Opinião

Um exemplo de como certas coisas não devem suceder

Luis Alberto Ferreira

Portugal é um país da CPLP. E a CPLP não foi projectada para que algum dos países aglutinados se congratulem, hoje ou amanhã, com os tormentos de outro dos parceiros.

“Nesta altura da vida”, estranhar-se-ia que as “antigas colónias” augurassem, para Portugal, a via do infortúnio. Angola, por exemplo, desejará apenas  abrir caminho caminhando e dispensando regozijos com males alheios. O que os angolanos não devem secundarizar é o grau da atenção atribuível aos fenómenos ocorridos lá fora. Desde 1975, já consumada a independência das “antigas colónias”, os países daí oriundos têm vindo a ser, na comunicação social portuguesa, objecto de diferentes formas de “tratamento”. Quase sempre de carácter especulativo, paternalista, maldoso ou redutor. Fenómeno agravado pela sobranceria de alguns governantes portugueses, um ou outro marcado pela nostalgia das praias, lagostas e criadagem nas “antigas províncias ultramarinas”. A cura destas “enfermidades” reclama importantes ferramentas pedagógicas. Algum dia o consenso sobre racionalidade e reciprocidade será um bem institucional inamovível e tudo correrá melhor.
Com a “locomotora”, desde já – porque não? – em andamento, resulta salutar uma avaliação do que se passa agora em Portugal: uma feroz, oportunista, perigosa e demagógica campanha conspirativa, mais ou menos caótica, que desvaloriza coisas muitíssimo sérias. Tão sérias que se tornou indisfarçável a inquietação das principais autoridades e dos sectores mais conscientes e responsáveis da sociedade civil. A seu tempo saberemos o que sobre os países africanos da CPLP pensa fazer o actual governo português – dependente dos apoios parlamentares de um partido adulto, o PCP, e de um chamado Bloco de Esquerda fértil em acrobacias normalmente favorecedoras da reinstalação de governos reaccionários de direita em Portugal. Uma direita revanchista e apoiada nos troncos privados de uma comunicação social obscena, irresponsável e com manifestações muito características de um fascismo pacóvio – como pacóvio foi o colonialismo que essa mesma direita portuguesa cultivou em África. Por agora, importa observar o despautério de um fenómeno que faz do Portugal destes dias algo que não desejaremos nunca nos países africanos da CPLP: uma comunicação social escatológica à mercê de aventureiros e aventureiras que exploram, a qualquer preço, o funesto “império da imagem”: telenovelas, escândalos sexuais, crimes hediondos, futebolização dos cérebros, devassa de intimidades, reincidência no boato, na mentira, na calúnia, na especulação mais ominosa. Como se isto não bastasse, também o Estado – o presidente da República e o actual governo portugueses –  são alvo diário das unhas de uma vasta falange devorista de “políticos”, “jornalistas” e “comentadores” ou “colunistas” nunca vistos, nem ouvidos, quando o país viveu situações igualmente difíceis e lamentáveis.
Tão pouco os juízes portugueses dão importância de maior a várias “personalidades” atoladas no pântano da corrupção e da vigarice, algumas das quais se preparam, com o maior descaramento, para o regresso à presidência de alguns dos mais apetitosos municípios do norte e centro de Portugal. Em Angola, pelo menos em Angola, já conseguimos um consenso crítico notável: nem as guerras nem as armadilhas letais para a confiança de um país inteiro conduzem a algo de útil ou nobilitante. Em Portugal, há políticos que se regozijam com todo o tipo de desgraças –  na expectativa da colheita espúria de réditos que não conseguiram quando governaram o país. O tão invocado “sentido de Estado” desertou, em absoluto, de forma descomunal e primária, das filas de uma oposição que, quando esteve ao leme, fez pior, muito pior, em prejuízo de milhões de portugueses. Estas pessoas, por si só, desacreditam o recenseamento moral da propaganda da oposição portuguesa, representativa dos sectores mais iliteratos, mais atrasados e menos generosos do país. Quantos angolanos não soçobrariam, decepcionados, inseguros, frustrados, se as FAA deixassem inexplicada a inexplicável evasão de armamento de alta potência e munições de “alto calibre” de uma carismática unidade da Força Aérea angolana? Como carismática sempre havia sido, em Portugal, a base aérea de Tancos, onde se deu a espantosamente fácil “incursão” de “desconhecidos” que, no dizer do homem da rua, “são facílimos de identificar”!
O mais alarmante, nesta situação, é a alegre afoiteza com que os caciques opositores tratam de explorar o “momento”. Na SIC, inefável “especialista”, as perguntas das “entrevistadoras” são opiniões das próprias em vez de perguntas, em vez de questionamentos apegados à razoabilidade e ao bom senso mínimo. A funcionarem como bandos arregimentados, estas “jornalistas” (!!!) ilustram bem as opções programáticas de quem pretendem servir: as humanidades, em situação esmoler, já quase suplicam nos estabelecimentos universitários um milímetro de evidência, e a filosofia e o primado da cultura “desceram de divisão” – termo futebolístico consorciável com o incremento irracional e grotesco da feira dos futebóis, com a SIC, sempre “ela”, à cabeça. Incêndios – que não cessam desde há já muitos anos, governe quem governe os portugueses – roubos de armas, férias ou demissões de governantes, tudo serve para uma campanha de contornos assaltantes e picarescos. Como se não fosse hora do tal “sentido de Estado”, de consensos dialogantes, de unidade nacional.
Em tudo isto, transparece de vez a ineficácia e opacidade dos organismos da União Europeia. Preocupada com os “números”, com o selectivismo, com a retórica, a União Europeia não tem políticas activas para a preservação das culturas, da lei e dos valores cívicos – um mau exemplo para a própria Europa em geral, para os universos da juventude e o seu futuro na Europa ou em qualquer segmento do planeta.
Não nos congratulemos – fiquemos só chocados na nossa perplexidade, na nossa consternada estupefacção. Já é algo de solidário. Pior seria recolher a penates quando o mundo treme como varas verdes.

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