Opinião

Terroristas a cavalo nas brechas da desordem mundial

Luís Alberto Ferreira |

Da turismofobia à descuidada e leviana ruptura identitária de multidões. A dicotomia fatal entre mochila/boné e os nababos compradores de apartamentos “modernos” em centros históricos cuja claudicação é a morte cultural das almas.

Assim vai a Europa, segmento de muitas bases militares norte-americanas mas impotente para a prevenção e contenção do terrorismo de rua. À reivindicação de uma nova ordem mundial igualitária e memorista sucede um “status”de desautorização moral generalizada.
O proprietariado, os grandes cônsules transatlânticos, refugiam-se nos cristais camuflados de suas luminosas alcáçovas. Com guarda-costas, “Secretas”, carros blindados, fotógrafos e batalhões de assessores – “eles” contemplam a rua. A rua planetária é infindável: desemprego, impostos, overdoses futeboleiras, televisões “bananeiras”, penúrias, desalojamentos, refugiados, catástrofes naturais, mudanças climáticas, pirómanos contratados, bombeiros mortos, tráfico de mulheres e crianças, desaparecidos, narcotráfico, racismo, genocídios, desinformação, fascismo, demagogia, ameaças – a desordem mundial. Perda de autoridade moral tão flagrante quão calamitosa.
Vimos as imagens de Barcelona: terrorismo, desespero numa cidade que emblematiza o verdadeiro espírito convivencial da democracia. Vimos imagens da Barcelona já enlutada. Ouvimos os discursos pastosos do poder central – do mesmo poder executivo que mantinha oculto, até há pouco, no Parlamento, em Madrid, um sistema de espionagem das bancadas opositoras. Depois dos atentados de Paris, Nice, Londres, Estocolmo, uma só conclusão: terroristas a cavalo nas oportunidades da desordem mundial. Terroristas montados na falência gritante da trave-mestra que seria, agora mesmo, a autoridade moral. Donald Trump, num rasgo estrambótico, disparoua revelação númena de “querer muito”, ter no coração, pois, o povo da Catalunha – ele que, nos Estados Unidos, alardeia o seu “querer” absolutório de racistas e saudosistas do esclavagismo. Barack Obama, já retirado dos grandes palcos, incorreu no absurdo: “Sempre apoiaremos os nossos amigos espanhóis”.
Agradecidíssimas ficariam a sociologia e a história universais se Obama explicasse a lógica dos “nossos amigos espanhóis” (bases militares em Espanha à parte), tão sabido é que da Espanha ignora Obama os mínimos fundamentais. Esses mínimos poderiam traduzir-se, modestamente, no conhecimento da trajectória de Ortega e Unamuno, da geração do “98”, face ao decisivo antagonismo entre Francisco Franco e José António Primo de Rivera, sem dúvida influenciador daquilo que é hoje a Espanha e também a Europa. Verosímil é que o povo morre nas ruas da Europa e os próceres fatigam-nos com a monocultura da litania rebuscada: “Todos somos Paris”, “Todos somos Nice”, “Todos somos Londres”. Em Portugal reina o convencimento de que “no pasa nada” e, portanto, o artificial bastará para impedir em Lisboa, ou no Porto, ocorrências como a de Barcelona. Um escriba de “vida fácil e milagrosa” sentenciava, há dias, num dos pasquins lisboetas, que “Fazer turismo é combater o terrorismo”.Nada mais absurdo, estulto e inconclusivo. Barcelona agradece ao turismo, tanto como quaisquer centros urbanos ou rurais. Há, todavia, limites – eis o que poucos consideram. A partir de Barcelona e da tragédia que a cobriu de luto – nas “Ramblas” morreram ou sofreram ferimentos cidadãos procedentes de 35 países... –  não será difícil extrair conclusões e ensinamentos.
A desordem imperante cifra-se em novos rasgos de oportunismo, demagogia e falsificação de cenários. De desprezo pelos problemas reais das pessoas. A imprensa de Madrid lançou mão da tragédia barcelonesa para desferir insinuações contra o “Parlament” da Catalunha. Dá como adquirida, já, sobre os escombros do episódio terrorista, “uma nova agenda política”... Na autonomia insular da Madeira, a queda de uma bicentenária árvore gigantesca matou e causou ferimentos em quase tanta gente como a carrinha dos “yiadistas” em Barcelona. (Negligência autárquica elitista: a árvore, que há muito deveria ter sido abatida, situava-se em zona da periferia popular...).  A mesma Barcelona é também palco de manifestações contra o turismo desgalgado que afecta a qualidade de vida dos nacionais. De novo a imprensa madrilena, ideológica, responde com estultícia, inebriada pelo discurso de um Estado (europeu) que eleva o turismo à categoria de avalista imperdível da economia nacional! Esperam-se, ainda, 80 milhões de turistas mais...
Na Venezuela, obsessão de Castela, o presidente Maduro convoca uma importante conferência de imprensa: de antemão se sabe que os jornais da capital de Espanha desconhecerão, manhosos, a ocorrência. Eis a “democracia” do “turismo salvífico”. No Afeganistão, 8.400 soldados norte-americanos: desde 2009, mais de 6.500 civis mortos, consequência também dos bombardeamentos “amigos” – não impeditivos dos atentados terroristas! Na Argentina: feminicídio imparável, 14 milhões de pobres, desemprego calamitoso, fábricas encerradas, aumentos de 50% na electricidade e de 400% nas portagens rodoviárias, repressão violenta e regresso dos fantasmas da ditadura militar: entre os desaparecidos, Santiago Maldonado, jovem activista argentino defensor dos direitos e bens da etnia mapuche. No México, novo balanço aterrador: cifra-se em mais de cinco mil o total dos restos mortais descobertos em novas valas clandestinas. E por apurar: mais de 30 mil desaparecidos. Na Colômbia, o líder da guerrilha, “Timochenko”, subscritor dos até agora falaciosos “acordos de paz”, anuncia a transformação (mais uma vez!) das FARC em partido político: Força Alternativa Revolucionária da Colômbia. Mantém-se, pois, a sigla – FARC – sinónimo do maior movimento rebeliónico popular na América do Sul dos últimos 50 anos.
“Timochenko” encarna, em toda a sua humildade, o protesto que é também o nosso, dos que reclamamos concórdia e dignidade para todos. A Colômbia da corrupção e do narcotráfico estatal e paramilitar, baluarte da propaganda neoliberal e neocolonial, é “paradigmática” das brechasda desordem planetária que os sátrapas não assumem e que os terroristas rentabilizam.

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