Opinião

A dignidade do Brasil e espionagem dos EUA

José Goulão

A resposta do Estado brasileiro aos insultos dos EUA através das acções de espionagem contra os seus principais dirigentes foi exemplar. O Presidente Obama vai ter que dar contas dos crimes cometidos pelos seus agentes e teve que assumir perante a Presidente do Brasil o compromisso de que vai investigar pessoalmente.

Já se percebeu que os dirigentes brasileiros não estão para brincadeiras e não largam o tema. Esta atitude brasileira é ousada e dissonante quando comparada com a complacência da Alemanha e respectivos súbditos da União Europeia. Qualifica-se através de uma palavra única: dignidade.
O Brasil de hoje revelou no assunto, e mostra em termos gerais, uma enorme dignidade na defesa da sua soberania, coisa que dirigentes de muitos Estados consideram ser um estorvo da uniformização burocrática e autoritária imposta pela mundialização, a qual pode muito bem ser representada em termos de imagem – veja-se a ironia das coisas – por um desfile solene do exército da Coreia do Norte. O Brasil de hoje tem vida própria, tem existência real no mundo, tem uma atitude independente e também solidária e cooperante, como muitas vezes o demonstra, principalmente, nas relações com os seus vizinhos.
 Mais do que o crescimento económico, talvez seja esta a verdadeira imagem de marca do Brasil moderno.Um Brasil cheio de problemas, de injustiças, de corrupção e outros problemas que tanto afectam as sociedades, das mais pobres às mais desenvolvidas. Um Brasil que  deu um enorme passo em pouco mais de 30 anos, desde que as ditaduras militares deixaram de aperrear tanto a capacidade criativa da sociedade brasileira como o seu direito à soberania e à dignidade, sobretudo perante o arrogante e ameaçador vizinho do norte.
 O Partido dos Trabalhadores, há três mandatos na Presidência, deixou-se arrastar pelo chamado pragmatismo do poder, como se viver num mundo neoliberal implicasse cedências sem remissão à economia neoliberal. Isto significa que o Brasil económico, mesmo o do Partido dos Trabalhadores, é um Brasil muito aquém do social que os brasileiros exigem e merecem.
Por isso os cidadãos reagem, manifestam-se, dizem ao poder, de maneira pacífica e democrática, o que está mal e o que pretendem. O faraonismo da organização em apenas dois anos do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos implica investimentos e actividade económica, mas levanta sérias dúvidas quanto às vantagens sociais do retorno sobretudo num quadro opaco e de corrupção. Por isso os brasileiros se interrogam pacificamente nos lugares que lhes pertencem, as ruas e as praças. Dessas acções a comunicação social prefere destacar os focos de violência, se calhar orientados  pelos interesses dos que estão inquietos com as afirmações soberanas do Brasil.
Os governantes brasileiros de hoje têm revelado capacidade para escutar as mensagens. Há um imenso caminho a percorrer. A noção de soberania nacional é, porém, um bom veículo para enfrentar esse trajecto. Pobres dos países que dizem fazê-lo sem saberem quem são, às quantas andam nem para onde vão. O Brasil, felizmente para os brasileiros, não é um deles.

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