Opinião

O povo falou

José Goulão

O povo português falou. Disse muito, não tanto quanto seria de esperar, conhecendo nós o rol de patifarias a que continua sujeito, mas o suficiente para se entender que a diferença entre o que declarou e o que lhe vai na alma reflecte a luta desigual que a liberdade naufragada trava contra o polvo da política e os tubarões da economia.

O povo português falou e disse nas urnas aquilo que lhe foi possível. O povo português vive sob o medo que lhe impõem, à bruta ou através de métodos sofisticados, de que não haja mundo nem país para lá da troika, dos mercados, do Euro, da monstruosa dívida para pagar e que cresce todos os dias. O povo português vive enredado na teia de mentiras que lhe pregam diariamente, anunciando que amanhã é a chegada ao paraíso, embora saiba muito bem que hoje não é a véspera desse dia, o mais certo é ser dia para perder o emprego. O povo português sabe que quando fala, nas urnas ou nas ruas, não é escutado, porque é governado por cegos e surdos guiados por cães apátridas treinados para farejar apenas o odor do dinheiro e obedecer às ordens dos croupiers dos mercados. E quando se diz governado não se fala apenas dos que governam agora mas dos que já governaram e estão à espera de que volte a chegar-lhes a vez para continuarem o trabalhinho, numa alternância de pessoas mas não de política, como recomendam os senhores da banca.
Este é o fado do povo português. Por isso, foi muito o que este povo disse por cima das advertências, em tom de ameaça, de que estas eleições não contavam no país mas só na rua de cada um. Explicou, lá onde tinha de explicar, que está farto das tricas, das jogadas, dos egoísmos e das trafulhices partidárias, mas reconhecendo que, sendo os partidos essenciais à democracia, nem todos fazem gato-sapato da democracia.
Que disse então o povo português àqueles que não o querem ouvir e também aos que lhe mentem cinicamente ao coração quando cheira a eleições?
Disse que não quer quem governa e que também não está especialmente entusiasmado com aqueles que esperam de novo a vez depois de terem governado e entregue o país às cáfilas da finança internacional. Por isso, centenas de milhares de cidadãos portugueses refugiaram-se à volta de “independentes”, fazendo até de conta que ignoram o facto de muitos deles terem medrado à custa dos mesmos partidos que os desprezam como seres humanos. No meio de tanta mentira com que são bombardeados, deram o benefício da dúvida aos que apresentaram rótulos prometendo diferenças, novidades e seriedade. A ver vamos.
Uma expressiva fatia do povo português, por sinal daquele povo que está mais experimentado, e há muito, a sublimar o medo, disse coisas bem diferentes das apreciações sobre ganhadores e perdedores feitas pela propaganda regimental, parte una e indivisível do arco da governação, isto é, dos partidos que receberam o sopro divino directamente das catedrais do dinheiro. Em três distritos – Évora, Beja e Setúbal - os cidadãos proclamaram alto e bom som que o arco da governação é uma aberração da democracia. O mesmo aconteceu em bolsas significativas no distrito da capital, em Santarém, em Portalegre, e até mais a norte, no de Leiria. Esses cidadãos não tiveram medo, sabem que há vida para lá da troika e do arco da governação. Entre esses cidadãos estão até os que em Lisboa se deixaram iludir por uma miragem – nada imita tanto uma miragem como a demagogia – indo esporadicamente atrás da ideia de que a humanização da capital é substituível pelas envernizadelas para turista ver e abrir os cordões à bolsa. E estão também os que pretendem revitalizar a democracia através da inserção de independentes, atitude saudável desde que funcionem as antenas críticas capazes de separar a genuinidade da falsificação.
Os resultados obtidos pela CDU, a coligação que integra o Partido Comunista Português (PCP), não são analisáveis apenas à luz de um simplista “regresso às origens”, para muitos bem instalados uma espécie de ressurreição da “maldição vermelha”. O que aconteceu em Loures, Beja, Évora, Barreiro, de certa forma em Setúbal e Almada e vários outros dos 34 municípios conquistados pela CDU (29 com maioria absoluta) é que os comunistas e aliados regressaram a votações para lá dos 40, 50 e até 60 por cento em locais que entretanto estiveram geridos pelo arco da governação, em especial os socialistas.
Isto é, em imensas regiões de meio país os cidadãos experimentaram localmente a gestão neoliberal do arco da governação e não gostaram. Puderam comparar e não tiveram dúvidas: preferiram voltar à primeira escolha. A ameaça, a mentira e a propaganda não os atemorizaram.
Ora isto diz muito. Explica ao país inteiro que há uma massa social que não tem medo, que ousa enfrentar os agentes da troika. Lendo os resultados destas eleições em todo o país, há condições realistas para enfrentar a tutela estrangeira e os que internamente a servem.
O que tem faltado nos boletins de voto – e esperemos que não continue ausente nos próximos – é o quadradinho que dê legitimidade governamental a uma convergência anti-troika credível, não sectária, dotada de uma convicção democrática capaz de atirar com o arco da governação para o lugar onde agora o deixaram os eleitores de distritos como os de Évora, Beja, Setúbal, até boa parte dos de Lisboa, Santarém e Portalegre.
O arco da governação poderá um dia ter de se sujeitar a ser arco da oposição e aprender que democracia não é o mesmo que cuspir na Constituição e na República.
No dia em que essa convergência nascer verão como até os governantes ficarão curados da surdez e da cegueira.
E não será milagre, será obra de homens e mulheres conscientes de que a democracia não tem nada a ver com aquilo a que a esmagadora maioria dos portugueses está hoje submetida.

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