Opinião

Um submarino desaparecido no mar dos desaparecidos

Luís Alberto Ferreira

Margaret  Atwood, 78 anos, canadiana, escritora de excelência, respondeu à jornalista que quis saber de onde provinham as suas ideias: “Do mais obscuro da realidade.”

O povo argentino, se lhe perguntasse de onde retira as suas conclusões sobre o submarino da armada nacional há dias desaparecido na costa atlântica, replicaria de igual modo: “Do mais obscuro da realidade”… nacional. É sabido que o submergível “ARA San Juan”, da armada argentina, desapareceu em águas familiarizadas com o terror: o mar que, nos tempos da ditadura militar, tragou dezenas de “opositores” à ditadura militar lançados, vivos, de bordo dos aviões ao serviço da Força Aérea. Não invocar estas conexões seria uma forma de conivência com os genocidas. Esta não é uma novela de “activistas de salão”  palradores, feitos papagaios do ócio e da trivialidade. É uma história de vidas sacrificadas ao serviço de grandes causas humanas. Continua a suceder na Colômbia, nas Honduras, no México, na Argentina. Os mortos contam-se por milhares. A Argentina desnuda-se, a cada passo, com as suas tenebrosas particularidades, como o franquismo em Espanha. O submarino “ARA San Juan” perdeu a linha de contactos com as bases navais na manhã de 15 de Novembro. O Governo do “neoliberal” Maurício Macri só decorridas 48 horas foi informado da ocorrência. E às famílias dos 44 tripulantes do submergível, foram sendo vendidos simulacros de várias marcas. Raiava, assim, na Argentina, a ressurreição dos velhos fantasmas associados à Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Os porta-vozes, oficiais da Marinha com discurso seco e artimanhoso, num ápice desataram a ira dos familiares de quantos estavam a bordo do submarino. Essas pessoas atribuladas acorriam às instalações da base naval para ouvir uma versão que ocultava o facto mais relevante: a explosão registada a bordo, a 400 metros de profundidade, na área de provada ou provável localização do submarino, quando foi confirmada pela Marinha a perda de contactos com o mesmo. Os gritos de dor e revolta dos familiares não eram intraduzíveis, do ponto de vista ético e institucional: “Mentiram, são perversos. Puseram uma porcaria antiquada a navegar! Já em 2014 sofremos um enorme susto: o “ARA San Juan” com sérias dificuldades para emergir! Tiveram-nos aqui uma semana inteira a mentir, a protelar, a esconder a verdade!” Para a opinião pública argentina e mundial, mais graves são as acusações segundo as quais “os chefes meteram o dinheiro ao bolso e puseram a navegar pura sucata! O submarino não estava em condições de navegar com segurança!” Inegáveis é que se perderam oito dias gastando escusas e adiamentos. De considerar, também, por outro lado, as formulações técnicas e científicas da chamada Organização do Tratado de Proibição Total de Provas Nucleares (oh, os países da OTAN e os tratados!), com sede em Viena, na Áustria. Esse organismo dispõe de um núcleo de estações acústicas ocupado em verificar a não realização de ensaios nucleares. Desta feita, “verificaram”, de facto. O contrário do que teria ocorrido (a não-verificação), se estivéssemos diante dos vastos e impiedosos ensaios nucleares nas Ilhas Marshall, por exemplo. Agora, a rede de estações acústicas funcionou: “Notámos um ruído especial, coisa que durou muito pouco, algo de anómalo, singular. Um ruído breve, violento e não nuclear consistente, acompanhado de uma explosão.” O mesmo organismo explicou, ainda: “Foi uma vibração subaquática impulsiva, um sinal inusual, nas cercanias da última posição conhecida do submarino desaparecido” (águas do Golfo de São Jorge, a 432 quilómetros do litoral argentino). Um magistrado nacional advertia, entrementes: “Há informação sensível sob segredo.” De secretismos sabe, farta-se de saber o povo argentino. Que as vidas destes infelizes 44 tripulantes do “ARA San Juan” teriam, para os poderes alojados em Buenos Aires, relevância de somenos, é só a prossecução de uma política instalada. Duas realidades “fatais” colidem com estrondo: a mentalidade imperante (que a História explica e confirma) nas cúpulas governamental e castrense e as consequências do abandono e subalternização de problemas relevantes. Na Argentina actual, o investimento público em infra-estruturas navais “não é uma prioridade no orçamento da armada.” Para 2018, apenas 4,5% estão destinados a equipamentos e manutenção (!). A outra realidade é deveras pungente e faz pulsar as reservas anímicas e memoriais dos argentinos: a trevosa história da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Esta unidade da Marinha argentina ganhou fama porque nela funcionou, durante a última ditadura cívico-militar, um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de jovens opositores ao regime draconiano. Na época, o famigerado “Casino dos Oficiais” foi talvez o mais activo dos centros de repressão em funcionamento no país. Pela base naval de Porto Belgrano passaram pelo menos 5.000 dos presos desaparecidos. Depois de drogados, os “opositores” ou “rebeldes” eram levados para bordo de aviões da Força Aérea. Os aparelhos furavam os céus e, lá do alto, os carrascos da armada lançavam ao mar as suas vítimas indefesas. Sibilavam, na época (1976-1978), os ex-abruptos do sinistro Eduardo Massera, almirante-chefe da armada argentina. Ele e o director da ESMA, Rúben Chamorro, traçaram o destino final dos desaparecidos. Difícil e doloroso exercício, nos nossos dias: “escolher” entre os que pereceram, expelidos de bordo de aviões militares, no mesmíssimo mar do submarino “ARA San Juan”, e os também desditosos “assaditos”, homens e mulheres incinerados nos recintos desportivos da Escola de Mecânica da Armada. Os argentinos que, com o seu voto, propiciaram a recente eleição presidencial de Maurício Macri, deverão repensar uma antiga assertiva do seu compatriota Ernesto Sábato: “Se cruzarmos os braços, seremos cúmplices de um sistema que legitimou a morte silenciosa.” Ainda “As Veias Abertas da América Latina” era um livro em maturação. 
                                                           29-Novembro-2017

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