Opinião

O beijo da morte

José Goulão | em Berlim

Angela Merkel venceu as eleições gerais alemãs e procura agora entre os derrotados verdes e social-democratas os candidatos ao já chamado “beijo da morte”, os que pagarão o preço popular da gestão autoritária da chanceler. O Die Linke (A Esquerda) foi a terceira força política mais votada.

A chanceler alemã, também conhecida por “rainha da Europa” ou “dona da Europa” em representação dos mercados financeiros, terá ficado a três deputados da maioria absoluta, num Parlamento previsto para 606 membros, e obteve os melhores resultados de sempre da coligação democrata cristã germano/bávara (CDU/CSU) desde 1994.
Atingiu 41,5 por cento, contra 33,8 por cento em 2009 e depende agora dos sociais-democratas ou dos verdes para substituir os liberais (FDP), que depois de terem servido a “dama de ferro” durante quatro anos nem conseguiram, pela primeira vez desde 1946, os 5 por cento necessários para chegar ao Parlamento – desceram de 11,9 por cento para 4,8 por cento.
“Veremos quem se segue como vítima do beijo da morte da chanceler, o funeral dos liberais já foi”, comentou um jornalista presente nas instalações onde o FDP “fez o velório”.
Os sociais-democratas ficaram em segundo lugar e, apesar de terem subido de 23 para 25,7 por cento, mantêm-se no patamar dos seus mínimos históricos, pagando ainda a factura popular deixada pela administração neoliberal Schroeder/verdes, que deu o pontapé de saída no regime político da precariedade laboral institucionalizado pela chanceler.  O terceiro partido mais votado foi agora o Die Linke (A Esquerda), cujos eleitos no Parlamento Europeu estão inseridos na Esquerda Unitária (GUE/NGL).
Obteve 8,6 por cento, menos que os 10,7 por cento de 2009 mas suficientes para ultrapassar Os Verdes, os maiores derrotados da noite, a par dos liberais. “Foi uma noite boa para nós”, comentou Bernd Riexinger, o dirigente do Die Linke.
Os Verdes desceram de 14,6 por cento para 8,4 por cento e de terceiro para quarto lugar. O grupo que começou por ser ecologista e pacifista e que acabou ao lado da NATO no desmembramento da Jugoslávia, continua a sofrer os efeitos das cedências nas sucessivas alianças com sociais-democratas e direitistas.
Analistas alemães consideram que o maior e mais recente efeito na desagregação eleitoral dos Verdes está nos resultados impopulares das suas alianças com a direita de Merkel nos governos regionais.
O partido eurocéptico Alternativa para a Alemanha, que defende a saída do Euro, chegou a 4,7 por cento, insuficientes para entrar no Parlamento mas suficientes, segundo o seu líder, para considerar que há uma base de oposição à política da chanceler.
Angela Merkel vai assim continuar a sua política de “salvação do Euro”, como escreve segunda-feira a generalidade da imprensa económica europeia – e não só – com base na política autoritária e austeritária imposta pela Alemanha a toda a União Europeia.
O Financial Times escreve que um dos primeiros e principais problemas da chanceler “é Portugal”, sabendo-se também que para grande parte da opinião pública portuguesa, o primeiro e principal problema de Portugal é a Srª Merkel.

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