comum”, viu premiada uma candidatura de causas (prementes): a luta contra as acções de despejo de famílias sem dinheiro para irem ao banco “pagar a prestação”.  Na capital do país, a plataforma “Agora Madrid”, que poderá governar com o apoio dos socialistas, estribou-se também num discurso endereçado às franjas sociais fustigadas pela pobreza e pelo desemprego. Pode acontecer que o PSOE transija e estenda a mão ao “Podemos”.
Novíssimos partidos políticos, o “Podemos”, o “Ciudadanos”, tornaram-se hoje forças decisivas na configuração de futuras presidências municipais e autonómicas. É um fenómeno tornado possível por uma soma de factos que, finalmente, dizem mesmo respeito à vida das pessoas e às responsabilidades das instituições espanholas. A 17 de Janeiro deste ano, o partido no poder (PP), de Mariano Rajoy, reincidiu, publicamente, na mentira e na pior das encenações. Após o Ministério Público ter reclamado elevadas penas de prisão para três antigos tesoureiros do PP e outros dirigentes envolvidos num monumental caso de corrupção, argumentou a cúpula do partido ser “totalmente alheia” a tal ocorrência. Ora, os governos do Partido Popular desde há muito coabitam, sem autocrítica, com o estigma da corrupção. Grave desdouro traduzido numa onda estonteante de casos obscenos. Algo que um universo considerável da sociedade  espanhola decidiu não excluir dos seus cálculos ou  opções eleitorais. Este não é, todavia, o único fautor determinante da punição do PP nas eleições de domingo.
No final de Março deste ano, um coro estrondoso de protestos eclodiu em Espanha contra a chamada “primeira reforma profunda” do Código Penal. Obra do governo do PP, a nova lei mereceu da oposição e de movimentos da opinião pública classificativos desta índole: “Populismo punitivo”, “lei repressora”, “Estado policial e penal”, “retrocesso sem precedentes em matéria de liberdades”, “sistema autoritário”, “escalada de penas desproporcionada”, “exercício despótico”, “oligarquia do medo”. Diante desta prova tão avassaladora de repúdio e indignação, reagiu um porta-voz do ministério do Interior nos termos seguintes: “Esta lei é um avanço para a convivência, um reforço da democracia e uma conquista da liberdade”. Resultado: partidos como o PSOE, o “Podemos”, o “Ciudadanos”, e plataformas como “Agora Madrid” e “Barcelona em Comum”, equacionaram nas mentes a antonomia franquismo-neoliberalismo.
O partido no poder, em Espanha, defronta agora uma sociedade cansada de abusos e de ocasiões perdidas. E este novo tempo, o da necessidade de alianças para poder ser governo, o do fim do absolutismo bipartidário  (PSOE/PP), o da descomplexidade  perante partidos e plataformas de esquerda, é um tempo que muitos milhares de espanhóis querem experimentar. Não cabe neste registo a ideia de algo tão impossível como as altas montanhas constituírem, em noites trevosas, um obstáculo às andanças das estrelas. Dir-se-ia pairar em Espanha, nestes dias, a sensação de que estará realmente ao alcance dos partidos políticos trazerem para o “ring” da política os “combates” da vida em carne viva.

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