Opinião

Armas químicas

José Goulão

Falemos então de armas químicas.

Agora que as puras e civilizadas consciências donas deste mundo já têm uma resolução da ONU – não a que queriam, é certo – que manda Damasco prescindir das armas de que o regime de Assad já disse prescindir, olhemos o assunto de vários ângulos e não segundo o único a que a ditadura “mainstream” pretende cingir-nos.Comecemos pela resolução. O mais importante do seu conteúdo é a exigência de que se proceda ao desmantelamento de todas as armas químicas na Síria; o mais importante da resolução não é, portanto, o som dos clarins de guerra que a propaganda globalizada nela pretende escutar através da possibilidade de, caso se verifique um somatório de improbabilidades, vir a ser discutida uma segunda resolução abrindo então, eventualmente, o caminho para a tal guerra que para os Estados Unidos e os seus belicosos amigos ficou por fazer. Ou seja, a resolução não prevê uma intervenção militar: apenas uma leitura abusiva, a exemplo do que aconteceu para que a NATO se lançasse contra a Líbia à revelia da ONU, lhe abre as portas. O mais importante da resolução é, de facto, a imposição do desmantelamento de todas as armas químicas na Síria: as do regime e as dos grupos sustentados pela NATO, Al Qaeda incluída. Além disso, todos os vizinhos da Síria, por exemplo a Jordânia, o Líbano, a Turquia, Israel, ficam avisados pela resolução de que não poderão permitir a entrada de armas químicas nesse país, com que generosamente abasteciam os chamados rebeldes, como muito bem se sabe na própria ONU.
Chegamos então ao seguinte quadro: o regime de Damasco continua a colaborar com as instâncias internacionais para que se realizem inspecções enquanto fornece dados, verificáveis, sobre os seus arsenais químicos a destruir; não existe, porém, qualquer movimento no sentido de identificar e destruir as armas químicas dos radicais islâmicos e nenhum dos vizinhos da Síria se declarou comprometido com o teor da resolução no que lhes diz respeito. Israel, bem o sabemos, é useiro e vezeiro em espezinhar resoluções do Conselho de Segurança, mas que dizer dos outros envolvidos?
É importante notar que esta resolução já existia antes de existir, a partir do momento em que a Síria aceitou a proposta russa para destruir o seu arsenal químico na sequência do desafio, ao que dizem “retórico”, lançado pelo secretário de Estado norte-americano. Não é por isso, contudo, que deixa de ser uma resolução agravando desequilíbrios estratégicos no Médio Oriente: a Síria armazenou armas químicas como resposta ao facto de Israel possuir armas atómicas e nem sequer ter ratificado a convenção contra as armas químicas. Eis-nos então perante o problema de fundo, aquele que arrasa todas e quaisquer boas intenções que possam existir nesta e outras resoluções do Conselho de Segurança. O problema decorrente de existirem armas químicas e atómicas boas e armas químicas e atómicas más, tal como existem ditaduras boas, como a da Arábia Saudita, e ditaduras más, como a da Síria. Tal como existem grupos terroristas que são bons ou maus conforme se chamem Al Shabab na Somália ou no Quénia, Al Nusra na Síria, UCK no Kosovo, Al Qaeda do Magrebe Islâmico no Mali, Grupo Islâmico Combatente na Líbia, sendo que o nome a uni-los é Al Qaeda.Existem fortes suspeitas, reforçadas pelo facto de os inspectores da ONU terem evitado identificar os responsáveis, de que o massacre químico de 21 de Agosto foi cometido pelos rebeldes, mais concretamente pelos mercenários da Al Nusra/Al Qaeda. Se as instâncias internacionais não fizerem aplicar globalmente a resolução, isto é, se escrutinarem apenas o comportamento de Damasco, deixando os rebeldes com as mãos livres, há que esperar outros massacres – que aparecerão feitos sem que, afinal, ninguém os faça.
O pior é que o estado de espírito dos donos do mundo depois de aprovada a resolução parece ser o de que finalmente alcançaram o instrumento que lhes serve para tudo. Basta passar uma vista de olhos pelas declarações da Srª Ashton, a “ministra dos Negócios Estrangeiros” da União Europeia, que sem mandato de ninguém anunciou que o grupo dos 28 está pronto a apoiar uma agressão militar contra Damasco se o regime, no seu entender, não destruir as armas químicas. No ar anda, portanto, a hipótese de uma “leitura extensiva” do conteúdo da resolução e “restritiva” quanto aos possuidores de armas químicas.
Nas palavras da Srª Ashton, como poderiam ser as do Sr. Hollande ou do Sr. Cameron, para já não falar no Sr. Obama, percebe-se o desencanto por terem sido forçados a adiar uma agressão que afinal ainda não desapareceu do programa de malfeitorias seguintes.
Quem esteve pronto a fazer uma guerra sem mandato da ONU muito menos hesitará em retomar a ideia podendo brandir uma resolução do Conselho de Segurança, mesmo que esta não a preveja. O que irão exigir a Assad logo que este se desfaça do seu arsenal químico? E até onde conseguirão ir os rebeldes à sombra desta resolução?

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