Opinião

Combater o plástico é lutar pelo ambiente

Luciano Rocha

Alguns dos leitores hão-de confirmar a veracidade do que lembro a seguir, quando o que comíamos, salvo raríssimas excepções, era comprado avulso, do açúcar à banha, passando pela fuba, arroz, feijão, tudo embrulhado em papel.

Os embrulhos eram feitos em papel cinzento, com absorvência, castanho, igualmente grosso, mas de melhor qualidade, igualmente usado noutros ramos comerciais, e o vegetal, reservado a fiambres, paios, enfim, a coisas que normalmente comíamos com os olhos, por serem luxos inacessíveis ao orçamento doméstico da maioria das famílias.
O azeite doce era medido em maquineta manual, instalada em cima do balcão de madeira, espécie de miniatura destinada a medir o combustível para algumas motos, era servido em vasilhame levado de casa, tal como de pala e o vinho tirado do barril em caneca metálica com a medida da quantidade pedida.
Fruta e peixe eram comprados nos mercados ou à porta de casa. Por isso mesmo, sem precisarem de embrulho. Os primeiros banhos de muitos meninos daquele tempo foi em selha, no quintal, ao ar livre, embora houvesse quem tivesse banheiras de metal. O mesmo material de que eram feitas as canecas, às vezes esmaltadas, de tomar café e chá.
Os nossos colchões eram de palha ou sumaúma. Forrados em riscado de barras azuis, brancas e vermelhas. Do mesmo tecido barato de nossas camisas feitas em casa ou mandadas fazer em “costureira de bairro” . Os brinquedos que víamos nas montras, de fazer arregalar os olhos e achatar o nariz  contra o vidro, eram de metal. Ao contrário dos carros fabricados por nós. Com  “ferros das obras”, guiador e tudo, enfeitado com rolhas pintadas de várias cores, “carroçaria” de caixote ou de metade de lata de azeite doce. Também de bordão. Que servia igualmente, com ajuda de papel de seda e “cola de sapateiro”, para pormos a voar papagaios, bacalhaus, estrelas.
Um dia, apareceu entre nós o plástico. Sorrateiro, como todos os males. Primeiro, em forma de serviços de mesa. Atraentes. Pelos tons e preço.  Mais, cada membro da família podia ter um conjunto de cor diferente. Ainda por cima, não se partiam! Num repente, ganhou terreno, estendeu os tentáculos a todos os campos. Hoje é o que sabe. Convivemos com ele. Em casa, na rua, no trabalho, restaurante, supermercados, transportes, a dormir, acordados. Na hora de fazer amor por amor sem querer ter mais filhos, com recurso a modernos preservativos.
O plástico persegue-nos a cada passo. Nas mobílias de esplanada, garrafas de água, gasosas, sumos, nos copinhos de café, chá, cacau, talheres, embalagens do pronto a comer, cosméticos, no pão já ensacado, frascos de perfumes e similares, cortinados de casa, colchas, electrodomésticos, fichas de corrente eléctrica, interruptores, aparelhos de ar condicionado, ventoinhas, geradores, vassouras, pás de lixo, computadores, baldes, bidões, máquinas de barbear descartáveis, esferográficas, porta-chaves, sacos de todas as compras de lojas de todos os ramos. Até nos cemitérios, ao que isto chegou, nas jarras, plantas, flores!
Lá fora, há bastante tempo que o alerta quanto à nocividade do plástico foi dado. Cada vez mais países tomam medidas no sentido de desencorajar o uso daquele material que, como todos os combates contra hábitos perigosos, passa pela alteração de mentalidades. Que inclui campanhas nos órgãos de comunicação social,  Internet, placares em locais públicos de maior concentração ou passagem de pessoas. Igualmente pelas escolas de todos os níveis.
Países próximos de nós já começaram o combate a este inimigo implacável do ambiente, que inclui multas para quem usa sacos de plástico. Não é somente o nosso presente que está em causa, é também o futuro das próximas gerações.

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