Opinião

O “beijo da morte”

Victor Carvalho

O futuro do Zimbabwe encontra-se numa encruzilhada política e judicial onde o antigo Presidente Robert Mugabe, com o golpe de rins dado em véspera das eleições ao anunciar o seu apoio à oposição, se pode ter tornado no maior aliado do partido no poder, a ZANU-PF, que ele ajudou a criar há 55 anos mas do qual se tentou agora desastradamente desmarcar.


Ao endossar o seu apoio à candidatura do líder do MDC nas recentes eleições presidenciais, Robert Mugabe mais de que “castigar” a sua ZANU-PF estava a colar Nelson Chamisa a um passado recente da história que todos os zimbabweanos querem esquecer ou, na pior das hipóteses, recordar para nunca mais repetir. Foi um autêntico “beijo da morte” que ninguém gostaria de receber, muito menos quem queria ser Presidente sabendo que só poderia ser sem o passivo de um passado comprometedor.
Chamisa e o seu MDC apresentavam-se nestas eleições como representantes da esperança num futuro melhor. Um futuro sem os erros das governações da ZANU-PF e, sobretudo, sem o “carimbo” dos crimes e das arbitrariedades cometidas durante os 38 anos de poder protagonizado, precisamente, por aquele que agora lhe deu o seu envenenado apoio.
Foi com incredibilidade generalizada que na véspera da ida às urnas, quando o país estava no período de reflexão, se viu Robert Mugabe prestar mais um, talvez o último, inestimável serviço à sua ZANU-PF ao dizer que não podia apoiar quem o havia “castigado” e que, por isso mesmo, ia votar no líder do principal partido da oposição.
Com uma simples, mas politicamente impactante declaração, o antigo Presidente colocou-se ao lado daqueles que ele havia severamente punido, especialmente em anteriores pleitos eleitorais. A forma apertada como se saldou a vitória da ZANU-PF e do seu novo líder, Emmerson Mnangagwa, deixam no ar a incerteza sobre se o desfecho das eleições foi mesmo aquele que foi oficialmente revelado caso Robert Mugabe mantivesse a boca fechada por mais algumas horas, abstendo-se dessa forma de endossar um apoio a quem o dispensava de forma absoluta, pois era evidente que iria comprometer as suas possibilidades de triunfo.
Neste momento a oposição está a tentar desfazer nos tribunais as dúvidas sobre a legalidade de todo o processo eleitoral, sobretudo no que respeita à contagem dos votos, arrastando por mais alguns dias, ou semanas, a confirmação do triunfo do candidato da ZANU-PF.
Em termos comparativos com anteriores eleições, pode verificar-se que nada de substancial se alterou: o MDC venceu onde já vencia, nos grandes centos urbanos, e perdeu onde sempre havia perdido, nas regiões do interior, menos dadas a politiquices e mais dependentes das ajudas do Estado.
O modo particularmente violento como a polícia e o exército responderam a algumas acções de protesto por parte daqueles que colocaram em causa a lisura do processo eleitoral, com seis mortes oficialmente reconhecidas, é também o mesmo que se verificou em anteriores eleições.
Tal como então sucedeu, também agora, isto não deixa antever nada de bom para Emmersom Mnangagwa e pode mesmo levar a União Europeia e os Estados Unidos a manterem por mais algum tempo em vigor as sanções que depauperaram a economia do país, adiando assim o indispensável processo de reformas económicas que só pode avançar com o apoio politico  e o financiamento desse conjunto de países.
O episódio que envolveu a detenção do antigo ministro das Finanças, Tendai Biti, também não ajuda a melhorar a imagem do Zimbabwe, pois igualmente recordar anteriores eleições, quando dirigentes do MDC foram detidos e depois libertados apenas por expressarem a sua discordância em relação ao processo eleitoral.
Depois de ter estado interinamente no poder durante cerca de nove meses, Emmerson Mnangagwa tem sobre os ombros a responsabilidade de revelar ser aquilo que Robert Mugabe nunca conseguiu: o Presidente de todos os zimbabweanos.
Numa altura em que ainda não se sabe a data da tomada de posse do novo Presidente do Zimbabwe, o tribunal tem o prazo de duas semanas para analisar o recurso do MDC, seria bom que as autoridades zimbabweanas dessem de si mesmas uma imagem menos comprometida com o passado, optando por uma postura menos musculada e mais empenhada na defesa dos interesses da população, deixando os tribunais decidir sobre a lisura de todo o processo eleitoral.

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